Oscar Niemeyer

Sobre os seus impressionantes 100 anos de vida, completos este mês, o arquiteto Oscar Niemeyer desconversa: “é uma bobagem!”. A profusão de artigos, revistas, publicações e matérias para a TV poderiam até nos deixam pouco a dizer; mas a vida e obra do homem que se dedica há 70 anos a uma arquitetura - de extrapolação dos limites da forma e da função para invadir a poesia e a humanidade - consegue ainda ser uma força profusa do gênio e da pessoa por trás e entre as linhas.
Dono de uma personalidade doce e incisiva, características aprofundadas pela sabedoria do tempo, a história do artista fluminense intercruza-se com a da política, da literatura, da fotografia e das artes plásticas nacionais em momentos que já estão sob o domínio de todos, do intelectual ao popular. O que mais toca é mesmo isso: a figura universalizada do homem, suas palavras, convicções e filosofias, seu senso de pertença à vida. E foi justamente esse o elemento chave das comemorações que ocorreram neste último 15 de Dezembro na casa que ele próprio projetou, em 1952, na Estrada das Canoas, Rio de Janeiro. Concedeu entrevista, foi disputado pela imprensa e fumou charutos. Não assoprou as 100 velinhas por achar o bolo, que tinha o formato do MAC, cafona. Num arroubo de modéstia, disse ser uma pessoa normal: “não sei porquê durei tanto” para, em seguida, completar gabando-se: “cento e dez é fácil!”.
Na falta das palavras certas e no medo de me tornar repetitiva, selecionei aqui uns trechos do encontro armado pela revista Bravo! em 1997: os poetas Ferreira Gullar e Bruno Tolentino em conversa ao redor do arquiteto centenário no escritório da Avenida Atlântica entre muita fumaça e cafeína.
Gullar: Essa foto de Luis Carlos Prestes, sobre a sua mesa, de 1935, é da época da Intentona Comunista
Tolentino: Ele tem um ar lírico, hollywoodiano...
Niemeyer: É, ele tinha acabado de levar um soco na cara. Assim que saiu de cana! (risos)
Tolentino: Eu queria que você falasse sobre as relações entre as várias formas de arte.
Niemeyer: Acabei de fazer o Memorial da Coluna Prestes... (estende o desenho). Eu queria incorporar uma estátua do Prestes, que era um sujeito frágil, e o escultor me saiu com um homenzarrão desse tamanho! Eu sempre quis misturar as artes, como na Renascença. Na Pampulha, chamei o (Cândido) Portinari, o (Alfredo) Ceschiatti, os azulejistas... O Juscelino, prefeito de Belo Horizonte, já era como aqueles príncipes do Renascimento. Se tivesse tido mais tempo em Brasília, ia mandar pôr afrescos naquilo tudo, e eu ia apoiar...

Gullar: Mas a responsabilidade é do purismo da arquitetura. A coisa moderna teve uma tendência a excluir. Veio a idéia de que bonito era aquela parede pura, sozinha...
Niemeyer: E é! Mas adoro paredes pintadas, tetos com afrescos...
(...)
Gullar: (...) Quando você começou, naquele período, como andava a arquitetura brasileira, o que é que existia?
Niemeyer: Olha, havia uns grupos, três ou quatro, não sei, que já trabalhavam na base daquelas influências... na linha do Corbusier. Levávamos tudo aquilo a sério, como um catecismo. Mas ainda não havíamos “sentido” a essência da obra dele. Para mim, a verdadeira influência veio de conversar com ele... Quando ele me disse: “Arquitetura é invenção!”. Essa palavra... bem... foi uma coisa muito importante para mim.
(...)
Gullar: Como é que nasce a inspiração para um projeto assim? [referem-se ao esboço da Catedral de Niterói]
Niemeyer: Tomo conhecimento do programa, do lugar, do orçamento. Aí deixo a idéia ir buscar a invenção. Então, de desenho em desenho... O fantástico é simples. Quando desenhei o bastante para configurar o projeto, ponho-me a escrevê-lo; se encontro qualquer dificuldade em deixar claro o que inventei, algo está falho no projeto, e eu volto ao desenho.
Gullar: Então é escrevendo que você entende o que fez? A linguagem é assim tão importante?
Niemeyer: Tudo é linguagem...No Museu de Niterói, por exemplo, a coisa “falava”: um promontório, um pequeno orçamento, tudo dizia: simplicidade... fiz um cogumelo branco com um lago em torno e o mar lá embaixo...

