fotografias que abalaram o mundo: Vulture

Publicado em fotografia por jr em 13 nov 2007 12:25 PM | 7 comentários

Opressao Sofrimento Fome Pulitzer Kevin Carter Fotografia Sudao Africa Sul Necklacing Execucao

Em 1994, o prémio Pulitzer de Fotojornalismo foi ganho com esta fotografia chocante de uma criança sudanesa, que viria a atrair as atenções do Mundo para o drama humanitário que se vivia, e ainda vive, no Sudão e um pouco por todo o Continente Africano. Campo de ensaio do mundo dito civilizado que tenta há séculos arrogantemente impôr modelos de organização social, política e económica baseados nos seus conceitos civilizacionais, a África permanece um continente tribal, sem que contudo os "civilizadores" alguma vez tenham descurado a sua recompensa para o "magnânimo gesto", quase renascentista, de "espalhar a fé e a democracia pelos cafres": o saque.

O fotógrafo sul-africano Kevin Carter foi o autor desta fotografia obtida em 1933 em Ayod, um pequeno distrito do estado de Junqali, Sudão, que percorreu o Mundo inteiro: a figura esquelética de uma pequena menina, totalmente desnutrida, vergando-se sobre a terra, esgotada pela fome, prestes a morrer, arrastando-se para um campo alimentar da ONU que distava um quilómetro dali, enquanto em segundo plano a figura negra e expectante de um abutre aguarda a morte da garota.

Carter disse que esperou cerca de vinte minutos para que o abutre se fosse embora e, como tal não sucedia, rapidamente tirou a foto, espantou o abutre açoitando-o, e abandonou o local o mais rápido possível.

Muitas vozes se levantaram na época contra a atitude de Carter, comparando-o de certa forma ao abutre e questionando-o porque não tinha ajudado a criança. Embora na altura os fotógrafos tivessem um código de conduta rígido que implicava, neste tipo de cenários, nunca se abeirarem das pessoas famintas pela possibilidade de transmissão de doenças, Kevin confessou estar arrependido por não ter ajudado a menina.

Carter era um dos integrantes do chamado Bang-Bang Club, um grupo de quatro amigos, fotojornalistas, que se dedicaram a expôr aos olhos do mundo o brutal regime do apartheid sul-africano. Em meados dos anos 80 Carter foi o primeiro a fotografar uma execução pública por necklacing na África do Sul, e ao longo da sua carreira vivenciou incontáveis episódios de violência em teatros de guerra e de desastre humanitário.

Opressao Sofrimento Fome Pulitzer Kevin Carter Fotografia Sudao Africa Sul Necklacing Execucao

Dois meses depois de ter recebido por esta imagem o Pulitzer Prize for Feature Photography de 1994, amargurado e castigado pela culpa, psiquicamente instável, dependente de estupefacientes e destroçado pela morte de um dos seus amigos íntimos e elemento do Bang-Bang Club, Ken Oosterbroek , Kevin Carter suicidou-se. Tinha 33 anos e deixou esta nota de despedida:

"I am depressed ... without phone ... money for rent ... money for child support ... money for debts ... money!!! ... I am haunted by the vivid memories of killings & corpses & anger & pain ... of starving or wounded children, of trigger-happy madmen, often police, of killer executioners...I have gone to join Ken if I am that lucky."

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7 comentários

JR,

Mais um post brilhante!

Tive a oportunidade de conversar com um grande fotojornalista brasileiro, Evandro Teixeira. Disse ele que ”o momento certo para realizar uma fotografia vem do seu olhar. É o momento do realismo inusitado, a sua maneira de falar da vida”.

Essa imagem sempre me impressionou muitíssimo (por vários motivos), assim como o suicídio do fotógrafo. O registro da imagem foi um marco para o mundo. Tenho dúvidas quanto à melhor decisão a ser tomada pelo fotógrafo.

O sentimento que fica, pra mim, é de total impotência diante das injustiças sociais.

Sandra Leite em 13 de novembro de 2007 às 13h46

Mas foi em 1933??? Não né?

Sandra Leite em 13 de novembro de 2007 às 13h53

Esta história faz-me sempre recordar o fim da Diane Arbus, cujo trabalho admiro. Também ela parece ter sofrido com o mundo que fotografou...

MN em 16 de novembro de 2007 às 11h16

Naquela ocasião o fotógrafo é quem estava a espreita da morte da criança, a foto que lhe rendeu fama na minha opinião mostra que o animal irracional e não sentimental não é o abutre e sim o Kevin que poderia ter ajudado a criança naquele momento. Pra falar a verdade, a foto realmente tem um impacto trágico que nos faz refletir sendo útil até então mas não vejo glória do ângulo em que a foto foi tirada a impotência só é presente nos que vêem a imagem, pois me parece que ele poderia de alguma forma ajudar aquela alma.

Michael em 23 de março de 2008 às 06h14

É muito difícil julgar... Acredito que dramas emocionais todos vivem... É incontestável o trabalho relevante que mostrou ao mundo a forma diferenciada em que alguns ainda vivem e despertou um sentimento humanitário em todos que tem a oportunidade de ver e constatar que isso é real!Triste, mas verdadeiro! Fazemos a diferença quando estendemos a mão, quando dentro de nosso prórpio lar eliminamos qualquer tipo de desperdicio e conscientizamos que isso poderá ser espalhado...Fazendo cada um a sua parte... o seu melhor!!!

Andréia Dantas em 23 de março de 2008 às 12h42

É incrível a situação em que o mundo se encontra lá fora e também por aqui no Brasil em alguns lugares não muito distante.Admiro muito o trabalho de kevin carter,imagino como ele se sentiu culpado por não ter ajudado aquela criança da foto,pois assim ele descreve em um trecho de sua carta antes de se suicidar...Só Deus põe misericórdia nos corações das pessoas,mais podemos tentar ser melhores e bons a cada dia que passa.

Danielle Onorato Coimbra Santos em 12 de abril de 2008 às 02h37

É evidente que naquele momento Kevin pensava numa foto que cala-se fundo no coração daqueles que a vissem mais tarde. Após registro ele teve a oportunidade, que nós hoje não temos agora, de ajudar a menina e isso lhe custou a vida. Hoje não podemos mais ajudar a menina dessa foto, mas muitas outras meninas e meninos como essa esperam nossa ajuda e bem mais próximo do que imaginamos. Precisamos agir mais!!

Josemar de Lima em 13 de maio de 2008 às 19h35

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