déjà vu: o bug cerebral

Publicado em outros por jr em 24 nov 2007 12:31 PM | 4 comentários

 Deja Vu Paramnesia Emile Boirac Fabrice Bartolomei Leeds Memory Group Alan Brown

Dura somente umas fracções de segundo, traduz-se por uma estranha impressão de já ter vivenciado a cena presente e mesmo saber o que se vai passar em seguida, ainda que a situação que esteja a ser vivida seja inédita. O déjà vu, ou paramnesia como também é conhecido, tem sido ao longo dos anos objecto das mais díspares tentativas de interpretação, mas para nós, comuns mortais, continua a ser um quebra-cabeças inexplicável.

Émile Boirac, filósofo, cientista e esperantista francês, profundamente interessado em pesquisas na área da parapsicologia, deu o nome, em 1876, a este fenómeno curioso que durante anos foi considerado como sendo uma reminiscência de vidas passadas, prova segundo alguns, da existência de reencarnação.

Sigmund Freud dava-lhe outra explicação: as cenas familiares seriam visualizadas nos sonhos e depois esquecidas e, segundo ele, eram resultado de desejos reprimidos ou de memórias relacionadas com experiências traumáticas. Outra das explicações propostas fazia depender o fenómeno de uma similitude entre elementos da cena vivenciada e elementos de outras passadas mediada por um fenómeno emocional.

Ao longo dos tempos a vastíssima Ciência Médica foi avançando diversos cenários para o fenómeno e hoje os progressos nas Neurociências fazem emergir várias hipóteses: uma decalage no encaminhamento das percepções por diferentes vias nervosas que leva a que a informação retardada não seja considerada pelo cérebro como “nova”, é uma delas.

A forma como o cérebro memoriza uma informação, colocando-a directamente na memória a longo prazo sem passar primeiro pela memória a curto prazo, podendo fazê-la parecer uma recordação longínqua em vez de uma informação do presente, é outra das teorias propostas para o fenómeno.

Fabrice Bartolomei, Neurologista francês, vem agora propor uma explicação diferente que começa a tornar-se consensual nos meios científicos: o “déjà vu” será resultado de uma fugaz disfunção da zona do cortex entorrinal, situado por baixo do hipocampo e que se sabia já implicada em situações de “déjà vu” comuns em doentes padecendo de epilepsia temporal.

 Deja Vu Paramnesia Emile Boirac Fabrice Bartolomei Leeds Memory Group Alan Brown

Experiências de estimulação do córtex entorrinal com recurso a eléctrodos demonstram que as pessoas submetidas a esta estimulação sofrem sensações de familiaridade com tudo o que os rodeia em 11% dos casos, contra 2% nas pessoas em que somente as zonas vizinhas do córtex entorrinal são estimuladas. Testes realizados com macacos, evidenciando a activação do córtex entorrinal em situações de descoberta de um novo elemento num conjunto, parecem também apoiar a teoria da existência desse “bug” cerebral.

 Deja Vu Paramnesia Emile Boirac Fabrice Bartolomei Leeds Memory Group Alan Brown

Experiências conduzidas por investigadores do Leeds Memory Group permitiram recriar em laboratório e com recurso à hipnose sensações de "déjà vu", no que parece constituir uma nova base de trabalho para o esclarecimento do fenómeno que mereceu de Alan S. Brown, reputado investigador e autor de pesquisas nesta área da Southern Methodist University, comentários muito positivos.

Outros dados apontam para que situações de stress ou fadiga possam favorecer, neste contexto disfuncional, o aparecimento do fenómeno, mas a causa precisa deste “curto-circuito” cerebral permanece ainda desconhecida. Até lá, até que as Neurociências venham fazer definitivamente luz sobre o assunto, vamos gerindo com uma pontinha de estupefacção e de incredulidade os nossos “Esta cena parece-me familiar. Mas onde raio é que eu já vi isto?

Bugs Felizes.

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4 comentários

Enfim alguém explicou parte dos "bugs" cientificamente pra mim. Tenho bugs...hummmmm;)
Sempre acreditei um pouco mais na linha freudiana (era a mais sensata, diz uma economista :-) ), mas adorei essa visão neurológica!
Ah, e parabéns pela "casa nova". Se já era dependente do Obvious (que não leia a Dina), agora tanto mais!

bjs daqui.....


PS: Em tempo, NUNCA tive problemas com os meus comentários no Obvious :-)

Sandra Leite em 24 de novembro de 2007 às 15h17

Não sou especialista em nada, mas tenho opinião:
Acredito, como Freud, que as pessoas têm desejos e ânsias que são rebatidas incessantemente pela nossa mente (conscientemente ou não), de tanto rebatê-las criam-se conjuntos de situações "prováveis" que às vezes, de fato, acontecem. Ademais, os detalhes mais minuciosos são moldados pela mente a fim de deixar tudo *familiar*.
Digamos: estava pensando em uma garota incessantemente. Em sonhos, em pensamentos tudo convergia a ela. Como tinha uma festa que *sabia* que ela também iria comecei a imaginar, em sonhos, o melhor jeito de me aproximar dela e coisas do gênero, afinal, tenho 15 anos. No dia da festa acorreu tudo *igual* ao que eu tinha imaginado, até coisas improváveis como cores de vestidos e acontecimentos inusitados.
Acredito que esses acontecimentos inusitados não foram previstos como eu acreditei inicialmente, mas sim *impostos* pelo meu próprio raciocínio o qual me *forçou* a aceita-los como se já tivessem sido previstos. Eu não imaginei a cena e os detalhes *inimagináveis* apenas ao vivenciá-los os enquadrei, inconscientemente, na cena. O que causou impressão de já tê-los vivenciado.

Ícaro.182 em 25 de novembro de 2007 às 16h55

Essa é uma das teorias, Ícaro. Obrigado por comentar e volte sempre

seven em 25 de novembro de 2007 às 22h33

dificil será convencer os espiritas do contrário.

franz stockler em 13 de janeiro de 2008 às 03h29

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