Viagens #15: o assédio (parte 2)

Publicado em outros por tajana em 2 set 2007 | 10 comentários

 Viagens Tajana Marrocos Humor Pessoas Sociedade

Depois, há o assédio dos gajos. Os gajos são uns chatos. Desde logo, são muitos: cerca de 50% da população marroquina tem menos de 30 anos. Depois, diz o meu guia, o facto de terem pouco contacto com mulheres antes do casamento, e de acharem que as europeias são mais acessíveis, desperta a melga que há neles. Pergunto-me o que quer dizer para eles, em concreto, ser 'acessível'. Não é preciso ser-se nenhuma beleza, atenção. Passam por nós na rua, às vezes putos de 17 ou 18 anos, e lá vem o 'Bonjour, la gazelle!', ou qualquer coisa resmoneada entre dentes (às vezes tenho alucinações e acho que ouço os dentes deles a bater uns nos outros, felizes) ou a adivinhação da nacionalidade, ou seja o que for.

Se respondemos, começa a parte do 'Estás sozinha? Ficas até quando?'. Digo sempre que estou sozinha, mas que a minha família chega nessa noite, ou na manhã seguinte. Cheguei a usar uma aliança dourada muito manhosa, mas não notei qualquer melhoria e desisti. Se a conversa dura mais de cinco minutos, pedem o e-mail - e alguns até o telefone, que não dou. Geralmente há uma parte da conversa em que somos muito bonitas.

Muitas vezes pergunto-me se alguma vez eles conseguirão alguma coisa com estas investidas. Concluí que, mesmo que não consigam, estas abordagens para eles são, em si, um prazer, como estar sentado ao fim do dia a atirar pedras só pelo gosto de treinar a pontaria, mesmo que não se cace nenhum passarinho. Há dois dias, num restaurante no vale de Ourika, à beira-rio, o empregado falou comigo cheio de delicadezas e segredou-me que me ia fazer um desconto no preço da refeição 'parce-que vous êtes une très jolie fille'. Tentei que o meu sorriso não tivesse um ar muito enjoado, para aproveitar a promoção. Ao longo do almoço, de vez em quando dava por ele com um sorriso palerma de Cheshire Cat a olhar para mim. Um caso clássico de quem quer apenas gozar o prazer da pontaria. Provavelmente até acha que está a provar que os homens europeus não percebem nada do assunto. Um orgulho nacional.

Bom, depois há as histórias dos raptos. Nunca, aqui, senti esse tipo de receio, excepto um dia em que entrei em paranóia - e sem motivo. Infelizmente, aqueles poucos que genuinamente querem apenas ser simpáticos acabam por receber em troca a desconfiança criada por todos os outros. De vez em quando surgem oportunidades de conversar, de beber um chá ou um sumo tranquilamente, de aproveitar a simpatia e a generosidade das pessoas, e há que ter cuidado para não as desperdiçar só porque estamos sempre na defensiva. Ou então, a viagem não tem sentido. O difícil é ver a diferença de intenções. Toda a gente conhece alguém que conhece alguém cuja mulher foi raptada, menos eu. Imagino que haja malfeitores, mas nunca me cruzei com eles. Apesar do desporto nacional do assédio, e de serem, pelos nossos padrões, muito atrevidos, são homens geralmente respeitadores, e basta darmos a entender firmemente que não queremos ser perturbadas para nos deixarem. Não usar calções curtos, nem mini-saias, nem blusinhas de alças ou roupa transparente também ajuda (para além de mostrar algum respeito simpático pelos costumes locais).

Claro que há dias em que atinjo o limite. A cada 'Ssss!' que ouço ao passar, não digo nada, mas penso muito alto 'Ssss! o quê, oh palhaço?' Uma outra técnica que funciona é, se toparmos previamente que anda alguém a rondar, fingirmos que estamos ao telefone ou entrarmos numa loja até a criatura desistir. Se optarmos pelo telefone, podemos inclusivamente aproveitar para lhe chamarmos nomes sem que saiba.

Acaba por ser uma sorte que os homens marroquinos não sejam bonitos, tirando algumas gloriosas excepções. Bom, estão ainda assim alguns degraus acima dos aborígenes da Austrália ou dos hooligans-pele-de-lula, mas dificilmente ficamos com pena de deixarmos de os ver, quando conseguimos que se vão embora. E alguns têm uma grande conversa, uma daquelas conversas macias e envolventes de que temos de estar sempre a desviar-nos.

