Para que serve a Arte Contemporânea?

Publicado em artes e letras por lsoares em 28 nov 2007 12:22 PM | 24 comentários

Arte Contemporanea Industria Banalidade Povo Democracia Andy Warhol

O título contém já uma falácia. A arte não tem de obrigatoriamente de servir para nada. Ou tem? Partamos do princípio que sim, que tem de ter alguma utilidade, mesmo que seja do universo mais íntimo e pessoal e nunca chegue a ser vista por mais do que meia dúzia ou, no limite, uma pessoa apenas. Este é um post muito pessoal, com uma opinião muito pessoal.

Noutro dia, em conversa ao almoço, ouvi sobre a arte contemporânea uma frase que não ouvia há muito tempo: “até eu fazia aquilo”. Apercebi-me, após três livros escritos com muito suor que é no verbo fazer que está a diferença. A arte não está nos museus e nas galerias, nas livrarias e nas salas de cinema e de concerto, não está nas paredes e nunca, nunca está acabada. A arte é um verbo, como o amor (já lá diziam os Massive Attack), é uma acção, é uma palavra de “fazer” e não de “estar”. Por isso é que nem toda a gente é artista.

Pode ser-se artista por ter talento indizível, por se querer ganhar dinheiro, por se trabalhar sem dormir, por se ser psicologicamente instável, por intuição ou racionalidade puras, por raiva, por amor, por tristeza ou imensa alegria, mas nunca se pode ser artista parado. Um artista é alguém que faz. É alguém que age sobre um motivo, seja ela a beleza ou o nojo, a morte ou uma lata de sopa de tomate. E ao fazer, mesmo que nunca fosse essa a sua intenção, interroga. A si próprio, aos que o rodeiam ou ao passado, a toda a sociedade ou apenas a uma restrita plateia.

É claro que nem toda a arte nasce igual, porque por muito que quiséssemos, nem todos colocamos as mesmas perguntas da mesma maneira, com a mesma acuidade; uns serão recordados para sempre, outros cairão no esquecimento, alguns poderão ser redescobertos passados duzentos anos, a maior parte será apenas mais uma pincelada no espírito do tempo.

Todo este preâmbulo para ter uma opinião. A arte contemporânea está em grande parte mercantilizada e industrializada. No princípio do século passado, Duchamp demonstrou que bastava mudar o urinol de sítio e posição para ele nos interrogar como, digamos, um quadro. Não é por grandes obras serem produzidas por génios desplicentes que acabam a ganhar fortunas que devemos, numa espécie de snobeira invertida, desprezá-los. Apenas os critérios mudaram e a arte deixou de ser, dominantemente, a arte do “belo”.

Hoje, a arte, como grande parte da actividade humana, é a procura de limites, interiores e exteriores, visuais e materiais, de tempo e espaço, usando como plasticina todas as tecnologias ao dispor do artista, do clássico escopro ou pincel a robots no limite da consciência, a instalações vídeo, camas com lençóis sujos ou... quadrados pretos sobre fundo preto.

Lsoares AvatarLuis Soares é escritor e colabora com o obvious. Mais informações e textos deste autor no seu blog pessoal: blog.luis.soares
 
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24 comentários

Excelente post, Luís! Isto dá pano para mangas. É um assunto que por aqui já passou várias vezes e que nunca se esgota.
Concordo contigo parcialmente: a arte implica uma acção, dizes tu. Ok. Mas não basta fazer. Interessa sobretudo a razão porque se faz. Penso que é o significado da acção que determina, em primeira instância, o estatuto de obra de arte. Se é boa ou não, a seguir se verá.

seven em 28 de novembro de 2007 às 12h33

Só para fazer o link para os Terroristas 2.0, a democratização do gosto, da opinião, do consumo e produção de texto e imagem, da política (claro), esse processo com milhões de mortos e muitas vítimas de todos os tipos que ocorreu na sociedade ocidental no séc. XX parece-me hoje apenas um lento preâmbulo para a revolução tecnológica 2.0 e estamos só a começar... A arte contemporânea é só um daqueles espaços criativos ligando causa e acção na linha da frente do nosso futuro.

Luis Soares em 28 de novembro de 2007 às 13h12

Só? Ou será aquilo que poderá dar significado às nossas vidas? Religião ou Arte substituirão a Tecnologia em matéria de crenças que, mais uma vez (nunca aprendemos com a História...), sairá defraudada. Digo eu.

