hapiness is a warm gun: aux armes citoyens...

Publicado em outros por jr em 14 nov 2007 12:28 PM | 3 comentários

 Felicidade Politica Economia Rendimento Dinheiro Ciencia

O progresso científico abriu um novo campo de conhecimento: o da felicidade. A possibilidade de visualizar os "centros cerebrais da felicidade" e o constatar das suas alterações quando alguém diz sentir-se feliz, abriu novos rumos a este novo instrumento de análise da raça humana, e transformou a medição da felicidade em algo muito mais credível. Tornada mensurável, apesar de não existir consenso quanto aos critérios dessa medição, a felicidade passou rapidamente a ser também um objectivo político.

A regra de ouro da Economia tem sido, ao longo dos séculos, a que postula que o bem-estar aumenta em função do rendimento. E é por este motivo que estados e pessoas se afadigam: o vil metal dá-lhes capacidade de escolha e dimensão de liberdade. Mas um conjunto crescente de reflexões e estudos publicados em revistas credíveis, como o Journal of Happiness Studies, mostra aquilo que já todos nós sabíamos: a riqueza por si só não nos traz necessariamente bem-estar e é só umas das muitas variáveis a ter em conta na equação da felicidade.

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Os políticos, que não perdem uma boa oportunidade para se colocarem na primeira linha deste tipo de corridas, andam loucos para perceber então o enigma da felicidade: o que mexe realmente o ponteiro quando se trata de fazer as pessoas felizes e como poderão proporcionar-lhes esse subjectivo e complexo estado de bem-estar.

Países tão aparentemente discrepantes como a Austrália, a China, o Butão, a Tailândia e o Reino Unido estão a produzir "Índices de Felicidade" a ser utilizados a par do PIB como fontes de referência e guias para o progresso das suas sociedades. Economistas especializados em felicidade estão a ser colocados em cargos chave, como é o caso de David Blanchflower, recém nomeado assessor do Monetary Policy Committee do Bank of England, e os encontros entre líderes de nações, empresas e instituições do topo da economia mundial para debaterem medidas do progresso humano que não o PIB, sucedem-se a bom ritmo.

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A comunidade científica há um tempo que, a este respeito, já se movimenta: Richard Easterlin publicou os resultados das suas investigações e concluiu que, apesar dos ricos serem tradicionalmente mais felizes do que os pobres, o aumento da felicidade devido ao aumento dos rendimentos não é proporcional ao aumento de felicidade assim que se ultrapassa a linha do limiar da pobreza. O sociólogo Ruut Veenhoven, da Erasmus University, afirma que "a felicidade é bem mais complexa do que aquilo que se supunha", e na World Database of Happiness, que fundou, publica um relatório que hierarquiza o Coeficiente de Felicidade em 95 países e a tendência média da felicidade nas nações, com base em critérios que passam pela relação entre a felicidade e as condições da sociedade em que se vive.

Claudia Senik, professora de Economia da Sorbonne, estabeleceu num dos seus trabalhos uma relação directa entre a esperança de melhor qualidade de vida e a felicidade das pessoas, considerando que o PIB não é um indicador tão erróneo de bem-estar como alguns dos seus colegas querem fazer crer.

A Economia da Felicidade ganha cada vez mais adeptos e defensores inesperados: conservadores britânicos, burocratas chineses, militares tailandeses ou membros da casa real do Butão, inebriados com a facilidade com que se pode manipular os resultados da pesquisa sobre a felicidade de modo a servir objectivos políticos que, no mínimo, estarão longe de serem modelos de seriedade, desmultiplicam-se em iniciativas mais ou menos estruturadas, aparentemente para proporcionarem mais satisfação aos seus cidadãos.

O Governo Britânico criou recentemente um Whitehall Well-Being Working Group (W3G) para criar medidores de felicidade e avaliar as formas como os seus ministros podem dar mais satisfação às pessoas. Surayud Chulanont da Tailândia prometeu, na sequência do golpe de estado do ano passado em que tomou o poder, tornar os tailandeses não apenas mais ricos mas também mais felizes, intervindo no âmbito do Plano Quinquenal em áreas como a saúde, a educação, a família e o trabalho e alegadamente transformando essas intervenções positivas em "medidas de felicidade". A China segue-lhe as pisadas e, no âmbito da intenção de criar "uma sociedade mais harmoniosa", promete apresentar até ao fim deste ano um Índice de Felicidade como referência para futuras alterações ao modelo de sociedade chinês.

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Político é batido na arte da artimanha e não dá ponto sem nó, e o objectivo desta gesta quase se adivinha qual seja. Mas se toda esta demanda pela qualidade de vida e pelas formas e meios de a proporcionar servir, de alguma forma, para consciencializar o cidadão e expandir os seus horizontes na busca do bem estar colectivo como meio de atingir o bem estar individual, então que venha por bem. Se, pelo contrário, vier favorecer o hedonismo desbragado que a cada dia que passa deixa marcas mais profundas no nosso quotidiano e na nossa demanda de uma sociedade mais justa, então para pior mesmo já basta assim!

