Malika Oufkir: 20 anos de prisão

Publicado em artes e letras por tajana em 3 dez 2007 | 11 comentários

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Por puro acaso veio parar-me às mãos a autobiografia de Malika Oufkir, escrita em colaboração com Michèle Fitoussi. Malika é a filha mais velha do general Oufkir, que, em 1972, foi cabecilha de um atentado contra Hassan II, pai do actual rei de Marrocos. Oufkir foi morto e a mulher e os seis filhos foram mantidos na prisão durante 20 anos devido ao crime do pai.

Mas a história extraordinária de Malika começa muito antes. Foi filha adoptiva do rei Mohamed V, pai de Hassan II. O rei pediu ao general Oufkir, um dos seus braços direitos, e à mulher deste autorização para adoptar Malika, que iria fazer companhia e ser educada juntamente com a princesa Lalla Mina, sua filha. Naturalmente, o pedido real não foi recusado.

A vida de Malika é um conto de fadas transformado em terror. Viveu até aos 17 anos nos palácios reais, mimada, no meio de todo o luxo que se pode imaginar - e, segundo conta, contrariada, a querer a sua família original, uma vida normal, desejosa de poder sair do palácio onde vivia como prisioneira, vendo o mundo exterior pelos vidros fumados de um automóvel. Malika foi educada por uma governanta alsaciana, rígida, e cresceu no meio das concubinas e dos escravos do rei, nas tradições tantas vezes medievais daquele mundo fechado.

O atentado de 1972 marca o fim do conto de fadas. Nessa altura, Malika já tinha sido autorizada a voltar para casa (estamos no reinado de Hassan II) e continuava a vida de luxo, mas agora em família. Viajava, frequentava discotecas às escondidas, ia à Europa fazer compras e tudo o mais que o muito dinheiro da sua família lhe permitia. Ainda, e sempre, vigiada e controlada por polícias e guarda-costas.

O atentado falha e Oufkir morre, oficialmente por "suicídio". A vingança do rei estende-se a toda a família: a mulher de Oufkir e os seis filhos, de idades entre os 2 e os 18 anos, são levados para uma prisão. Irão permanecer prisioneiros durante 20 anos, com as condições de detenção a degradarem-se até a um ponto que era a garantia de uma morte lenta: fome, sede, o calor e frio insuportáveis do deserto, ausência de qualquer tipo de cuidado médico, sujeição a todas as pestes (parasitas, ratos, escorpiões, cobras), e, a partir de certa altura, isolamento de cada membro da família em células separadas, sem poderem ver-se durante anos (ainda assim, os Oufkir criam um engenhoso sistema de comunicação graças a um transístor que conseguem manter escondido dos guardas).

São 20 anos de vida perdida para todos. Malika, com 18 anos e meio na altura em que é presa pelos crimes do pai, sente a cada passo que o melhor período da sua vida - em que teria estudado, viajado, amado, formado uma família - lhe é roubado. Os irmãos perdem a infância, a adolescência. A violência brutal, física e emocional, a que são sujeitos pelas condições da prisão, deixa-lhes sequelas para toda a vida.

Incrivelmente, conseguem sobreviver a tudo: doenças, subnutrição, greves de fome e até tentativas de suicídio.

Ao fim de 11 anos em Bir-Jdid, a pior das várias prisões, quatro dos irmãos conseguem evadir-se através de um túnel cavado com a ajuda de uma colher e da tampa de uma lata de sardinhas. Após alguns dias de fuga pelo país, contactam uma rádio francesa; a partir daí, a pressão da comunidade internacional é demasiada e o rei acaba por libertar a restante família - ainda assim, mantendo-os em prisão domiciliária, em mais uma gaiola dourada, durante alguns anos.

O relato é impressionante. É um texto cheio de lucidez, com uma minúcia de emoções muito própria de quem esteve demasiado tempo a sós consigo mesmo e viu o desespero mais fundo do que a maioria das pessoas. E que manteve, no meio desse desespero, um sentido de humor salvador. É também um texto que apela a um certo voyeurismo, e Malika alimenta essa relação com o leitor - a descrição do harém, das festas sumptuosas no palácio, do convívio com o rei; a intimidade dos sentimentos e das relações familiares; e o espectáculo aterrorizante da violência e do sofrimento expostos. Mas pode-se escrever e ler sobre o sofrimento pessoal de outra forma? Várias vezes, enquanto lia (sentindo-me culpada pela avidez com que o fazia) dava por mim a parar e a dizer-me que aquilo era verdade, eram pessoas reais, ainda vivas, no final do século XX. Que aquilo se tinha passado muito perto, enquanto eu levava a minha infância normal, comia, dormia, tinha uma família, ia à escola e tinha Verões felizes.

O livro deixa também algumas dúvidas no que toca à verosimilhança dos factos e aos papéis de cada um. Até que ponto a versão de Malika é verdadeira - ou, questão mais desconfortável, honesta? Podemos optar por não acreditar em certos episódios rocambolescos ou por duvidar da dureza das condições da prisão, pelo menos em alguns detalhes. Podemos suspeitar de algum espírito de vingança nesta biografia. Mas se pensarmos na ambiguidade que envolve toda a vida de Malika - a começar pelo facto de o seu pai biológico ter tentado matar o seu pai adoptivo (e Malika gostava do rei), e de este por seu turno ter morto o primeiro e ter encarcerado a própria filha adoptiva - talvez a luz dúbia da história se torne menos desconfortável ao nosso olhar.