(Niemeyer saca um papel de uma gaveta e hesita...) Audácia minha mostrar isso a dois poetas. Não é poesia não, gente, é uma bobagem que eu rabisquei em Argel... (Gullar confisca-lhe o papel e lê em voz alta)
Gullar: Estou longe de tudo,
de tudo o que eu gosto,
da terra tão linda
que me viu nascer.
Um dia eu me queimo,
meto o pé na estrada,
é aí no Brasil
que eu quero viver;
cada um no seu canto,
cada um sob um teto
a brincar com os amigos,
vendo o tempo correr.
Quero olhar as estrelas,
quero sentir a vida,
é aí no Brasil
que eu quero viver.
Estou puto da vida
(essa gripe não passa!)
de ouvir tanta besteira,
não me posso conter.
Um dia eu me queimo
e largo tudo isto,
isto aqui não me serve,
não me serve de nada,
a decisão está tomada,
ninguém vai me deter.
Que se dane o trabalho
e este mundo de merda,
é aí no Brasil
que eu quero viver!
Gullar: Exílio é isso: estou aqui e meu lugar é lá, o sujeito explode!
Tolentino: Agora o Niemeyer me sai com um poema! (...) E o que é aproveitar a vida?
Niemeyer: É o contrário do egoísmo. É Cuba, o risco, o sonho... O egoísmo mata, apequena. Empobrece tudo. É a verdadeira pobreza. O homem nasce e morre, tudo começa e acaba. O chato mesmo é não saber como vai acabar...
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15 comentários
Quero saber se vai ficar só nisto. Não pode. Um blog que se interessa por Arquitetura, tem que fazer alguma coisa grandiosa como é a arquitetura de Oscar Niemeyer. Este desenho ou sei lá o que da Catedral de Brasília, não dá nem idéia do que ela é. Falo isto porque conheço. Vocês precisam vir aqui...Entrevistá-lo,coisa assim.
Anna em 1 de janeiro de 2008 às 02h10
Oscar, quanto orgulho você nos dá em meio a tanta desmotivação depois de anos de espera. Teu pensamento, teu traço e tua humanidade renovam-me a crença no homem a despertar de seu egoísmo e de sua cegueira hipócrita. A arquitetura não é nada, bem disseste. O importante é a vida.
Edson em 1 de janeiro de 2008 às 04h57
Anna, já tanta coisa se disse sobre Niemeyer... O importante é ver a sua obra.
Edson: subscrevo inteiramente. A arquitectura não é nada. O importante é a vida. Isso é arte.
seven em 1 de janeiro de 2008 às 11h15
O importante é a vida, mas a vida sem arte perde a graça, você existe,para dar alegria a vida e torná-la mais presente com suas atitudes e ações. Parabéns pelos 100 anos de vida!
Eu queria ter na vida,simplesmente,uma casa reformada com seus traços...Sonhoxrealidadexsolidariedade...
Fabiola - Rio das Ostras,19 de janeiro de 2008.
Fabiola em 19 de janeiro de 2008 às 18h22
Mas que arquitetura o mestre Oscar ensinou-me a olhar a propria vida, em sua palavras ele disse " o que importa não é a Arquitetura e sim a propria vida , os amigos..." em sua obra para o museu em Curitiba "o Olho" Oscar Niemayer me ensinou que embora se trate de uma "adequação"
a arquitetura tem de ser como a vida: M A X I M A L I S T A !
Alfeo Viero Filho em 29 de janeiro de 2008 às 18h33
gostaria de saber porque que os setores 6 e 13 da Marques de Sapucai fica tão afatado em relação aos outros setores. fiquei triste pois o unico lugar que eu posso pagar para ver o desfile não dá para eu ver nada devido a este afastamento. será que pobre não tem direito a ter uma visão privilegiada das escolas de samba. Que tristeza!
angela regina antunes em 5 de fevereiro de 2008 às 01h27
Como escreveu Gullar:
"Oscar nos ensina
que a beleza é leve"
Acho que isso diz tudo!
Wellyson Marlon Tavares de Azevedo Júnnior em 21 de fevereiro de 2008 às 19h42
Dr. Oscar Niemayer e Equipe
Olá, não encontrei o contato direto com o Dr. Oscar Niemayer, por isso estou passando este comentário e peço reproduzi-lo ao mesmo..
