Chícharo, o mal amado

O que vos proponho hoje caros correlegionários da lusofonia e caros amantes não lusófonos dos prazeres da mesa, é uma partilha multicultural dos sabores e dos saberes desta imensa babel do paladar que é a gastronomia. Uma troca de "repetidos" gastronómicos que ajudem a dar sabor à nossa existência e que enriqueçam a Sodoma e a Gomorra que existem escondidas nas nossas papilas gustativas. Hoje é o chícharo, amanhã conquilhas ou mesmo acarajé. Ou moamba, quiçá....! A panela está do nosso lado e cabe a vocês e a nós enchê-la com o que de melhor nos aprouver.
Por quem sois, não temais, porque vale mesmo tudo: mail, fax, comentários, carta, cinta e tudo o que no momento vos ocorra. O importante é mesmo partilhar e dar a conhecer à malta os pequenos grandes tesouros escondidos da nossa "mui nobre arte de bem rapar todos os tachos". Em frente, pois, que a vossa dízima ao paladar não cairá em saco roto. E agora, ao chícharo que a conversa já vai longa.
Praticamente desaparecido do léxico gastronómico português desde a década de quarenta, o chícharo está de volta. E em boa hora, diga-se, pois esta leguminosa muito semelhante em aspecto ao tremoço, de cultivo fácil, extremamente nutritiva e de paladar suave, conjuga-se às mil maravilhas, isolada ou em conjunto, com uma miríade de sabores tão díspares como os que vão da petinga e do peixe do rio aos enchidos, do bacalhau ao entrecosto e ao cabrito, da sopa às migas, das tartes ao pudim, sem esquecer, obviamente, o licor.


O chícharo é consumido no mundo e na península ibérica desde tempos imemoriais, como o provam os achados arqueológicos que o situam de forma horizontal nas civilizações que dominaram este canto à beira-mar plantado. Durante anos reinou à mesa dos portugueses essencialmente devido ao facto do seu fácil cultivo e propagação, quase uma planta infestante, sabor suave e capacidades nutritivas que o colocaram como um alimento acessível e quase gratuito. Alcandorado, pela força das circunstâncias, ao topo da gastronomia portuguesa durante o período de depressão política e económica do Estado Novo, quando a fome grassava à mesa dos portugueses, o chícharo foi votado ao ostracismo pela vontade do povo lusitano em varrer da memória os tempos difíceis da crise quando por fim os melhores dias chegaram.
Consumido sob diversos nomes e formas de confecção, por humanos e animais, da América à Ásia, o Lathyrus sativus L., o chícharo, parece querer recuperar em Portugal o lugar ao sol que já foi seu e fazer jus à criatividade culinária dos portugueses: pelo quinto ano consecutivo a "Capital do Chícharo", Alvaiázere, pequena cidade situada nas Terras de Sicó, levou a efeito este mês o V Festival do Chícharo, numa tentativa frutífera de recuperação do património gastronómico da região, em que o chícharo foi rei e senhor no recinto da Feira e nos restaurantes e tasquinhas da região.


Mas o manancial de receitas com chícharo, virtualmente inesgotável, será sempre uma ode à criatividade, venha ela do Brasil, do México, de Cabo Verde ou de Angola, de Portugal, de Moçambique ou da Índia. Por isso mesmo, por esse elan criativo que sabemos existir por essas terras de Deus e do Demo, vos sugerimos que se não inibam e que, caso conheçam algum "tesouro gastronómico" que envolva o bendito chícharo, o partilhem connosco. Ao chícharo, pois!
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16 comentários
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E se já há alguns anos que sou "frequentador" de uma pequena aldeia junto a Alvaiázere, só este ano tive a oportunidade de provar tão peculiar alimento. E juro, com os pés bem juntos, que a Chícharada de Coelho (entre outras especialidades) é, literalmente, de comer e chorar por mais...
luiSilva em 11 de outubro de 2007 às 10h55

Será que consigo a semente do chícharo no Brasil?
Marcelo
marcelo em 11 de outubro de 2007 às 22h02

Adorei o site!
Gostaria de deixar uma dica. Foi lançada uma agenda de compromissos criada especialmente para amantes da gastronomia. Quem quiser conferir, o site é www.agendagourmet.com.br
Abraços!
Monica em 15 de outubro de 2007 às 17h46