 Malika Oufkir Prisao Livro Vida História Biografia Atentado Marrocos Hassan

A edição que tenho, de bolso, é da editora Grasset (1999), colecção Le Livre de Poche, com o título francês La Prisonnière. O título inglês, meio hollywoodesco, é Stolen Lives - Twenty Years in a Desert Jail. No Brasil, a Companhia das Letras publicou a obra com o título Eu, Malika Oufkir, Prisioneira do Rei.

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11 comentários

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Estou lendo esse livro..apesar de fantástica, duvidei de alguns fatos. Cheguei a pensar q talves pelo sofrimento, a escritora teve algumas miragens ou entrou de mais no fantasia (mundo q eles criaram para sobreviver a prisão).
De qualquer forma, a história é fascinante.

Juliana Cunha em 24 de abril de 2008

Simplesmente me fascinou a leitura desse livro, não pela beleza da narrativa, porque não há nada de belo, mas de dor e tristeza, porém, por saber que é possível sobreviver a tão duros tratos quando se "descobre" uma forma de sobrevivência. Tudo era motivo ede criatividade. Impressionamente, como o ser humano pode ser forte quando, dentro de si mesmo, busca a VIDA.
A história dessa família deve nos ensinar a viver de forma mais humana; ela nos ensina a "cruzar" o nosso coração pela CIVILIZAÇÃO DO AMOR.

Ulda Maria Mattje em 7 de dezembro de 2008

Adorei a leitura deste livro,me prendeu do princípio ao fim,será um pouco fantsiado ou a realidade que o ser humnano é capaz de coisas horrivéis nos incomoda e sempre queremos amenizar os fatos,essas pessoas forão privadas de tudo por capricho de um rei prepotente e despota.
Temos que ser mais realistas em relação aos acontecimentos da vida!!Parabéns a família Oufkir pela vitória!!!!!!!

Micael Araújo Andrade em 13 de dezembro de 2008

Um relato impressionante, prende do princípio ao fim. Altamente instigante e fantástico. Essa família mostrou o absurdo que é condenar pessoas inocentes à pagar por um crime que não cometeram; somente por serem de uma mesma família foram condenados sem defesa ou questionamentos por um sistema político altamente injusto no Marrocos. Uma prisão perpétua disfarçada que inclusive condenou crianças sendo a menor delas com menos de 3 anos. Mas creio que a Santíssima Virgem interveio e mostrou aos homens o caminho da justiça, pois para Deus nada é impossível, principalmente quando todos os homens teimam em esconder a verdade!

Eduardo em 7 de janeiro de 2009

Eduardo, o livro é francamente emotivo e a história também... obrigado por comentar.

Author Profile Page bjr em 7 de janeiro de 2009

Muito interessante o livro, principalmente em seu final, onde sua reflexão de vida é muito valiosa."Enrolam voce com palavras melosas, entorpecem sua desconfiança por meios de elogios, de uma falsa cumplicidade, depois a pergunta-cilada vem no momento em que voce menos espera.Felizmente nós nos tornamos especialistas nessa brincadeira de gato e rato e também tentamos arrancar, como quem não quer nada, o máximo possível de informações."
Isto acontece frequentemente em nossa sociedade.
Terminei de ler o livro hoje: 19/01/2009
D.O.

Dorly Otte em 19 de janeiro de 2009

Fico contente por ter gostado!

tajana em 19 de janeiro de 2009

Comecei a leitura do citado livro semana passada, estou hoje na página 271, e percebo o quanto as atricidades vividas pela família Oufkir é atual.
Existem muitas "Malikas", muitos "Oufkir" entre nós, dentro de nós... Desafiante nos é perceber isso, entender a sociedade que nos cerca e OUSAR contesta-la.
Somos parte de uma pirâmide cada vez mais verticalizada, e que espaço ocupamos nela? Somos sua base, onde estão a maioria a qual é relegada a minoria de tudo, ou estamos em seu cume, elitizados e "ACIMA DO BEM E DO MAL"?
Indico NO WOMAN NO CRY, de Rita Marley. Aparentemente diferente, aborda com outros olhares este mesmo mundo divido em tantos outros mundo, Com Hassan's II ( e suas diferentes facetas) presentes em todo lugar...
Um abraço nordestinamente pernambucano.

Antonia Elizabete em 26 de janeiro de 2009

Antonia, o meu obrigado pelo comentário. Cumprimentos para o Nordeste :)

Author Profile Page bjr em 26 de janeiro de 2009

li e re li esse livro .

fiquei tão imprecionada com as condições que essa

familha sobreviveu que até me arrepia imaginar .

comesei a pesquizar esse páis e me interesei por ele

quero muito ir lá conhece-lo

e vou ano que vem si deus quizer.

maria lucia de lima em 30 de julho de 2009

não sei porque, um dia lendo revistas velhas li um resumo da vida de Malika e o primeiro pensamento que me veio foi a idéia de que se poderia lançar um filme sobre a vida dela. Derrepente por acaso depois de mais de 15 anos, ganhei o livro, EU, MALIKA OUFKIR PRISIONEIRA DO REI, pude reviver aquela história que me deixou muito impressionada. Se tivesse oportunidade gostaria muito de conhece-la pessoalmente, a propósito nasci no mesmo dia que o atual Rei do marrocos MOHAMED VI. 31/08/1963.

MARCIA SIMÕES em 13 de novembro de 2009

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