Terroristas 2.0

Publicado em outros por lsoares em 24 nov 2007 06:22 PM | 8 comentários

Terrorismo Revolucao Evolucao Espionagem Qaeda Fotografia Paul Fusco - Magnum

Laurie Anderson gostava muito de citar o seu conterrâneo Don DeLillo, escritor, quando este dizia que “os terroristas eram os derradeiros artistas contemporâneos, os únicos ainda verdadeiramente capazes de nos chocar”. A partir desta frase poderia fazer um post sobre a natureza da arte contemporânea, mas neste vou falar um bocadinho sobre o terrorismo que, como a Internet, parece ter entrado numa era 2.0.

A Web 2.0 é uma espécie de revolução marxista da Internet: os operários tomam conta dos meios de produção; os bloguistas revoltam-se contra o quarto poder; o youtube põe em causa a televisão; do espectador passivo espera-se que seja um prolixo produtor de texto, som e imagem; os sistemas mais do que difusores de conteúdos pré-produzidos seriam facilitadores de produção e interligação. Em resumo, na Web 2.0, os loucos tomam conta do asilo. A produção de informação, opinião, seja escrita ou audiovisual, democratiza-se radicalmente. Note-se que isto não é um discurso eufórico, pois creio sinceramente que nem todos estávamos preparados para isto. Mas mais sobre isso noutro post também.

Voltemos então ao terrorismo. Tal como a espionagem, o terrorismo era em tempos resultado de uma organização secreta e minuciosa. Quanto mais secreto e organizado fosse o funcionamento das células terroristas, mais espectacular seria o seu resultado. O financiamento vinha de negócios igualmente ilegais, incluindo a droga e o tráfico de armas e os alvos eram geralmente uma ordem estabelecida, com preferência para os mais ricos, mais poderosos ou apenas mais livres.

Quando esta forma de fazer terrorismo atingia o seu auge, em 11 de Setembro de 2001, também a primeira bolha Internet rebentava e lançavam-se as fundações para a tal web 2.0. Uma coisa nada tem a ver com a outra, aparentemente, mas a simultaneidade de ambos os acontecimentos indicia uma mudança de paradigma. Hoje, todos os especialistas nos dizem que a Al Qaeda é menos uma organização terrorista, mas mais um programa difuso que se materializa numa rede dispersa de pequenas organizações voluntaristas, sem grande hierarquia mas com muita vontade de agir. Cheira-me a 2.0.

O recente massacre de estudantes na Finlândia por um aluno que publicou as suas intenções na Internet leva-me a estender esta lógica ainda um pouco mais longe. Hoje, o terrorista está em potencial em cada um de nós. A raiva, a revolta, a baixa auto-estima, a pressão social, o silêncio, a overdose de comunicação, a multiplicidade ideológica, tudo parece contribuir para levar ao limite alguns adolescentes, desde sempre uma idade delicada. A pura demonstração da violência (e não, não falo da virtual e ficcional, falo da real) no trânsito, na vida familiar, nos exemplos que nos chegam do outro lado do Atlântico, mais não são do que um catalisador para a emergência solitária e terrível (passo a redundância) deste novo terrorista.

Lsoares AvatarLuis Soares é escritor e colabora com o obvious. Mais informações e textos deste autor no seu blog pessoal: blog.luis.soares
 
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8 comentários

As ramificações de toda uma cultura web, em que a democratização nos levou mais longe do que esperaríamos, é impressionante. Está a ser um acontecimento demasiado rápido, e temo que surjam consequências que não conseguimos prever, simplesmente porque toda a resposta, quer como indivíduos, quer como membros de uma organização, é meramente reactiva e não pro-activa como até hoje.

Gostei muito deste artigo, mais por me chamar a atenção para algo tão óbvio e curioso. Parece um daqueles momentos da revelação em que somos atingidos por um raio e gritamos Eureka...

bjr em 25 de novembro de 2007 às 01h06

Caro Luis,

Após ler seu post por algumas vezes, fico a pensar nos valores que essa sociedade perpetua. A Web por si não é o mal. Pra mim o grande mal é a desesperança, a falta de ideologia e o descrédito no próprio ser humano (sim, sou ainda Pollyana) :)
Não mais amamos, essa é a sensação que tenho - tudo virou utilitário. Por isso, igualmente importante foi pensar naquilo que de fato proporciona a felicidade a cada um de nós. Variavéis sócio-econômicas não revelam o quanto estamos sós e carentes da atenção do "outro".
Estamos sós e isso não percebemos ainda...Ou já?

beijos,

Sandra Leite em 25 de novembro de 2007 às 03h53

bom post

Pedro Matias em 25 de novembro de 2007 às 11h39

A Web 2.0 fascina-me. A arte contemporânea também. O terrorismo assusta-me, mas acho que na intersecção das várias lógicas destes vários momentos há uma espécie de nó temporal que nos permite descortinar alguma coisa sobre a sociedade em que vivemos. E é uma linha muito fina em que é muito fácil cairmos para o lado da euforia ou do drama. Acho que é um assunto a que voltarei. Obrigado pelos comentários :)

Luis Soares em 25 de novembro de 2007 às 13h10

Esperamos ansiosamente que voltes a ele Luis... ;)

seven em 25 de novembro de 2007 às 14h01

Magnifico ponto de vista... comparar o paradigma actual do terrorismo à chamada web 2.0 é realmente pertinente. No mundo de hoje, mesmo nas sociedades mais fechadas do médio oriente, já não há o orgulho da solidão. E se os terroristas querem atingir toda uma sociedade têm de usar as armas de bem desta para espalharem o seu mal. Pensem no efeito CNN na 1ª guerra do golfo... multipliquem por 1000 e descobrem o efeito Youtube no espalhar da informação audiovisual. Antes fechavam-se as televisões. Ainda há pouco tempo na Birmânia, cortou-se o aceso à internet. Luis ficamos à espera de mais reflexões no tema!

Nuno Monteiro em 25 de novembro de 2007 às 15h47

"...a resposta (...) é meramente reactiva e não pro-activa como até hoje."

"Como até hoje", Bjr?!

Estás a querer dizer que até há bem pouco tempo os utilizadores web tinham atitudes proactivas e agoram já não têm?!

Palavra que não percebi o teu ponto de vista.

Dina em 27 de novembro de 2007 às 22h39

dina: Na minha opinião, a questão não é bem a atitude dos utilizadores, mas sim a sua capacidade de entendimento de novos cenários. Todos nós, perante cenários radicalmente novos, necessitamos de tempo para nos adaptarmos às novas condicionantes. Com o advento da web 2.0 e a "democratização", não tivemos ainda a capacidade de assimilar os conceitos envolvidos e nos adaptar a uma realidade radicalmente nova.

bjr em 28 de novembro de 2007 às 01h02

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