Se isso acontecer - se algum dia tivermos uma sensação ligeira de 'que pena, foi-se embora, até era simpático...', podemos sempre fazer um 'reality check' e recordar que eles têm bigode. Eles têm bigode. Eles têm bigode.

Não todos, claro.

Tajana Avatar Tajana é colaboracionista e parasita ocasional do obvious. Acredita que há uma única forma correcta de comer bolos de arroz. Saiba como publicar um artigo no obvious.
Assine a newsletter 267354rssfeed.png enviar para o delicious Enviar para o StumbleUpon Facebook Twittar este artigo

artigos relacionados

10 comentários

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do obvious sobre as matérias em questão.

Felizmente que a maioria não lê português ou durante os próximos dias haveria uma enchente nas barbearias locais para poderem cortar os (farfalhudos) bigodes... :)

André Ribeirinho em 2 de setembro de 2007

Falar assim de uma outra cultura masculina não me parece de boa política e diplomacia. Os marroquinos amam e admiram os brasileiros, em todos os lugares e nacionalidades existe homens (e mulheres)inconvenientes e "chatos", não gostar de bigodes é uma preferencia pessoal, ser abordada não é uma infamia( a menos que seja para raptá-la)e os homens marroquinos como todos os seres humanos do mundo não são feios nem bonitos..é uma questão de olhar, que passa pela subjetividade da pessoa..o que é feio pra você pode não ser feio pra os outros e vice-versa, ser etnocentrico é feio convenhamos, mas outros acham bonito...por aí se vê a subjetividade da coisa. Há homens marroquinos extremamente bonitos, com ou sem o bigode (algo másculo dependendo do olhar da pessoa). Não é melhor relatar a vivencia de uma forma mais respeitadora com a classe masculina marroquina? generalizar é uma forma de cometer muitos erros vida a fora,algo que para uma pessoa que teve oportunidade de conhecer culturas diferentes é inadmissível.

Annie Marie Ouabderhm em 12 de outubro de 2007

Talvez devesse ler estas coisas sem os preconceitos de uma pretensa etno-neutralidade que pode ser o olhar de um investigador, mas nunca poderá ser o olhar de alguém com disponibilidade para ver e conviver com as diferenças. E para se rir delas porque gosta delas. Mesmo com bigode.

tajana em 13 de dezembro de 2007

Comentário politicamente correcto, portanto...

seven em 14 de dezembro de 2007

"E para se rir delas porque gosta delas." parece sádico neh hahahahaha

Jose sanatba em 3 de fevereiro de 2008

É muito bom saber um pouco mais da cultura deles, etc etc.

Acho que este é um dos posts mais interessante que eu li.


Abraços!

Leno em 1 de abril de 2008

Bem escrito, interessante, e com um humor discreto e subtil... parabéns!

J em 1 de maio de 2008

Bem... e uma cultura diversa a cultura brasileira ... moro nos estados Unidos e um outro dia fui parada no transito por um " Marroquino" que pediu meu tel. e o cara era boa pinta, bonitao e nao tinha bigodes (odeio bigode) ... depois de duas semanas fomos a uma festa de amigos meus ( brasileiros ) ... nao tive problemas ele pareceu muito educado, solicito e com bom humor ... sua experiencia com marroquinos deve ter te deixado com trauma ... pode ter cido o bigodao :) relaxa !!!!!

Simone em 11 de junho de 2008

Antes ouvia muito falar mal deles.
Por isso nem olhava pra eles...
Mas, conheçi um no metro pediu meu telefone
então eu dei... me telefonava sempre, e eu
sempre dizendo que não dava pra sairmos, uma
noite me ligou, resolvi tomar um café , amei, são carinhosos demais
bonzinhos e o meu que encontrei é lindoooooooooo, não te
bigode graças a Deus , só tem um defeito ,fuma demais...

Ruthe Timóteo Mendes em 16 de junho de 2008

Que cargas d'água tem a ver o tal do bigode?

Cesar em 6 de fevereiro de 2009

deixe o seu comentário

Comentário

 

Seja cordial e educado. Comentários ofensivos ou pouco dignos serão apagados.


 

 

Site Meter site statistics PHP Scripts