seven em 28 de novembro de 2007 às 13h44

A minha grande dúvida (ou questão) quanto ao papel da arte contemporânea é que me parece que, como a ciência, ou a política, implicam um nível de preparação cada vez maior da parte do público que as recebe ou que nelas participa. Como é que se desfruta de uma daquelas 'cenas maradas' de hoje em dia sem ter passado primeiro pelo confronto com uma série de práticas que, como diz o Luís, não têm a beleza como tema ou objectivo - e estamos cada dia a falar de um período de tempo mais alargado e de mais diversidade de tendências e ideias? Não é só a distância natural entre o instinto conservador da nossa cabeça e as vanguardas e experimentalismos; temos de aprender cada vez mais línguas e até mais alfabetos diferentes para chegarmos até muita da arte que se faz hoje em dia. O que também não é muito diferente da nossa relação com o uso da tecnologia, aliás.
Ai, que canseira. Vou mas é ver naturezas-mortas :)

tajana em 28 de novembro de 2007 às 20h15

Não é só isso, ou melhor, não é bem isso. Não é arte que exige cada vez mais preparação do público; é o público que tem cada vez menos formação (e consequentemente sensibilidade) artística. Olha para a presença cada vez menor da componente artística nos curricula de qualquer curso...
Eu até acho que a arte contemporânea está bem perto das pessoas pois o seu material e a sua linguagem provêm do dia a dia. Nunca foi assim na História da Arte - ou julgas que o povo ignorante entendia as obras de Botticelli ou Masaccio?
Pegando na deixa do Luís sobre o Terrorismo 2.0, penso que a Arte contemporânea deixou de ser a vanguarda que foi nos tempos heróicos do Modernismo. Neste momento ocupa a retaguarda.

seven em 28 de novembro de 2007 às 22h51

Pois, não sei bem que te diga. Não faço ideia de como reagia o povo inculto aos Bocaccios (andando para trás, no que a incompreensão diz respeito, não passo dos impressionistas). Tenho alguma dificuldade em falar disto apenas em abstracto: que materiais, que linguagens são essas contemporâneas de que estamos a falar - o que são essas retaguardas, concretamente? Tens razão quanto à educação, mas a verdade, por outro lado, é que hoje em dia é muito fácil entrares em contacto com a arte fora dos esquemas académicos.

tajana em 29 de novembro de 2007 às 00h27

A arte contemporânea utiliza coisas do dia a dia: objectos de consumo, desperdícios, ícones mediáticos, imagens publicitárias, etc. Desde Duchamp e do célebre urinol que é assim. E as pessoas conhecem esses objectos e essas imagens. Apenas têm de descodificar a mensagem que contêm, retirados do seu contexto normal e colocados num outro contexto, dito artístico.
Porque digo que a arte contemporânea abandonou a vanguarda? Porque apenas de um modo residual tem um papel de modelação ou influência social e cultural que é suposto a uma vanguarda. Em contrapartida, outras coisas ocuparam essa vanguarda: a televisão, a Internet, os jogos de computador, o terrorismo... Capisce?

seven em 29 de novembro de 2007 às 09h39

Bingo. Daí a frase do Don DeLillo sobre os terroristas como artistas contemporâneos. Se a única categoria que nos resta é o choque, a provocação e a interrogação, o terrorismo e a tecnologia têm feito muito mais pela chamada arte contemporânea do que a maior parte dos chamados artistas. Sublinho a maior parte porque há ainda muita gente muito admirável nas margens de um sistema que os tenta permanentemente "devorar", vejam-se os casos de Bansky e Bill Viola, para ficarmos só pela letra B ;)

Luis Soares em 29 de novembro de 2007 às 11h23

Ver uma pintura ou uma escultura tem dois lados (até deve ter mais). O lado do bonito/feito/gosto/nãogosto e o lado do perceber as razões por detrás da sua concretização. Dar uam opinião é fácil mas perceber é mais complicado. Esta complexidade da arte faz com que a maioria das pessoas aborde da mesma forma uma visita a uma museu de arte, uma exposição ou ir tomar um café com a malta. Daí a dizer "eu tb fazia" é um instante.

E concordo que a comercialização da arte (hey os artistas têm de viver!) deturpa a própria arte.

André Ribeirinho em 30 de novembro de 2007 às 11h50

Obvious, meu caro André. ;)
E a questão que levantas é muito oportuna e interessante: de que vivem os artistas?

seven em 30 de novembro de 2007 às 12h30

Eu tenho uma dúvida que talvez algum de vocês me possa esclarecer... afinal, os arquitectos são artistas ou na verdade serão engenheiros contemporâneos?

bjr em 30 de novembro de 2007 às 12h51

Pergunta falaciosa, ainda por cima vinda de ti...
Digo eu: Não, os arquitectos, por definição, não são artistas embora algumas das suas obras possam vir a tornar-se obras de arte. Entiendes eso?

seven em 30 de novembro de 2007 às 12h58

Como toda a gente sabe, os arquitectos são gajos que têm a mania, apenas isso:)
Estou a pensar no resto. Há coisas que sim e coisas que não e outras que não sei bem. Tenho dúvidas de que em outras épocas a arte (as vanguardas) tenham tido, na altura em que surgiram, um efeito modelador na sociedade. Se percebesse alguma coisa de história de arte, dava-me jeito agora. Também não acho que a familiaridade das linguagens seja necessariamente uma vantagem em termos da capacidade de as pessoas se ligaremà arte, ou a 'perceberem' (não gosto de perceber; relaciono-me mais com a arte como com a comida, o que deve justificar uns quilitos a mais - embora não perceba uma laranja, consigo estabelecer uma relação com a forma, a cor, o sabor e todas as coisas que uma laranja é potencialmente, e que são imensas).
E ainda não consegui 'desmisturar' o que se diz no post e em comentários sobre por um lado grande parte da arte estar comercializada e industrializada, e por outro lado, o seu papel actual como procura de limites, etc..
(tenho uma sopa de feijão a aquecer, vou remoendo estas coisas).
E é mesmo a única categoria que nos resta - a do choque, etc..? É uma pergunta.

