Eça de Queirós, ano da graça de 1871

"Estamos perdidos há muito tempo...
O país perdeu a inteligência e a consciência moral.
Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada.
Os caracteres corrompidos.
A prática da vida tem por única direcção a conveniência.
Não há princípio que não seja desmentido.
Não há instituição que não seja escarnecida.
Ninguém se respeita.
Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos.
Ninguém crê na honestidade dos homens públicos.
Alguns agiotas felizes exploram.
A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia.
O povo está na miséria.
Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente.
O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.
A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências.
Diz-se por toda a parte, o país está perdido!
Algum opositor do actual governo? Não! "
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4 comentários
Ainda ontem lia esse texto do Eça.
Rico, profundo e profético (infelizmente por isso). De uma atualidade irritante.
É a era do cinismo. Ainda hoje!
Mas F. Pessoa me deixa ainda sonhar ....
"Não sou nada
nunca serei nada
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo".
Ainda sonho!
E ainda espero que esse texto do Eça seja apenas parte da história.
Não por causa da genialidade do Eça, mas pelo seu texto profético.
Sandra Leite em 2 de julho de 2007 às 12h24
"Quem aprende com a História corre o risco de cometer os mesmos erros." Já não sei quem disse isto, mas o Eça comprova a verdade destas palavras.
Mateus em 2 de julho de 2007 às 14h23
Quanta honra!!! Depois do Eça, Jr :-)
Dia de clássicos!
Sandra Leite em 2 de julho de 2007 às 19h46
Este texto fez-me pensar muito. Afinal, é a nossa triste sina??? Por isso temos o "Fado". Se mudarmos a data 1871 para 2008, o que vamos
encontrar de diferente? Somos um povo de brandos costumes....
Vale, que vamos tendo grandes homens. Margarida
Margarida Pinheiro em 10 de março de 2008 às 16h05
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