Os amigos da onça e os amigos de Peniche

Publicado em outros por jr em 1 dez 2007 06:28 PM | 6 comentários

 Amigo Amigos Onca Peniche Cruzeiro Revista Pericles Andrade Maranhao

A língua portuguesa é particularmente fértil em expressões idiomáticas derivadas essencialmente de lendas e de vivências do quotidiano, que muitas vezes se perdem na origem do tempo e que vão perdurando no léxico através dos anos, sem que contudo, frequentemente, se consiga com precisão explicar a sua origem.

As curiosas expressões “Amigo da Onça”, utilizada simultaneamente no Brasil e em Portugal, e “Amigo de Peniche”, utilizada somente em Portugal, são o exemplo da dificuldade corrente em datar e precisar a origem destas eufemísticas formas de expressão tão típicas da maneira de ser luso-brasileira. Em ultima análise o significado de ambas é idêntico e refere-se a um falso amigo, alguém que apenas está interessado em receber algo às nossas custas e nada nos dá em troca.

Amigo da Onça” suscita nos dois países explicações contraditórias: uma delas relaciona-a com o acto de “cravar” tabaco quando, em tempos que há muito já lá vão, o tabaco mais barato era o de enrolar em mortalhas que era vendido em embalagens com o peso de uma onça, o que terá levado a que a própria embalagem assumisse o nome de onça. Quem abordava alguém para “cravar” tabaco seria, portanto, mais amigo da onça que da pessoa.

Outras não menos verosímeis e interessantes explicações são as que a relacionam com duas anedotas muito populares em tempos:

Um mentiroso que, contando as suas pouco credíveis façanhas, dizia ter feito gato-sapato da onça que o atacara, é questionado da veracidade das mesmas por um ouvinte, que obtém do mentiroso como resposta à sua interpelação um sonoro "Afinal és meu amigo ou amigo da onça?".

Igualmente credível e envolvendo onça é a anedota que deriva do diálogo entre dois circunstantes:

“- O que faria você se estivesse na selva e uma onça aparecesse na sua frente?
- Dava um tiro nela.
- E se você não tivesse uma arma de fogo?
- Tentava furá-la com o meu facão.
- E se você não tivesse um facão?
- Apanhava qualquer coisa, como um pedaço de pau, para me defender.
- E se não tivesse um pedaço de pau por perto?
- Procurava subir na árvore mais próxima.
- E se não tivesse nenhuma árvore no lugar?
- Saía correndo.
- E se você estivesse paralisado pelo medo?
Aí, o outro, já aborrecido, retruca:
- Afinal, você é meu amigo, ou amigo da onça?”


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Curiosamente, no país irmão, esta anedota serviu de inspiração a Leão Gondim de Oliveira, director da então emergente revista "O Cruzeiro", para baptizar um personagem célebre nos anos 40 e 50 saido da pena do desenhador pernambucano Péricles de Andrade Maranhão, que recebeu uma encomenda de Leão Gondim para criar um personagem que traduzisse "a verve típica e o humor carioca", que captasse "o estado de espírito daquele que vive no Rio de Janeiro, não importando onde tenha nascido".

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Assim nasceu a personagem “Amigo da Onça”, cujas "tiras de quadrinhos" viriam a ser publicadas com um sucesso incrível durante vinte anos e que durante esse tempo serviu para achincalhar instituições como o casamento, o exército e a hipocrisia social, cometendo as maiores maldades que puseram em delírio os leitores da época: enganar um incauto transeunte na rua, “pregar uma peça” na sogra, barafustar com o amigo que pede dinheiro emprestado, estender uma armadilha para o chefe mal-humorado e outras pilhérias de um humor simples, directo, quase naif, que levaram este baixinho de cabelo penteado para trás à custa de brilhantina, "summer jacket", bigode fininho, cara de corvo e olhar de carneiro mal morto, a ser o responsável por “O Cruzeiro” ter colocado dentro da revista as tiras de banda desenhada que antes se quedavam pelas capa e contracapa, evitando assim que as pessoas folheassem a revista sem pagar.

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Muito mais prosaica mas não menos interessante e historicamente correcta é a explicação avançada para o epíteto “Amigo de Peniche”, que remonta aos primórdios da conhecida “malapata” nacionalista dos portugueses para com os “bifes", os britânicos portanto, quantas vezes consubstanciada numa “relação mais ódio que amor” e que tem hoje no futebol o seu alter ego.

