Eva sob o olhar de Irina Ionesco: dos 5 aos 10 anos

Publicado em fotografia por prill em 23 nov 2007 06:24 PM | 11 comentários

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As imparidades de sua trajetória se refletem num olhar apurado sobre o que de insondável há na alma feminina por uma tangente de sensualidade. Mesmo antes de sua primeira exposição, em 1975, a fotógrafa francesa Irinia Ionesco já havia despertado o interesse de um grupo particular de artistas; mas seu êxito – paradoxal - e aclamação viriam de seu maior escândalo; a exposição Eloge de Ma Fille entraria na galeria Nikon de Paris e era esse mesmo olhar fetichista agora voltado para ela, Eva Ionesco... dos 5 aos 10 anos, em ensaios eróticos.

Segundo Irina, a proposta que originou a série de fotografias surgiu da própria Eva; eram sem dúvidas anos muito diferentes dos nossos, de uma busca e aceitação da liberdade sexual, ou ainda da liberdade dos corpos. Como mulher e artista, fruto de sua época, não pareceu estranho à francesa que Eva também pudesse ser alvo de fotografias simbolistas e que fosse focada exatamente como as outras mulheres, adultas, alvos das lentes de Irina.

As datas divergem - uns falam em 4 a 11 anos, outros de 5 a 10 anos de idade; ficamos aqui com a segunda possibilidade por ser a mais encontrada nas fontes – mas, sistematicamente, ano após ano, a fotógrafa utilizou sua filha como modelo em fotografias branco & preto de extremo apuro e ousadia. Ousadia até maior que a encontrada nas demais imagens obsessivas produzidas por Ionesco, muito maior. Eva aparece em nus, mas o efeito aterrador é o mesmo se ela é capturada vestida, como isso? É intrigante.

Assim a menina Eva surge como criança-mulher nos mesmos ares sombrios, ornada com dezenas de jóias ou bijuterias ordinárias, artefatos que falam deste mundo particular onde convivem delírio, morte, sensualidade e paixão. Seria quase uma entidade, um totem, um mito... Mas Eva era e é real: o choque é inevitável. Comunidade artística e opinião pública se puseram maciçamente contra Irina; a primeira – que já classificava seu trabalho como um desfile de maus gostos – considerou a coleção como o ápice dos absurdos, aquilo simplesmente não era arte. Já o público, numa oposição já esperada e recorrente, a execrou alegando uma falta explícita de moralidade.

Nada disso, logicamente, impediria Eloge de ma fille de entrar para a história da fotografia e do erotismo. Mesmo hoje, em que vivemos tempos de tão intenso tráfego de material de pedofilia, tempos que talvez nos turve a visão para certos aspectos fascinantes do bizarro ou do cruel, as fotografias que Irina Ionesco fez de sua filha permanecem inadvertidamente cheias do mesmo conceito, da mesma busca pela natureza do ser mulher vista através dos anos que passam para Eva e a revelam tão ou mais terrível (e uso terrível no sentido de espantoso) que a Lolita de Nobokov.

Abaixo, ficam aos leitores suas próprias interpretações, choques, achaques, absolvições ou engrandecimentos à obra prima de Irina Ionesco.

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Epílogo
Há muito mais o que ser dito, refletido e debatido sobre a obra de Ionesco – que ainda produz. Um ou dois artigos é certamente pouco, fora que limitados pelo meu conhecimento pouco frente a trabalhos tão místicos. Mas, aos que se interessam, Eloge de ma Fille é hoje também um coffee table publicado pela Alice Press, com primeira edição em 2004.


Lsoares AvatarPriscilla Santos é aspirante a historiadora e colabora extasiada com o obvious. Mais informações e textos da sua autoria no seu blog pessoal: Limão Expresso

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11 comentários

É realmente interessante e chocante o trabalho de Irina. Mas não se pode esquecer da proposta artistica e simbolica de suas fotografias.

Quimera em 24 de novembro de 2007 às 03h47

concordo plenamente.Isto é arte e as intenções são a simbologia expressa nas fotografias,mas é claro o mundo todo anda receoso e enrraivecido com a pedofilia e certamente que nos tempos que correm não seria boa ideia divulgar imagens destas.

daniel em 7 de dezembro de 2007 às 02h32

Concordo com você e por isso só comentei o valor artistico das fotos, bem feitas e criativas... Não costumo ver o lado ruim das coisas... gosto de ver as coisas boas. Mas realmente é verdade o mundo hoje tem mostrado casos horriveis de pedofilia e claro que sou contra isso.
Bjos e brigada pela atenção!

Quimera em 7 de dezembro de 2007 às 14h00

Daniel e Quimera: hesitámos antes de colocar aqui estas imagens e a Prill teve muito cuidado ao explicar claramente o contexto em que foram feitas. Ainda bem que souberam olhá-las demoradamente...
Obrigado pelos vossos comentários e voltem sempre.

seven em 7 de dezembro de 2007 às 22h50

e fizeram muito bem.e apoio novas iniciativas do genero desde (como voces o fizeram exemplarmente) que as imagens sejam situadas no seu conteudo historico,porque olhando para os anos 70 ou 80 estas fotografias encaixam na perfeição.como ja o referi,optimo trabalho :)

daniel em 8 de dezembro de 2007 às 22h44

Obrigado Daniel. O mérito é da Prill

seven em 9 de dezembro de 2007 às 01h00

Lindas fotos.

De uma agressividade e sutileza impressionantes.

Sr. Billy Shears em 12 de janeiro de 2008 às 00h13

Tal e qual, Mr. Shears.

seven em 12 de janeiro de 2008 às 15h07

Ao mesmo tempo lindo é também assustador, é só olhar como caminha a humanidade.

Leal em 6 de fevereiro de 2008 às 13h35

Acho de muto bom gosto as fotos. Só acho que Eva tomou outro rumo como no filme Maladolescenza aos 12 anos, que a fez uma menina erótica.

Luiz Paulo em 25 de fevereiro de 2008 às 21h03

É muito mais fácil execrar um belíssimo trabalho em favor de uma hipocrisia crônica. Bom que tem pessoas que conseguem ver o lado belo e porque não, erótico, sem cair na dita hipocrisia.

Zeb em 6 de maio de 2008 às 05h46

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