Drummond: Morte do Leiteiro

Publicado em artes e letras por prill em 8 jul 2007 | 13 comentários

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Na minha época de escola, tive a sorte grande de esbarrar com materiais didáticos fantásticos. Fantásticos ainda que franciscanamente simples. O meu favorito era uma fita K7 que acompanhava um dos nossos livros de literatura. Numa dessas feiras de estudantes, feira de letras ou de palavras (não lembro o nome...) eu resolvi que íamos apresentar poemas Modernistas - sim, resolvi; eu acreditava ser o Napoleão Bonaparte do meu grupo de amigas, um osso! Acabei por me atracar noites e noites com os cassetes ouvindo poemas recitados do Mário de Andrade. Meu favorito era "Ode ao burguês" (como todo bom latino-americano, eu tive lá meus momentos de petit comunista) que eu acabaria recitando inúmeras vezes pelos corredores do colégio e pelos cômodos da casa, sob aprovação amorosa do meu pai - o socialista mais capitalista que conheço. Passado esse furor vermelho e passada a feira de Letras ou Palavras (?) pude me aventurar com mais calma nos outros poemas: Manoel Bandeira, Gonçalves Dias, Euclides da Cunha e por aí foi.

Hoje a verdade é que muita coisa já está desbotada na minha cabeça, não sou genial a esse ponto: pra cada informação nova, a outra mais desusada cai lá longe. Mas ainda me parece meio fresco, lembro de cor diversos trechos e fico sempre estranhamente emocionada, instigada. Me lembra um país que eu nunca vi e de que não sinto saudades, mas que me atrai como um impulso masoquista... Bem, é este Drummond. Encontrei aqui perdido na HD e resolvi trazer pra cá. Espero que gostem. Se chama "Morte do Leiteiro".

Há pouco leite no país
é preciso entregá-lo cedo.
Há muita sede no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.

Então o moço que é leiteiro
de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom para gente ruim.
Sua lata, suas garrafas,
seus sapatos de borracha
vão dizendo aos homens no sono
que alguém acordou cedinho
e veio do último subúrbio
trazer o leite mais frio
e mais alvo da melhor vaca
para todos criarem força
na luta brava da cidade.

Na mão a garrafa branca
não tem tempo de dizer
as coisas que lhe atribuo
nem o moço leiteiro ignaro.
morador na Rua Namur,
empregado no entreposto
Com 21 anos de idade,
sabe lá o que seja impulso
de humana compreensão.
E já que tem pressa, o corpo
vai deixando à beira das casas
uma pequena mercadoria.

E como a porta dos fundos
também escondesse gente
que aspira ao pouco de leite
disponível em nosso tempo,
avancemos por esse beco,
peguemos o corredor,
depositemos o litro...
Sem fazer barulho, é claro,
que barulho nada resolve.

Meu leiteiro tão sutil
de passo maneiro e leve,
antes desliza que marcha.
É certo que algum rumor
sempre se faz: passo errado,
vaso de flor no caminho,
cão latindo por princípio,
ou um gato quizilento.
E há sempre um senhor que acorda,
resmunga e torna a dormir.

Mas este entrou em pânico
(ladrões infestam o bairro),
não quis saber de mais nada.
O revólver da gaveta
saltou para sua mão.
Ladrão? se pega com tiro.
Os tiros na madrugada
liquidaram meu leiteiro.
Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom,
não sei,
é tarde para saber.

Mas o homem perdeu o sono
de todo, e foge pra rua.
Meu Deus, matei um inocente.
Bala que mata gatuno
também serve pra furtar
a vida de nosso irmão.
Quem quiser que chame médico,
polícia não bota a mão
neste filho de meu pai.
Está salva a propriedade.
A noite geral prossegue,
a manhã custa a chegar,
mas o leiteiro
estatelado, ao relento,
perdeu a pressa que tinha.

Da garrafa estilhaçada.
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue... não sei
Por entre objetos confusos,
mal redimidos da noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora.

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13 comentários

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Adoro Drummond. Foi o primeiro poeta pelo qual me apaixonei. É livre a sua poesia. Remete-me em muitos momentos ao estilo de Minas Gerais (não poderia deixar de ser), mas ainda é mais livre. É moderno. Muitas vezes solitário.
Também é irônico. E como adoro sua ironia...
E ouvi-lo, recitando seus textos, contos, versos e prosas ainda é mais adorável.
Deixo um site , http://memoriaviva.digi.com.br/drummond/verso.htmPara que sempre contemplem a beleza da poesia com o ritmo de sua voz. Voz linda...