Decorria à época a III Invasão Napoleónica, a Família Real Portuguesa abandonava o país em fuga para o Brasil e, sendo Portugal e a Inglaterra aliados desde há séculos e a Inglaterra a principal interessada em ter acesso aos principais portos marítimos internacionais que a França lhe queria bloquear, era de todo o interesse que o porto de Lisboa se mantivesse aberto e acessível ao comércio marítimo inglês.

Assim, os ingleses desembarcaram em Peniche dizendo que vinham prestar ajuda a Portugal, mas o que ficou na história portuguesa como um espinho cravado e nunca extirpado foi que mal desembarcaram as forças inglesas comandadas por Arthur Wellesley, iniciaram de imediato pilhagens e todo o género de desmandos sobre as gentes portuguesas. De Peniche avançaram até Lisboa derrotando as tropas francesas de Masséna nas Linhas de Torres (Torres Vedras). Desde esse tempo, os ingleses passaram a ser pouco considerados pelos portugueses, desconsideração essa que ainda mais se acentuou na época do Ultimato, e a expressão "Amigos de Peniche" passou então a designar todos os falsos amigos, os amigos da “onça inglesa”.

Elucidativo.

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6 comentários

A história da expressão "Amigos de Peniche" está completamente incorrecta, pois durante a guerra peninsular Wellington e os ingleses não desembarcou em Peniche e não realizou pilhagens de monta, ao contrário dos franceses. A tática de guerra foi pura e simplemente a da "Terra Queimada" realizada pelas próprias populações portuguesas.
Em segundo lugar o que está escrito confumde a 1ª invasão com a terceira invasão. A Primeira invasão as batalhas deram-se na Roliça e no Vimeiro, perto de Torres Vedras, mas nessa altura ainda não existiam as famosas linhas. Na terceira invasão, de Massena, não chegou a ocorrer nenhuma batalha nas Linhas de Torres, Massena, já derrotado no Buçaco, chegou à vista das fortificações e iniciou a retirada para Espanha.

Em Relação à origem da expressão "Amigos de Peniche", ela é bastante mais antiga e data de 1580, quando D. António, Prior do Crato, tentou opôr-se a Filipe I. D. António pediu auxílio a Inglaterra e esta enviou Sir Francis Drake, o qual desembarcou em Peniche e como pirata que era iniciou imediatamente pilhagens e massacres, quando se dirigia para Lisboa começou a ser atacado pela população até que retirou e embarcou de volta a Inglaterra.
Em Lisboa D. António continou sózinho à espera dos "amigos" que vinham de Peniche.

Luís Bonifácio em 2 de dezembro de 2007 às 01h47

eu por acaso conheço uma variante que é os amigos da mealhada...

Jose em 2 de dezembro de 2007 às 21h34

Caro Luís Bonifácio

Grato pela atenção e pela participação.
É reconfortante saber que há pessoas ainda atentas e interessadas na História deste rincão à beira mar plantado.

A hipótese aventada no post para o termo “Amigos de Peniche” é uma das hipóteses possíveis para o termo.
Uma outra, que inclusivamente é a que a Câmara Municipal de Peniche considera como correcta, refere efectivamente as pilhagens de Sir Francis Drake como génese do termo.
Passo a transcrever a explicação dos factos avançada pela CMP que inclusivamente apoiou uma peça de teatro baseada na reconstituição histórica dos factos que foi levada à cena em Maio de 2006 na Fortaleza de Peniche:

“Foi em 26 de Maio de 1589 – há exactamente 417 anos – que desembarcaram na baía da Consolação 6500 soldados ingleses comandados pelo duque de Essex. Faziam parte de uma poderosa expedição militar de 140 navios e 27.600 homens comandados pelo almirante John Norris que vinha ajudar D. António, Prior do Crato, a apear o seu primo Filipe II de Espanha do trono de Portugal e restaurar a soberania portuguesa.
D. António conseguira de Isabel I de Inglaterra esta imponente armada, de uma envergadura então apenas comparável à “Invencível Armada” espanhola devastada pelos ingleses dois anos antes na Mancha.

