
Convém avisar os ingleses: aqui é normal os homens, quando são amigos, andarem na rua de mão dada, ou mesmo abraçados. Quem não souber pode achar, à primeira vista, que é um pais estranhamente tolerante à manifestação pública de ternura homossexual. Não: são homens de barba rija - e, geralmente, de bigode. Ou rapazes a tender para o modernaço, proto-ocidentalizados, de gel no cabelo e calças de ganga meio rasgadas. Há de tudo um pouco. Já vi, inclusivamente, um trio, a andar na rua, as três mãos dadas, todas juntas, como se fizessem um juramento.
O que vou contar a seguir passou-se num táxi, no vale. Havia o motorista, um rapaz de 20 e poucos anos, e ao lado um outro rapaz novo. E ia eu no banco de trás, sozinha. O táxi parou para recolher mais um passageiro, que, em vez de vir cá para trás, entrou para a frente, preferindo partilhar o lugar do morto. Passou o braço por trás dos ombros do rapaz que já lá estava, e foram conversando. Depois fez-lhe festinhas na cabeça. E depois - vi eu com estes olhos que a terra há-de comer - deu beliscões no pescoço do motorista. Finalmente, cansado de ter o braço estendido para trás, passou-o para a frente do corpo, pegou na mão do rapaz com quem ia sentado e foram assim, de mão dada pousada nas pernas, até ao fim da viagem. Aposto que iam a falar de gajas. Creio, no entanto, que ainda não vi nada tão bonito quanto isto: em Tabant, um policia a andar na rua de mão dada com um taxista. É que nem nas revistas das testemunhas de Jeová.


Do lado das mulheres, um fenómeno difícil de perceber é o do banho. O habitual (para homens e mulheres) é tomar um grande banho semanal, num hammam, uma divisão cujo ar é aquecido através do chão (geralmente há uma cavidade por baixo do hammam onde se acende uma fogueira). Atenção a este detalhe: não entrem descalços num hammam, que não faz bem nenhum às solas dos pés. Falo por experiência. Toda a divisão do banho fica, assim, aquecida - uma espécie de banho turco. Enchem-se grandes baldes de agua à temperatura desejada (nos banhos públicos há várias salas com várias temperaturas de ambiente e de água), sentamo-nos nuns banquinhos de plástico, sacamos da luva e do sabonete e tratamos da higiene. Nós e mais vinte. Na casa da família onde passei algum tempo vieram um dia dizer-me: "A Fátima pergunta se não queres entrar para o banho com ela". Hmm, pensei eu. Uma rapariga a convidar-me para tomar banho. A coisa não me pareceu muito normal. Por pudor e não sei mais o quê, declinei o convite, dizendo que tinha tomado banho nessa manhã (e era verdade e tudo).
Depois fiquei a pensar numa vez que tinha ido a um hammam em Marraquexe e tinha reparado que as mulheres não se lavavam apenas, mas conversavam e conversavam e conversavam umas com as outras, enquanto se esfregavam ou simplesmente descansavam. O banho é uma actividade social, como ir ao café (onde aliás só vão os homens). Semanas mais tarde, uma mulher marroquina que acabara de se instalar numa casa no vale contava-me que uma vizinha que lá aparecera lhe tinha dito que, quando fosse tomar banho, a chamasse. Parece que é mesmo normal e não devo recear convites. Dias depois disso, na mesma casa de família onde estivera primeiro, voltaram a convidar-me: "Queres vir tomar banho com as raparigas?" Voltei a recusar, mas depois fiquei a pensar se não começariam a desconfiar de que eu era um homem. À terceira, lá terá de ser.
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