
Perdoem-me uma história um pouco mais pessoal, mas acho que é um bom exemplo da civilização global em que vivemos e da velocidade que nos sacode com a evolução da tecnologia e da economia. Tudo começou com a encomenda de alguns livros na Amazon inglesa. Até aqui tudo bem.
Só que os livros da Amazon inglesa, por questões de logística e racionalidade na organização das infra-estruturas desta empresa americana são agora enviados a partir de um armazém na Alemanha, para ser mais preciso, em Staufenberg (seja lá isso onde for). Informou-me a Amazon, quando expediu os livros, que seria a DHL o transportador, que a viagem não duraria mais de cinco dias e deu-me ainda um número que me permitia descobrir, no próprio site da Amazon, onde se encontrava a minha encomenda, milagre da integração de sistemas.
Mas aqui é que começam as complicações. Mal foi entregue pela Amazon supostamente à DHL, qualquer rasto da encomenda desapareceu. O número fornecido não era reconhecido nos sites da DHL internacional ou portuguesa. A Amazon continuava a dizer-me que tinha entregue a encomenda à DHL e esta se encontrava em trânsito. Isto uma semana depois.
Uma visita ao site da DHL alemã começou a desvendar o mistério. É que a DHL (originalmente Dalsey, Hillblom e Lynn, um trio que iniciou um serviço de transportes para o Hawaii em 1969) é desde 2002 propriedade dos correios alemães, a Deutsche Post, numa clara estratégia de se-não-os-podes-vencer-junta-te-a-eles, típica da globalização.
Usando o site da DHL alemã descobri que já tinham tentado entregar-me a encomenda, mas eu não estava em casa. Não deixaram nenhum aviso, mas um telefonema para a DHL portuguesa fez-me descobrir que em Portugal, não era a DHL responsável por entregar a encomenda, mas sim... os bons velhos correios portugueses. Portanto, a DHL não era a DHL, um serviço global, apenas uma marca aplicada ao tradicional envio de uma encomenda usando os correios alemães e portugueses.
O último passo da saga foi uma visita ao site dos Correios (quando deixou de estar em manutenção) e aí descobri que a minha encomenda está na estação de correios mais próxima. Note-se que o carteiro esqueceu-se de deixar o aviso a dizer isto mesmo e o atraso decorrente foi afinal o que me lançou nesta aventura de procura de informação.
Gostava de ter uma moral mais satisfatória para esta pequena história, mas a verdade é que se limitou a mostrar-me uma vez mais como é simultaneamente mais fácil e mais difícil, mais rápido mas mais confuso, com mais informação mas mais desencontros, este novo mundo da logística global.
Luis Soares é escritor e colabora com o obvious. Mais informações e textos deste autor no seu blog pessoal:blog.luis.soares
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