Entendo que o artigo é interessante. A questão do chícharo ter ficado quase no esquecimento ter a ver com a pouca produção da cultura e o trabalho com a colheita. Há que incentivar novas técnicas de produção, por exemplo, começar a semeã-lo em Portugal a partir de 15 de Novembro. Já fiz alguns ensaios e cheguei à comclusão de que num ano o chícharo semeado 3 meses mais tarde, em Fevereiro, produzia menos 5 vezes, no que diz respeito a vagens em verde. O chícharo verde é muito superior ao chícharo seco.
Gostaria que alguém me enviasse dados sobre a composição química do chícharo.
Continuem.
António Vilhena em 23 de janeiro de 2008 às 17h45

Caro amigo este velho padre bem gostaria de arranjar um pouco dessa maravilha mas infelismente não consigo
Pe. José Ricardo em 20 de junho de 2008 às 18h50

Tenho sementes de chícharo disponível e de mangarito outra iguaria que sumiu da mesa de muitos Brasileiros.Sou pesquisador da APTA (Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios) fico sediado em Monte Alegre do Sul -SP. Quem tiver interesse é só entrar em contato
JOAQUIM ADELINO DE AZEVEDO FILHO em 12 de novembro de 2008 às 13h31

Oi Joaquim gostaria muito de ter seu endereço em Monte Alegre do Sul pois a muito tempo perdi o mangarito e gstaria de ter de novo pois faz 40 anos que procuro por tal plantinha gostosa entre em contato com igo por favor vou ai comprar de vc moro em Uberaba mas tenho familia ai na sua cidade desde Já obrigada .Nadir Souza
nadirclem.13@hotmail.com
Nadir Souza em 2 de fevereiro de 2009 às 18h51

Joaquim,
Gostaria de saber das sementes que tem, e o que a APTA oferece.
Abs,
Rogério
rogerio em 28 de fevereiro de 2009 às 03h20

Joaquim,
Gostaria de obter as sementes para plantio.
Poderia fornecer as informações de como adquiri-las?
Obrigado.
ammachado@finis.com.br
Amauri Machado em 21 de maio de 2009 às 18h42

Sim, o Festival do Chícharo é qualquer coisa de fantástico. Mas Alvaiázere ainda não é cidade. :)
Pedro Rods em 22 de maio de 2009 às 22h22

Olá Joaquim, tenho interesse em adquirir as sementes de mangarito e chicharo.
gostaria de saber como consegui-las?
Obrigado,
vcontre@terra.com.br
Victor em 16 de junho de 2009 às 01h06

Mmmm.... delicioso e raro ..... Provei há cerca de 3/4 anos no algarve. Chamam-lhe também "ervilhas quadradas
:)
Alguém sabe onde se arranja aqui por Portugal e receitas culinárias desta iguaria, na net.
Obrigada bon apétit
Ana em 2 de julho de 2009 às 17h27

Sou estudante de biologia estou precisando dos desritores morfológicos de ervilhaca , sabes como posso encontrar?
Luiz Alberto Benso em 13 de julho de 2009 às 00h18

boa noite joaquim,eu vejo falar muito desse tal mangarito mas parece que é impossível de se encontrar aqui em aguas de santa bárbara- sp .vou deixar meu email para contato,se puderes entrar em contato estarei anciosamente no aguardo j.aodro@gmail.com ,agradeço antecipadamente.abrçs j. pedro
joao pedro em 19 de julho de 2009 às 04h12

http://www.historiacocina.com/gourmets/venenos/almortas.htm
Esta é a verdadeira razão da caída em esquecimento do chicharo, em Espanha chamado almorta. Envenena o sistema nervoso, e em Espanha e suspeito que em Portugal também, muita gente ficou paralítica ou morreu devido ao consumo de chicharo durante os periodos de fome e pobreza de meados do século. A doença causada pelo consumo regular de chícharo continua a manifestar-se na India e Etiópia, por exemplo.
Teresa Marques em 7 de setembro de 2009 às 13h27

Quem diria, Teresa ! Obrigada pela informação, tal nunca me passaria pela cabeça !
@n@ ch@u em 7 de setembro de 2009 às 16h37