Viagens #19: perto do chão

Publicado em outros por tajana em 30 set 2007 | 1 comentário

 Viagens Tajana Marrocos Chao Pao Pessoas Sociedade

Tudo aqui se passa mais perto do chão. (Quem diz do chão, diz do fogo - e não creio que seja coincidência.) Sentamo-nos no chão para conversar e para comer - uma perna dobrada à frente do tronco, a outra de lado, assente no chão e meio cruzada por baixo da primeira. O pão é amassado numa tigela larga de madeira assente sobre um pano, no chão. Dorme-se em cima de tapetes e cobertores dobrados no chão; por vezes em colchões baixos, mas raramente em camas. As mulheres sentam-se em banquinhos baixos a descascar batatas, cenouras e cebolas para fazer o jantar - os alguidares pousados no chão, as crianças a brincar na terra. À beira da estrada, homens e mulheres sentam-se nas pedras mais largas e lisas, à sombra, a ver quem passa, a conversar, a tomar chá, à espera de um táxi. No mercado, os legumes estão amontoados sobre plásticos estendidos no chão. Nos campos, pára-se a descansar sobre a erva, sobre a terra, sobre o chão.

À beira do rio ou dos canais, as raparigas lavam a roupa de cócoras, roupa de vestir e cobertores que batem com grandes maços de madeira depois de os pisarem num alguidar de água com Tide. Mesmo às mais velhas a idade não as impede de se baixarem com a agilidade de um movimento natural ao corpo. Ainda são elas que vão ao sítio onde as coisas estão, em vez do inverso; ainda se dobram, ainda se mexem para chegar ao fogo, à erva que cortam para os animais, às nascentes de água, à comida sobre a mesa baixa, ainda se inclinam para varrer o chão com as vassouras curtas feitas de plantas secas, por vezes com os bebés às costas, presos com um pano largo. Têm uma elasticidade de ancas e pernas invejável, imagino que por causa dessa posição de cócoras que as obriga a abrirem muito as pernas, os joelhos quase a tocar os ombros, e a inclinarem-se para a frente, e que lhes deve ser útil nos partos.

Nas cidades que aqui conheço - incluindo grandes cidades como Marraquexe e Fez, mas sobretudo nas pequenas cidades como Azilal - é também assim. Ao fim do dia, as portas abrem-se e as famílias saem para a rua à procura do ar da noite; é a grande festa da frescura, de uma eventual brisa, é a ocupação real do território pelo povo. Bermas dos passeios, caldeiras de árvores, muros baixos, jardins relvados, pequenas faixas de verde no meio das avenidas - tudo se enche de gente sentada no chão, e das conversas e dos risos e de uma ou outra voz zangada. Ouve-se música, vinda de algum lugar que não vemos. É um mar de gente que não percebemos de onde vem, como pode caber nas poucas casas que dão para a rua. É uma das diferenças mais flagrantes relativamente às cidades europeias, que se esvaziam ao pôr-do-sol.

Quando eu era pequena, na aldeia da minha avó as coisas passavam-se quase assim (e vi o mesmo em Cabo Verde). Os bancos de palhinha e os poiais à saída das casas eram baixos; as mulheres viviam agachadas na cozinha, na rua, e quando costuravam ou faziam o queijo. O progresso afastou toda esta gente do chão e da poeira; pô-los à altura do móvel da televisão, da mesa da sala e do fogão de cozinha, fê-los atravessar o país em cima de viadutos. Deu-lhes o conforto de quem já não precisa da terra e não conhece o chão que pisa.

Tajana Avatar Tajana é colaboracionista e parasita ocasional do obvious. Acredita que há uma única forma correcta de comer bolos de arroz. Saiba como publicar um artigo no obvious.
Assine a newsletter 267354rssfeed.png enviar para o delicious Enviar para o StumbleUpon Facebook Twittar este artigo

artigos relacionados

1 comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do obvious sobre as matérias em questão.

Estive este ano pela primeira vez em Marrocos, fui lá acompanhado por um casal de marroquinos que ao longo de quase três semanas nos mostraram um pouco do seu país. Ler as descrições deste blog fazem-me reviver a viagem, de tal modo as impressões aqui expostas se aproximam do que eu vivi. Bom trabalho!

QritiQ em 30 de setembro de 2007

deixe o seu comentário

Comentário

 

Seja cordial e educado. Comentários ofensivos ou pouco dignos serão apagados.


 

 

Site Meter site statistics PHP Scripts