Sandra Leite em 8 de julho de 2007

Correção do comentário anterior: o link é http://memoriaviva.digi.com.br/drummond/verso.htm

Sandra Leite em 8 de julho de 2007

É muito bonito...

seven em 8 de julho de 2007

Bem escolhido, Prill. Eu também admiro a poesia de Carlos Drummond de Andrade. Gosto, particularmente, da "Lira do amor romântico".
:)

Dina em 9 de julho de 2007

"NO MAR ESTAVA ESCRITA UMA CIDADE" Drummond.
Escritores, poetas, pintores sempre celebraram a Cidade Maravilhosa com sua arte.
Conheça as obras de artistas que pintaram o Rio de Janeiro.>>>>>
http://museuvirtualpintoresdorio.arteblog.com.br
http://semanadeartecarioca.arteblog.com.br

Nicéas Romeo Zanchett em 23 de julho de 2007

Olá,sou estudante de Letras e estou fazendo um trabalho sobre esse poema lindo.
Se alguém puder me passar algumas informações sobre ele,ficaria muito feliz.(jamille.cb@hotmail.com)
Preciso do motivo que ele teve para escreve-lo,a concepção da época,referencias bibliograficas.
Agradeço desde já!

Jamille

Jamille em 11 de setembro de 2008

james...! malandrinha vc héim...rsrsrsrrsr
isso é golpe baixo!!!!! rsrsrsrrsr

lincon camargo em 16 de setembro de 2008

Jamille,
Olha, não sou especialista, apenas uma curiosa, mas acho que você pode começar pensando no contexto histórico em que o poema foi escrito. não há literatura destacada do tempo, nem momento histórico que não seja denunciado pela sua produção literária.

O "Morte do Leiteiro" faz parte do livro "A rosa do povo", uma antologia do Drummond lançada em 1945, ano do fim da 2º Guerra. por aí podemos já imaginar: desilusões, amarguras... para o Drummond, especificamente, há uma frustração diante dos regimes ditatoriais como o nazista, o soviético e o varguista, aqui no Brasil. aliás, naquela época, o Vargas começou a perder seriamento o apoio dos intelectuais. dizem que por esse momento o Drummond abandonou suas idéias de esquerda, mas não sei te afirmar se é verdade.

Morte do Leiteiro é uma história de cotidiano, com pitadas ácidas de revolta,mas revolta desilidida. algo como um conflito: o engajamento político (há pouco leite no país [...] há muita sede no país), desistência do engajamento (Sem fazer barulho, é claro, que barulho nada resolve..)

Os motivos que ele teve para escrevê-lo, só uma mesa branco podia nos dizer, mas você pode procurar se aprofundar no contexto da época lendo livros de história, a concepção da época é fatal que você encontre nos teus livros de literatura, bem como as referência bibliográficas na parte que trata dos Modernistas.

Muito obrigada pelo comentário. É mesmo um poema lindíssimo, cheio de significados que fazem todo sentido no nosso hoje nacional. boa sorte!

priscilla em 18 de setembro de 2008

Há muito tempo, quando fazia o curso de letras, eu ouvi esse poema, amei! Tem inúmeros significados - para alguns, a politica; para outros,o começo da violência; para mim, um passado que não vivi, mas gostaria muito de acordar e ter à minha porta uma garafa de leite fresco, deixada pelo leiteiro.

Ruth Dutra em 19 de fevereiro de 2009

...ME EMOCIONEI COM ele LENDO...A VOZ FAZ-ME LEMBRAR
DA SUA PLACIDEZ E DELICADEZA...ADOREI !

DEHY COUTINHO em 17 de março de 2009

Muito bem: nunca descuidando de meu papel de chato da galáxia, gostaria apenas de alertar que há um problema de transcrição no último verso da terceira estrofe: lê-se
"uma pequena mercadoria."
onde deveria estar
"uma apenas mercadoria."
Imagino que a transcrição foi amorosamente feita a dedo (ou seja: digitada) e aqui talvez tenha occorido um problema (consciente, inconsciente? é tarde pra saber...) na aceitação da sintaxe e conteúdo do verso.

Dummond inverteu a sintaxe natural ("apenas uma mercadoria") porque ela quebraria a métrica octossilábica do poema.

Atente-se ao fato de que Drummond usa a métrica de modo mais que inteligente: ele é classicamente modernista, e portanto não se obriga a manter o octossílabo no poema todo, mas quebra-o com muito efeito em pontos chave: "não sei" e "mas o leiteiro".

De qualquer modo, o "uma apenas mercadoria" é um golpe de estilo que ocorre com certa frequência nos poemas dele (recordo os versos "ao meu fatal lado esquerdo" e "os mesmos sem roteiro tristes périplos")...

Tá, então tudo isso foi só pra chatear porque me causa horror que as transcrições na internet frequentemente "editem" textos clássicos, e muitas vezes isso ocorre por "falha humana" totalmente não-intencional, o que no fim pode ser aproveitado pra comentários semipertinentes feito este...

Ivan em 27 de julho de 2009

gostei de mais deste poema pois desperta a atenção do leitor valeu <erisson@vc.com

ERISSON GUSTAVO em 21 de agosto de 2009

adorei o poema e tbm to fazendo trabalho sobre ele
o comentario de todos vcs me ajudará bastante obrigada.

amanda em 28 de outubro de 2009

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