Cabe-nos a nós, actores em causa e contracena própria, contar espingardas e torcer o nosso destino antes que o destino nos torça a nós. Pelo nosso destino vale a pena clamarmos, alto e bom som, sem que receio algum nos impeça de tomar mais esta Bastilha: aux armes citoyens...!

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3 comentários

É curioso que numa sociedade como a nossa, que se quer cada vez mais uma sociedade do conhecimento, apareçam investigações cujo o objecto de estudo é a “felicidade” e, em paralelo, surjam outras, cuja finalidade é, fundamentalmente, fomentar a paranóia do consumo, do prazer imediato, da insatisfação. É, sem dúvida, controverso.

Também, não restam dúvidas, que a "um olhar mais demorado" pressupõe, da minha parte, um comentário mais aparvalhado :S

Dina em 15 de novembro de 2007 às 14h19

Dina

Embora haja pessoas que se preocupem genuinamente com o seu bem estar e com o bem estar dos outros, fazendo dessse bem estar um objecto de estudo com fins bem definidos, o que me preocupa é o “detournement” que o grande capital e o poder seu lacaio fazem desses estudos:
Agora que a detente cordiale entre a “cortina de ferro” e o ocidente é letra morta, o capital já não necessita de fazer concessões económicas e sociais aos trabalhadores, pois nem sequer tem que agitar o papão do comunismo e criar alternativas sociais e económicas que fascinem os trabalhadores e os impeçam sequer de considerar a hipótese de se deixarem seduzir pelo outro lado.
O capital tem contudo que manter alguma “paz social”, e mantém o espectáculo vivo criando espectativas e intervenções sociais, económicas e ecológicas que mantenham mais ou menos vísivel mas eficaz, consoante as circunstâncias, uma cortina de fumo que lhe permita quase nem deixar entrever as suas reais intenções.
Hoje em dia, mais do que nunca, o capital ordena e o poder obedece, dando uma no cravo e três na ferradura.
As grandes causas, as ideologias e quem dava a vida por elas morreram. A “direita” e a “esquerda” como as conhecíamos deixaram de existir: já não fazem sentido.
Hoje a luta coloca-se em pressupostos e assenta em bases completamente distintas que não se padecem das dicotomias passadas, embora entendê-las ajude muito a compreender as presentes.
Se não conseguirmos sentir, respirar esta grande diferença em relação ao passado, se não entendermos as suas cada vez mais subtis nuances, os requebros, as sombras chinesas do capital/poder, se não visualizarmos que o que está verdadeiramente sobre a mesa é a mesma forma de sempre de apropriação do capital, travestida com diferentes roupagens segundo os ditames dos tempos globais de acesso ao conhecimento em que vivemos, bem pensante e melhor falante, que revela preocupações ecológicas pois sem planeta não tem mais do que se apropriar, e que pretende o que sempre pretendeu a uma dimensão antes sonhada mas nunca concretizada, corremos o risco de embarcarmos lânguidamente no canto desta medusa travestida de sereia e vivermos prosaicamente “felizmente infelizes” até não termos mais gota de coisissima nenhuma para dar à górgona, e sermos cuspidos para o aterro dos que acreditaram que com papas e mel não se engana tolos.
É isto que me preocupa. Sériamente.

jr

jr em 16 de novembro de 2007 às 06h51

Jr,

Em primeiro lugar, agradeço o facto de se mostrar propenso à discussão. Reiteradas vezes, tentei fomentar o debate, mas, nem sempre sou bem sucedida. Faço-o, única e simplesmente, porque considero que a troca de opiniões/ideias, quase sempre, enriquece um blog e, portanto, poderá ser uma mais-valia para a sua comunidade.

Quanto às investigações que se por aí fazem, reparo que temos opiniões convergentes.
Ainda que algumas investigações neguem as suas intenções dúbias, considero, no entanto, que são trabalhos notáveis e que podem, certamente, contribuir para a mudança de paradigmas, quer ao nível do conhecimento (da Ciência), quer ao nível do bem-estar social.

A certa altura, refere que:
«(...) o que me preocupa é o (...) que o grande capital e o poder (...) fazem desses estudos ...»

Esse parece-me ser o “ponto nevrálgico”, não?

Penso que muitos resultados investigativos são, na maioria das vezes, usados indevidamente e tem efeitos nefastos.

Sabemos que numa sociedade consumista há necessidade de incutir uma crescente insatisfação nos consumidores. Quanto maior for a insatisfação, mais se consome. Quem gasta compulsivamente vive um vazio interior e uma ansiedade quase incontrolável.
Quem ganha com isto, quem?...

Bom fim-de-semana, malta
;)

Dina em 16 de novembro de 2007 às 18h55

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