11 de Setembro de 1973: chove sobre Santiago...

Publicado em outros por jr em 11 set 2007 05:36 PM | 7 comentários

 Onze 11 Setembro Chile Pinochet Allende Golpe Estado Chove Santiago Ditadura 1973

Passam hoje seis anos sobre o dia em que a América e o dito "Mundo Livre" perceberam que a espiral de hipocrisia e violência que eles próprios tinham criado e continuavam a alimentar, lhes tinha literalmente desabado sobre as cabeças. Mas esta data não pode, não deve, fazer-nos remeter para o esquecimento o primeiro 11 de Setembro, o de 1973, que marca o culminar da desbragada ingerência dos EUA nos destinos do mundo e no destino de um povo que livre e democraticamente tinha ousado escolher o seu caminho.

11 de Setembro de 1973: o governo de Salvador Allende, já completamente isolado na área militar, é derrubado violentamente. Allende e a Unidade Popular, vitoriosos, assumem o governo na sequência das eleições presidenciais de 1970. Mas não o poder, pois o aparelho de Estado e a organização burocrático-militar é mantida, no fundamental, intacta. O governo da Unidade Popular implementa, desde o início, uma melhoria significativa das condições de vida dos trabalhadores, promovendo a reforma agrária e a nacionalização de empresas estrangeiras.

Feridos de morte, os interesses económicos dos grandes grupos empresariais do país e do imperialismo, desencadeiam e alimentam por sua vez, durante três longos anos, sabotagens e boicotes com o intuito de amedrontar, principalmente, a classe média chilena, e desestabilizar o governo de Salvador Allende.

 Onze 11 Setembro Chile Pinochet Allende Golpe Estado Chove Santiago Ditadura 1973

O golpe de Estado, culminar de todos estes esforços desestabilizadores, é consumado em 11 de Setembro de 1973 na operação “Chove Sobre Santiago”, executada pelas forças mais reaccionárias e conservadoras do Chile, que teve como ponta de lança as Forças Armadas, sob a direcção da Junta Militar encabeçada pelo general Augusto Pinochet, e contou com o inestimável apoio da CIA, do governo de Nixon e Kissinger e dos governos ditatoriais da América Latina conluiados com o imperialismo norte-americano na tristemente célebre "Operação Condor".

Chegava assim ao fim, envolta no maior banho de sangue que a América Latina conheceu nas ultimas décadas, a primeira experiência de transição democrática para o Socialismo do continente americano. Juntamente com Allende, morto durante o ataque a La Moneda, pereceram às mãos do exército chileno, dos esquadrões da morte e dos grupos de extrema-direita chilena, milhares de militantes e simpatizantes da Unidade Popular e de cidadãos anónimos, que acreditaram e alimentaram a esperança de um mundo melhor e de uma vida mais justa e morreram a lutar por ela.

 Onze 11 Setembro Chile Pinochet Allende Golpe Estado Chove Santiago Ditadura 1973

 Onze 11 Setembro Chile Pinochet Allende Golpe Estado Chove Santiago Ditadura 1973

 Onze 11 Setembro Chile Pinochet Allende Golpe Estado Chove Santiago Ditadura 1973

Para eles, e para todos os que continuam a acreditar, aqui fica um tributo ao seu sacrifício e à sua coragem, nas palavras de alguém que sempre caminhou a seu lado:

En mi patria hay un monte.
En mi patria hay un río.

Ven conmigo.

La noche al monte sube.
El hambre baja al río.

Ven conmigo.

Quiénes son los que sufren?
No sé, pero son míos.

Ven conmigo.

No sé, pero me llaman
y me dicen «Sufrimos».

Ven conmigo.

Y me dicen: «Tu pueblo,
tu pueblo desdichado,
entre el monte y el río,

con hambre y con dolores,
no quiere luchar solo,
te está esperando, amigo».

Oh tú, la que yo amo,
pequeña, grano rojo
de trigo,
será dura la lucha,
la vida será dura,
pero vendrás conmigo.


El Monte y El Rio - Pablo Neruda

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7 comentários

Seven, caríssimo

Obrigada pelo retrato tão fiel a tudo que aconteceu. Da tristeza dos
"ainda" desaparecidos às feridas ainda tão abertas!
E de fato, eu "ainda" tenho esperança para a construção de um mundo mais
igualitário, menos perverso e mais humano.
Porque o que temos visto é o homem desumano.
Lindíssima homenagem...como tudo que você faz.
Abraços desse lado do Atlântico,

Sandra

Sandra Leite em 11 de setembro de 2007 às 22h28

As ditaduras sempre foram, continuam sendo e serão sempre um estupro à liberdade, um atendado ao direito mais fundamental do ser humano: o livre arbítrio.
É bom lembrar para nunca esquecermos, pois a humanidade vem repetindo esse crime ao longo de toda a sua história. Sempre em nome de uma suposta verdade.
Obrigado Seven.

Nelson Corrêa em 11 de setembro de 2007 às 23h37

gosto bastante do se blog. é uma visita diária. o minimo que posso dizer da frase com que abre o post é que é muito triste.

bruno em 12 de setembro de 2007 às 12h45

jr,
Quando li o post logo que foi publicado, o autor era o seven. Portanto caro jr, me desculpe, mas você é que merece o meu obrigado no final do comentário. Não que o seven não os mereça, merece e muito, mas esse era seu. ;-)
Abraços,

Nelson Corrêa em 13 de setembro de 2007 às 01h45

É verdade. Inicialmente saiu com o meu nome por lapso, que logo foi corrigido. Todos os cumprimentos deverão ser dirigidos ao JR e não a mim...

seven em 13 de setembro de 2007 às 01h52

JR,

Adorável!
Análise linda, poética, política, marcante, sensível e humana.
Humana (sempre é bom repetir)!

beijos de cá, da terra Brasilis

Sandra

Sandra Leite em 13 de setembro de 2007 às 06h50

Parabéns a toda a equipe!

Gostei tanto que reproduzi no meu blog.

Vida longa ao Obvious.

Val-André em 15 de setembro de 2007 às 06h49

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