Um elogio ao amor puro

Publicado em artes e letras por bjr em 2 ago 2007 05:25 PM | 8 comentários

 Amor Paixao Namoro Impossivel Saudade Beleza Miguel Esteves Cardoso
The Kiss - Gustav Klimt

"Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas.Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo. O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão.

Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, banancides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.

Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental".

Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. é uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra.

A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.

Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."

Texto de Miguel Esteves Cardoso in Expresso

Faça parte da nossa comunidade. Receba o obvious da melhor forma.
* Assine o nosso feed de RSS, orkut ou twitter.
* EMAIL semanal com o melhor da semana ou EMAIL diário.

artigos relacionados

8 comentários

Amigos,
Concordo em parte com o autor, (Cardoso né?) mas o amor é como o sexo, não pode ser sempre rompante. Deve-se equilibrar o frenético, o despudorado, com o suave, o toque gentil. Mas isso, é obvious, descobre-se, tanto um, quanto outro, vivendo, amando e fod$#@%.
Abraços e sucesso,

Nelson em 3 de agosto de 2007 às 01h30

Nananinanão.
Pô, Nelson ;)
Sexo é sempre rompante! :-)
"Amor é a lei;
Sexo é invasão.
O amor é uma construção do desejo.
Sexo não depende de nosso desejo;
Nosso desejo é que é tomado por ele.
Amor é a lei.
Sexo é a transgressão" ( e viva o Jabor)

By the way Bjr, Klint é nota 10!!!!!

beijos

Sandra Leite em 3 de agosto de 2007 às 13h37

genial, fazia tanto tempo q eu queria ler exatamente o q vc escreveu.
vo postar na minha pagina, pode ?
vou postar mesmo assim.

fernanda em 9 de agosto de 2007 às 16h21

A vida dura a Vida inteira, o amor não.
...
pode ate ser
mas eu discordo totalmentee
o amoor pode simm dura a vida inteira!

Daniel Baeta em 14 de janeiro de 2008 às 15h27

Nada é eterno, Daniel. Lembrando Vinicius:

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


(Soneto da Fidelidade)

seven em 14 de janeiro de 2008 às 23h56

Seguindo os elogios ao AMOR, fico com o poeta Maiakóvski que curiosamente, antes de conhecer Vida&Obra, muito ouvia tratarem-no (simplesmente)como oeta da Revolução Russa, mas ao ler me encantei com tamanha profundidade, intensidade e sensibilidade...

"O amor é a vida, o essencial.
É ele que provoca os versos, a ação, o resto.
O amor é o coração de tudo.
Se for interrompido, tudo morre, se torna supérfluo, inútil.
Mas se o coração trabalha, ele se manifesta em tudo.
Sem ele eu sou como morto". (Maiakóvski)


COMUMENTE É ASSIM
Cada um ao nascer
traz sua dose de amor,
mas os empregos,
o dinheiro,
tudo isso,
nos resseca o solo do coração.
Sobre o coração
levamos o corpo,
sobre o corpo
a camisa
mas isto é pouco.
Alguém
imbecilmente
inventou os punhos
e sobre os peitos
fez correr o amido de engomar.
Quando velhos se arrependem.
A mulher se pinta.
O homem faz ginástica pelo sistema Muller.
Mas é tarde.
A pele enche-se de rugas.
O amor floresce,
floresce,
e depois desfolha. (Maiakóvski)


[Em julho de 1915, por intermédio de Elsa Triolet, Maiakovski conheceu Lilia Iurevna Brik, esposa de Óssip Brik. O casal Brik era um dos centros do movimento artístico russo, participando intensamente da vida boêmia dos poetas e artistas da época, auxiliando todas as manifestações de arte nova. Vivamente interessados em qualquer tipo de pesquisa artística vanguardista, Brik se torna o grande amigo de Maiakovski.
Maiakovski apaixona por Lili. Um amor imenso, violento, desesperado, trágico, fonte de alegria e sofrimento. Fundamental em sua vida e em sua obra. Ela será para sempre a musa do poeta. Para Maiakovski, o amor é fonte de poesia e de vida. “Será terrível deixar de amar”].

Adorei o site e muito tenho navegado. Parabéns!!!

Márcia Paschoal em 27 de fevereiro de 2008 às 18h24

PS.: The Kiss, is the Best!
Fui "apresentada" à Gustav Klimt por uma professora de artes plásticas e maravilhei-me com as obras. Bela escolha.

Márcia Paschoal em 27 de fevereiro de 2008 às 18h32

Brilliant!

Caxannorma em 2 de agosto de 2008 às 23h52

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do obvious sobre as matérias em questão.







 
(obrigatório, não será mostrado no site)


Inagaki PHP Scripts site statistics Blogalaxia