
Quando eu era criança, a imagem que tinha das estrelas de ópera era Bianca Castafiore cantando a Ária das Jóias de Fausto de Gounod para atormentar o Capitão Haddock nos livros de Tintin. Hoje a ideia da diva de ópera como matrona foi substituída por uma nova geração de estrelas que em nada ficam a dever às de cinema e televisão.
Um dos mitos sobre a vida de Maria Callas é que quando decidiu emagrecer, perdeu capacidade vocal e a sua carreira definhou. É contudo a imagem de uma Maria Callas elegante ao lado de Onassis que sobrevive nos media e na nossa memória. E parece-me apropriado, visto que a palavra Diva é italiano para Deusa e as Deusas que veneramos hoje em dia são necessariamente elegantes e belas, mais próximas de uma Mimi de La Bohème do que de uma Valquíria de Wagner.
Cecilia Bartoli, Angela Gheorghiu, Natalie Dessay são algumas das divas que hoje preenchem o imaginário e os ouvidos dos amantes de ópera no mundo todo. A Bartoli está frequentemente nos tops explorando a história do género nos seus CDs de luxo, como Opera Proibita e Maria, uma homenagem à primeira das divas, Maria Malibran. Angela Gheorghiu casou com o brilhante tenor Roberto Alagna e estou certo que fazem duetos maravilhosos em conjunto.
O caso que mais me fascina actualmente, contudo, é o de Natalie Dessay. Francesa de nascimento, iniciou a sua carreira antes dos vinte anos, novíssima, se pensarmos que a voz atinge o seu potencial máximo por volta dos trinta e tal anos. Não tem sido uma carreira fácil, contudo, e foi já operada às cordas vocais por duas vezes e por duas vezes regressou triunfalmente. Tem já concertos marcados até... 2014. Podemos vê-la e ouvi-la aqui abaixo em “Glitter and Be Gay”, uma ária da ópera Candide de Leonard Bernstein, um dos mais brilhantes compositores do século XX.
É uma ária que só uma virtuosa consegue cantar, pois além de exigir uma voz capaz de notas agudíssimas, exige igualmente técnica respiratória apurada (sobretudo para as gargalhadas) e uma coisa que costuma faltar a muitos cantores de ópera... capacidade para representar, entre a desilusão, o humor e o sarcasmo.
Luis Soares é escritor e colabora com o obvious. Mais informações e textos deste autor no seu blog pessoal:blog.luis.soares
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