Cada pessoa é uma marca?

Publicado em tecnologia por lsoares em 27 dez 2007 06:24 PM | 7 comentários

 Jovens Democracia Web 2.0 Liberdade Marcas
Foto: Pierre Tourigny

Um dos objectivos de alguns dos temas que tenho lançado neste blog é proporcionar algum debate sobre o papel da tecnologia na nossa sociedade, em particular aquilo que se convencionou chamar a Web 2.0. Por motivos profissionais, tenho passado algum tempo a vasculhar redes sociais na Internet e algumas coisas começam a tornar-se evidentes.

É um equívoco assumir que as redes sociais, Facebooks, Orkuts, Hi5s, MySpaces, assim como sites de vídeo do tipo YouTube ou Sapo Vídeos ou mesmo as plataformas de blogs tornam de forma universal e democrática cada indivíduo num autor, instantaneamente criativo e original. Mesmo para a falta de originalidade normal nestas coisas da democracia, inventou-se um chapéu, o da cultura "remix". A originalidade estaria na remistura do já criado e não na criação do novo.

É igualmente um equívoco assumir que a democracia e a liberdade de expressão têm uma correlação directa e inquebrável com o liberalismo económico e as forças de mercado. Basta pensarmos no caso da China, onde a liberdade de expressão continua a ser o parente pobre e escondido de uma economia em explosão de liberalismo descontrolado. Não é preciso poder dizer o que se pensa para se poder comprar o que se quer.

Olhando estes dois equívocos, começo a chegar à conclusão que a Web 2.0 não é sobretudo uma rede de auto-expressão e auto-criação mas sim uma rede de auto-apresentação e comunicação. Há uma diferença.

Quem se quer exprimir e criar é porque tem alguma coisa para dizer, alguma coisa para trazer do íntimo ao mundo. Pode não ser particularmente original ou inventivo, pode mesmo ser só (re)criação, mas vem de uma necessidade de se expressar, de criar, de transformar o "eu" numa obra que dele se distingue enquanto objecto de criação.

Na Web 2.0, contudo, de um modo geral, ninguém tem grande coisa para dizer, mas muito para mostrar: fotos, pensamentos, frases, vídeos, músicas (de outros), templates (industrializadas em novos modelos de negócio). Pedem desesperadamente "comentem a minha foto", agradecem a desconhecidos que os adicionaram a listas de amigos, comentam outros desconhecidos ainda. Isto não é criação, muito menos democracia, é... construção de marca.

A tal Geração Y anseia à celebridade, seja a televisiva e planetária, seja a microcelebridade de muitos bloguistas, mais ou menos a mesma de que gozavam os "famosos" no pátio da escola há anos atrás. E na Internet podemos, cada um, construirmo-nos como marca e ansiar ao sucesso.

Lsoares AvatarLuis Soares é escritor e colabora com o obvious. Mais informações e textos deste autor no seu blog pessoal: blog.luis.soares
 
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7 comentários

Cada pessoa é uma marca no web2.0. +1. É um facto. Next:

Cada empresa é uma marca, cada pessoa é uma empresa?

"Procurement", produção, distribuição, gestão. Marca.

Cada pessoa se torna um actor e o conceito de comunidade se substitui ao conceito de mercado: as barreiras são diferentes, logo o objeto é diferente.

A cultura do remix não nasce exclusivamente da ansia de nos tornarmos famosos. A cultura do remix é a incarnação da dinâmica do empreendorismo dísponivel para todos: cada um faz o pedaço que lhe corresponde e que sabe fazer. O remix é uma criação simplesmente porque não é uma cópia.

A geração Y exigiu e construiu o web2.0 para ter um espaço de expressão que lhe corresponda. Não é o facto de ser famoso, é o facto de ser reconhecido como pessoa interessante: produtora, pensadora, original.

Hoje algumas manifestações deste fenónemo parecem (são) fúteis. Mas basta olhar para os cartazes publicitários portugueses (para marcas nacionais ou não) para nos lembrarmos que a futilidade parece ser humana. Reduzir o web2.0 à cultura do remix é como reduzir a globalização ao consumo de publicidade, ou seja, à parte mais futil de um todo muito mais interessante.

