Matisse - guaches recortados

Publicado em artes e letras por seven em 14 ago 2007 11:37 AM | 2 comentários

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Parece irónico falar de Matisse, apelidado o mestre da cor, mostrando uma fotografia a preto e branco. Durante toda a sua vida o pintor dedicou todos os seus esforços a trabalhar a cor - eu sinto através da cor, terá dito. Descobriu esta sua vocação quando lhe ofereceram uma caixa de cores para se entreter durante a convalescença de uma operação ao apêndice, tinha então 20 anos. Na época de convulsões e temores que atravessou, paradoxalmente pintou a alegria, a beleza e a harmonia. Ao longo de anos captou estes temas no papel através do desenho que depois preenchia com cores lisas e vibrantes.

Em 1941 é-lhe diagnosticada uma doença incurável que o vai incapacitar cada vez mais para a pintura, ele que riscava directamente nos grandes espaços com o pincel! Matisse não se conforma com a sua incapacidade. Descobre então um novo meio de expressão ao seu alcance: o recorte. Nas suas mãos, a tesoura desenha linhas ondulantes em papeis previamente coloridos com guache. O artista prescinde do desenho e desenha directamente na cor. O resultado é surpreendente... Frequentemente deitado ou numa cadeira de rodas, o velho doente arranjou uma maneira de contrariar o destino e, ainda assim, atingir o ápice da sua carreira - a síntese das sínteses!

Divertimento de um velho paralítico, crepúsculo de um Deus, frivolidades infantis... que interessa? As formas recortadas de Matisse são diferentes de tudo o que até então se vira. Não são as colagens cubistas, o vocabulário abstracto de Kandinsky nem os signos biomórficos de Jean Arp. São um constante regresso à infância, como disse Baudelaire sobre o Génio. Em 1947 publica uma colectânea destes trabalhos a que chama sintomaticamente "Jazz - improvisos cromáticos e cadenciados". Improvisos semelhantes aos que executaria Charlie Parker no saxofone...

A tristeza do rei (1952) terá sido a sua última realização, o adeus à vida, às coisas do mundo que o rodeia e a tudo o que lhe era querido, reunindo tudo nesta obra derradeira como que para se fazer enterrar com ela, à maneira dos faraós do antigo Egipto. O rei, vestido de negro com uma viola na mão, seria o próprio Matisse.

 Matisse Recortes Colagens Guache Papel Tesoura Cor Jazz Pintura
O Tobogã (1943)

 Matisse Recortes Colagens Guache Papel Tesoura Cor Jazz Pintura
O Palhaço (1943)

 Matisse Recortes Colagens Guache Papel Tesoura Cor Jazz Pintura
A Lagoa (1944)

 Matisse Recortes Colagens Guache Papel Tesoura Cor Jazz Pintura
Nu azul (1952)

 Matisse Recortes Colagens Guache Papel Tesoura Cor Jazz Pintura
Tristeza do Rei (1952)

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2 comentários

Bom dia, Mr Seven!
Literalmente bom dia...ou boa tarde :-)
A-DO-RO a maneira que escreves...contando história, envolvendo...
Quando vejo o golpe mortal já foi aplicado.
Lindo, lindo, lindo!
Fabuloso Matisse!

beijos,

Sandra

Sandra Leite em 14 de agosto de 2007 às 13h21

Muito bom este post.
Vc escreve muito bem.Envolveu com suas palavras a situação.Tudo que for dito depois soa a chover no molhado...

Anna em 2 de setembro de 2007 às 00h30

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