tajana em 30 de novembro de 2007 às 15h46

Sopa de feijão? :D

seven em 30 de novembro de 2007 às 21h27

E não é Campbell! As pessoas que gostam de cozinhar nunca deram bons artistas pop.

tajana em 3 de dezembro de 2007 às 21h37

A Campbell era de tomate. Também gosto de sopa de tomate, por acaso. Fica deliciosa com um ovo escalfado...

seven em 3 de dezembro de 2007 às 22h37

Por acaso a comida é muito mais interessante que grande parte da arte contemporânea. Ontem comi uma massa Soba com Alheira... NHAM! E eu que sempre fui um desconfiado da cozinha de fusão...

Luis Soares em 3 de dezembro de 2007 às 22h46

E eis finalmente a resposta à pergunta em título: "Para que serve a Arte Contemporânea?" Para comer não é, de certeza.

Parabéns a todos aqueles que acertaram... :)

seven em 3 de dezembro de 2007 às 22h51

Esse pode ser um desafio futuro para a arte contemporânea: ser comestível.

tajana em 3 de dezembro de 2007 às 23h45

E, portanto, reciclável, porque há por aí muita "arte" que necessita urgentemente de reciclagem.

seven em 3 de dezembro de 2007 às 23h48

acho que o que vocês escreveram aqui foi só banhada.
publico inculto?hmm?arte que puxa pelo intelecto?hmm?
Não é o publico que é inculto,mas sim a materia e o produto que é desinteressante e aborrecido.ha quem goste é verdade,mas a maioria não.
eu vi uma exposição de arte contemporanea em lisboa e foi das coisas mais chatas da minha vida,até preferia ter ido à missa.Perdeu-se o gosto pelo desenho,a magia da pintura foi substituida pelas regras e enigmas da ciencia.E claro,isso reflecte aquilo que o povo contemporaneo é,cada vez mais descrente em magias e sentimentos.e quando o faz,é de forma errada,nunca de forma espontânea e sincera Sinceramente,vejo a arte escravizada da ciência.
Não percebo como é que o publico cai no erro de pensar que arte contemporanea é repleta de conhecimento e coragem...A arte contemporanea é um rapazinho assustado com medo de sair de casa,com medo de se divertir,com medo de falar com estranhos,com medo de viver,com medo de se divertir.Mas acho piada,aparecerem meia duzia de intelectuais a fazerem-se passar por dominadores da arte,pessoal,arte é diversão,arte é comunicação,e se a obra de arte não consegue comunicar com o espectador é o quê?faz-me impressão os limites a que as pessoas se sujeitam,parece que têm medo de se expressar,sejam crianças,tenham alegria de viver!soltem-se!rabisquem uma folha!deixem-se levar!soltem o traço,soltem a mão,sejam vocês proprios!

Daniel em 8 de dezembro de 2007 às 23h27

Percebo o que quer dizer, Daniel, mas aquilo que critica no seu comentário não foi defendido no artigo. Pelo contrário, ninguém disse que a arte contemporânea era uma maravilha! Ele há arte interessante e desinteressante mas essa questão não foi abordada. Por outro lado, não concordo que, como diz, a arte deva ser diversão. Porque há-de sê-lo e não agressão?

Banhada? Não me parece...

seven em 9 de dezembro de 2007 às 00h54

hmm?agressão ao quê?ao publico?aos presidentes?ao ambiente?
não achas que já chega de agressões por parte dos media?é preciso a arte também entrar por ai?e porque ha-de a arte agredir alguem ou algo?se ha algo que a arte deve agredir isso é a tristeza e a desmotivação,e a melhor forma de o fazer é tornando-se ela propria alegre,viva e emocionante.EU tambem não disse que alguem disse que a arte contemporanea era uma maravilha,eu disse que vejo toda a gente resignada à suposta beleza da arte contemporanea.não acredito na arte contemporanea e muito menos nos seus teoricos,o objectivo dela é um fracasso total e a sua utilidade nenhuma.Repito o que disse,é uma banhada.Passou-se a discutir mais arte do que a apreciar.Passou-se a falar mais dela do que propriamente senti-la.Por isso respondo à pergunta do post,para que serve a arte contemporanea?simples,serve para as pessoas que nada percebem ou que nenhuma ligação têm com a arte passem a poder fazer-se passar por entendidos da materia :)


daniel em 9 de dezembro de 2007 às 03h52

você é interessantíssimo.

scorcelli em 22 de janeiro de 2008 às 00h12

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