Então eu não faria a descrita separação porque se cada pessoa é uma marca, é porque cada pessoa é uma empresa.

Viva o web2.0, viva a geração Y, viva o empreendorismo. E viva 2008.

als em 27 de dezembro de 2007 às 21h11

Não noto muita gente a agir como se fosse uma marca. Mas eu confesso que tento agir online como se fosse uma organização com uma marca definida. (Uma organização pode existir sem marca se não tiver definidos nenhuns parâmetros de imagem ou valores)

Não se trata de remisturar ou tentar criar algo novo. Mais de querer participar nos diálogos que vou encontrando da melhor forma possível. Com uma mensagem uniforme, valores e interesses fáceis de reconhecer, etc.

Mas nem toda a gente faz este esforço consciente. Acho que a maioria se vê obrigada a pensar mais em si quando preenche os perfis sociais. Temos de ponderar quem somos, como queremos que os outros nos vejam e de que modo podemos fazê-lo. Isso são elementos base para a criação de uma marca (branding), mas sozinhos não chegam para ser definidos como marca. Pelo menos para mim.

Bruno Amaral em 27 de dezembro de 2007 às 21h41

Caramba mano... Achamos muito interessante esse texte, q tbm mostra sua opnião sobre toda essa revolução que vem criando a web 2.0, q passa desapercebida para muito, que e acham q o site atualizou e ficou bunito...

A gente é novato no quesito blog, mas os blogs q a gente anda passeando mostra muito essa realidade de muito em querer prestigios, "comenta aki pelo amor de Deus, "comente aki e ajude etc etc"... haha

O outro lado q vc levantou tbm é bem legal de se falar, a respeito de cada um querer ser uma marca, mostrar suas ideias e tbm remodelar, remanejar as ja existentes...

Foi um aspecto muito bem levantado, parabens pelo texto !!

Abraço, e um prospeto 2008!! Saude e paz ...
___________________
Dan - Doug - Rafa

DuBaralho em 28 de dezembro de 2007 às 01h16

Obrigado pelos comentários e pelos pontos levantados!

O que me parece interessante na Web 2.0 é que aquilo que era meramente pessoal e social no passado (auto-afirmação, auto-estima, pressão dos pares, dinâmica de grupos) em relação a cada um de nós, se sobrepõe agora a outro tipo de conceitos vindos do marketing, do mundo empresarial. Será de facto um sinal de empreendedorismo? Ou mera desumanização?

Ou será que me esqueço disto tudo se beber champanhe suficiente na passagem de ano? Bom 2008!

Luis Soares em 28 de dezembro de 2007 às 12h45

"Será de facto um sinal de empreendedorismo? Ou mera desumanização?"

Para mim não pode ser um sinal de desumanização porque há muita paixão envolvida. A paixão estão ligadas a ansia, logo o hype, mas também a motivação e a vontade de conseguir. E tudo isso é humano.

O que pode acontecer é o empreendorismo nunca vir realmente à tona. Mas se a Endemol empurra à fama, e nós ajudamos sem querer com cinismo e critica, há que empurrar no outro sentido. 2008, 2008, 2008.

als em 28 de dezembro de 2007 às 13h18

... Só umas coisitas (as únicas de que discordo em todo o discurso): um "remix" pode, de facto, constituir uma obra de arte. Conheço alguns, na áreal musical, que é onde abundam (também os há noutros domínios da cultura.O conhecimento novo advém sobretudo de "remixes", do cruzamento de outros conhecimentos e do subsequente raciocínio...)de excelência; abundam pensamentos deveras afastados do plágio (ou porque absolutamente originais ou porque resultam de reflexão cuidada e do dito cruzamento de informação) no mundo dos blogs. É a minha opinião,pode haver outras... em democracia!

Excelente 2008!

CJGil em 28 de dezembro de 2007 às 23h11

É obvio.

Eu mesmo em 28 de dezembro de 2007 às 23h51

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