Além da famosa “velha aliança” havia interesses comuns na base desta expedição: D. António queria o trono de Portugal; Isabel I desejava impedir os esforços espanhóis de reconstituição do poderio naval de modo a tirar da cabeça de Filipe II a ideia de invadir Inglaterra.

Tudo começou bem: a Fortaleza de Peniche caíu em poder dos homens de Essex desembarcados na Consolação. Aliás, a guarnição portuguesa, submetida a comando espanhol, não deu muito que fazer aos forasteiros.
Enquanto as tropas que desembarcaram rumavam por terra a Lisboa, o resto da frota, sob o comando do célebre Francis Drake, seguiu para Cascais. Os objectivos da invasão eram os seguintes: cercar Lisboa por terra e por mar e ainda ocupar os Açores de modo a cortar a “rota da prata” espanhola.

Os habitantes de Atouguia da Baleia, da Lourinhã, de Torres Vedras, de Loures sentiram logo na pele que aqueles “amigos” eram especiais porque estavam mais interessados em saquear do que em concentrar-se no ataque final a Lisboa.

Às portas da capital as forças terrestres colocaram-se primeiro no Monte Olivete mas mudaram a seguir para o Bairro Alto e logo para a Esperança quando Gabriel Niño fez uso dos canhões do Castelo de S. Jorge. A artilharia prometida por Isabel I a D. António não viajara na expedição, assim se limitando a capacidade de resposta.
Francis Drake esperava em Cascais a entrada terrestre em Lisboa para cercar a cidade no Tejo; os homens de John Norris, porém, pouco faziam para atacar a bem fortificada e melhor defendida capital, onde os espanhóis tinham reforçado a guarnição e a repressão. As prisões estavam cheias, as execuções de resistentes sucediam-se.

Dentro das muralhas, entretanto, os patriotas prontos a combater e que sabiam do desembarque inglês interrogavam-se: “Que se passa com os nossos amigos que desembarcaram em Peniche? Quando chegam os nossos amigos de Peniche?”
Esses “amigos” manifestavam pouca vocação para agir combatendo os espanhóis. É certo que D. António, para conseguir tão forte exército, também recorrera ao argumento de que as populações portuguesas se sublevariam ao seu lado contra os espanhóis, de tal modo que talvez nem fosse necessário combater…
Mas a ocupação assentava numa repressão feroz, reforçada nesses dias. O levantamento popular não aconteceu.

Menos de um mês depois do desembarque, em vez de atacar Lisboa, a expedição inglesa regressou à base. Mal combatera mas sofrera danos importantes sem alcançar qualquer dos objectivos. Filipe II (I de Portugal) ficou no trono, a reconstrução do poderio naval espanhol não foi afectada, a “rota da prata” não sofreu qualquer perturbação, os Açores não foram ocupados.

Isabel I castigou Francis Drake com seis anos de afastamento da corte e dos mares. D. António, Prior do Crato, morreu em 1595, na miséria, no seu exílio de Paris.

Eis, em poucas palavras, a verdadeira história dos “amigos de Peniche”.
Que afinal não eram “amigos” – antes mercenários que queriam ganhar sem combater.
E que, principalmente, não eram de Peniche, nem portugueses. Porque estes desejavam acima de tudo o fim do domínio espanhol.
E de tal modo teimaram nesse objectivo que em 1640 recuperaram a soberania.”

Um abraço

jr

jr em 3 de dezembro de 2007 às 12h55

Pena não terem consultado a "fonte" onde na faixa lateral consta a nossa versão dos acontecimentos, que confirma a correcção feita ao post.
Para além do imbróglio, poderiam ainda constatar que em Peniche, e para os penicheiros, a amizade é assunto sério a difundir, acima de qualquer ignomínia histórica.
jp
http://amigos-de-peniche.blogspot.com/

jp em 5 de dezembro de 2007 às 09h53

eheheheheh lolz

sou da Atouguia da Baleia

mt fixe a história :P

Guilherme Lino em 5 de dezembro de 2007 às 20h25

amigos da onça, amigos de peniche, são todos uma bela peça.
dispenso. e cada vez mais!

o melhor é cortar logo o mal pela raiz:

"SAI DA MINHA VIDA, NÃO TE DEVO NADA!!!"

e com certeza muitos problemas serão evitados de futuro

Pedro em 2 de janeiro de 2008 às 17h50

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