Viagens #5: são amigos, senhor

Publicado em outros por tajana em 4 jul 2007 | 6 comentários

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Convém avisar os ingleses: aqui é normal os homens, quando são amigos, andarem na rua de mão dada, ou mesmo abraçados. Quem não souber pode achar, à primeira vista, que é um pais estranhamente tolerante à manifestação pública de ternura homossexual. Não: são homens de barba rija - e, geralmente, de bigode. Ou rapazes a tender para o modernaço, proto-ocidentalizados, de gel no cabelo e calças de ganga meio rasgadas. Há de tudo um pouco. Já vi, inclusivamente, um trio, a andar na rua, as três mãos dadas, todas juntas, como se fizessem um juramento.

O que vou contar a seguir passou-se num táxi, no vale. Havia o motorista, um rapaz de 20 e poucos anos, e ao lado um outro rapaz novo. E ia eu no banco de trás, sozinha. O táxi parou para recolher mais um passageiro, que, em vez de vir cá para trás, entrou para a frente, preferindo partilhar o lugar do morto. Passou o braço por trás dos ombros do rapaz que já lá estava, e foram conversando. Depois fez-lhe festinhas na cabeça. E depois - vi eu com estes olhos que a terra há-de comer - deu beliscões no pescoço do motorista. Finalmente, cansado de ter o braço estendido para trás, passou-o para a frente do corpo, pegou na mão do rapaz com quem ia sentado e foram assim, de mão dada pousada nas pernas, até ao fim da viagem. Aposto que iam a falar de gajas. Creio, no entanto, que ainda não vi nada tão bonito quanto isto: em Tabant, um policia a andar na rua de mão dada com um taxista. É que nem nas revistas das testemunhas de Jeová.

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Do lado das mulheres, um fenómeno difícil de perceber é o do banho. O habitual (para homens e mulheres) é tomar um grande banho semanal, num hammam, uma divisão cujo ar é aquecido através do chão (geralmente há uma cavidade por baixo do hammam onde se acende uma fogueira). Atenção a este detalhe: não entrem descalços num hammam, que não faz bem nenhum às solas dos pés. Falo por experiência. Toda a divisão do banho fica, assim, aquecida - uma espécie de banho turco. Enchem-se grandes baldes de agua à temperatura desejada (nos banhos públicos há várias salas com várias temperaturas de ambiente e de água), sentamo-nos nuns banquinhos de plástico, sacamos da luva e do sabonete e tratamos da higiene. Nós e mais vinte. Na casa da família onde passei algum tempo vieram um dia dizer-me: "A Fátima pergunta se não queres entrar para o banho com ela". Hmm, pensei eu. Uma rapariga a convidar-me para tomar banho. A coisa não me pareceu muito normal. Por pudor e não sei mais o quê, declinei o convite, dizendo que tinha tomado banho nessa manhã (e era verdade e tudo).

Depois fiquei a pensar numa vez que tinha ido a um hammam em Marraquexe e tinha reparado que as mulheres não se lavavam apenas, mas conversavam e conversavam e conversavam umas com as outras, enquanto se esfregavam ou simplesmente descansavam. O banho é uma actividade social, como ir ao café (onde aliás só vão os homens). Semanas mais tarde, uma mulher marroquina que acabara de se instalar numa casa no vale contava-me que uma vizinha que lá aparecera lhe tinha dito que, quando fosse tomar banho, a chamasse. Parece que é mesmo normal e não devo recear convites. Dias depois disso, na mesma casa de família onde estivera primeiro, voltaram a convidar-me: "Queres vir tomar banho com as raparigas?" Voltei a recusar, mas depois fiquei a pensar se não começariam a desconfiar de que eu era um homem. À terceira, lá terá de ser.

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6 comentários

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Olá! Gostei bastante do seu blog, tem muito conteúdo interessante, parabéns! Abraços

Angelina em 4 de julho de 2007

Por favor, gostaria de saber os créditos da foto dos dois homens pegando na mão, para poder publicá-la em um jornal impresso de circulação universitária, em uma página sobre a diversidade e se podes me dar autorização para tal. Agradeço.

Alaor em 31 de julho de 2007

ser uma testemunha de jeova nao e dificil apesar de varias pessoas serem do contra muitos continuam a serem fieis porque como um leitor disse cada um tem uma religiao e segue ela da forma como quiser.....

soraia goncalves aniceto em 12 de maio de 2008

Bom, eu não entendi essa menção das Testemunhas de Jeová. Alguém poderia me explicar?

Rafael Alves em 26 de junho de 2009

Olá,
nas revistas das testemunhas de Jeová é que há geralmente imagens em que aqueles que são inimigos nesta Terra são amigos no mundo que virá depois do Juízo Final. Pelo menos, nas revistas que há em Portugal.

Tajana em 26 de junho de 2009

Costumo acompanhar o obvious, e a capacidade de aliar ao trabalho de imagem um bom trabalho de pesquisa, histórica por vezes. é bastante louvável. Mais uma vez, só vos posso dar os meus parabéns.
Neste artigo o que achei mais interessante foi o facto de isto parecer um diário de viagem, quem escreveu o artigo analisou a realidade cultural, diferente da chamada "ocidental", e ao que me parece muito ligada a um passado romano.

Só uma dúvida qual foi mesmo o país onde ocorreu esta viagem?

Tiago em 16 de outubro de 2009

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