Sou um morador de Resende, presidente da Associação Folclórica e Cultural dos Sertanejos de Resende. Acima de tudo um dos muitos apaixonados pelas obras do Dr. Oscar Niemeyer e pelo Presidente Juscelino Kubistchek de Oliveira.
Muito bem: JK veio a falecer em Resende em 1976 e no local do acidente alguém colocou ali 02 cruzes que lembra o ocorrido e que ficou conhecido como a curva do Juscelino.
Acho que não é merecedor da forma como está e como é chamado o local. Além disso, fica abandonado.
Caso o Dr. Oscar e sua equipe pudessem nos doar um projeto arquitetônico alusivo ao acontecimento e ai sugerimos derrepente uma replica da Catedral de Brasília, uma réplica da igreja de São Francisco (Pampulha).
Uma igrejinha para sentar 50 pessoas, um altar e vários quadros de JK. bem, dai a equipe poderá até mesmo visitar o local e bolar o melhor.
Se houver interesse, disponibilidade e atenção pelo pedido, posso estar mandando fotografias do local para analise.
Penso que as pessoas, os caminhoneiros que por ali passam vê a cruz lembra e deseja que ele esteja com Deus lá no céu.
Mas o mais importante é que a história passa na Via Dutra e muitos passam por ela e não sabem que ali morreu o mais importante estadista da nossa história.
Um projeto que contempla a entrada de automóveis, de ônibus e caminhões deveria ser feita para facilitar a entrada do público sem correr risco.
Uma igrejinha para sentar 50 pessoas, um altar e vários quadros de JK. bem, dai a equipe poderá até mesmo visitar o local e bolar o melhor.
Chegando esta mensagem e se quiserem me contactar estarei a disposição de todos.
Paulino Barbosa de Oliveira
Rua Mal. Deodoro da Fonseca, 155
Bairro Itapuca - Resende -RJ
CEP 27524-160
Fones: 24 - 3383-1048 ou 3359-0593 (casa)
24 - 3354-4454 (Trabalho)
24 - 9976-1073 (celular)
E-mail: paulino.barbosa@uol.com.br
Obrigado e abraços a todos
Paulino
Paulino Barbosa de Oliveira em 4 de março de 2008 às 15h04
MINHA VIDA AGORA TEM UM NOVO SENTIDO.PASSEI NO CURSO DE ARQUITETURA E URBANISMO NA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ.MINHA ALEGRIA É IMENSA E O MEU DESEJO DE PROJETAR MEU PAÍS É BEM GRANDE.
OSCAR NIEMEYER É MEU ÍDOLO.POR SUAS OBRAS E PELO EXEMPLO DE VIDA.
SÓ TENHO A AGRADECER A DEUS POR ESTAR VIVO EM NOSSO MEIO.
AQUI EM BELÉM TEMOS UM GRANDE ARQUITETO CHAMADO MILTO MONTE.TIVE A OPORTUNIDADE DE ASSISTIR UMA PALESTRA DO MESMO E FIQUEI MARAVILHADA COM SUAS OBRAS, DE FORMA BEM REGINAL.DANDO ATENÇÃO AO QUE É DO PARÁ.
MUITO OBRIGADA E SAÍBA QUE AQUI EM BELÉM DO PARÁ, NA REGIÃO NORTE DO PAÍS, TEM ARQUITETOS QUE LHE ADMIRAM.
ATENCIOSAMENTE,
INGRID CRUZ
INGRID CRUZ em 5 de março de 2008 às 00h37
Em minha aula de Computação, hoje mesmo, estávamos a comentar sobre a arquitetura de Niemeyer em Brasília. Antes de 1960 não havia o que se pudesse chamar de computador no Brasil; os desenhos obviamente eram feitos à mão, e os cálculos estruturais, com calculadoras manuais, das de catraca... Não consigo mais ver arquitetura (nem a simples, como era a de Niemeyer) como um trabalho solitário. Não o foi antes de 1960; não o será mais, julgo.
Mod em 19 de março de 2008 às 18h50
seu oscar, a verdade eu nao conhecia o senhor antes , mas quando assisti entrevista ,, fiquei muito interessada do seus trabalhos,,,,
deu para me vontade para navegar no mundo de arquitetura ,
e considero oscar niemeyer um exemplo de arquitetor que pode ser uma escola para me...
com respeito ,,, aluna na arquitetura
N.S em 22 de março de 2008 às 03h10
Olá, sou estudante de jornalismo da Universidade Católica de Brasília. Estou tentando escrever um livro sobre o Cine Brasília e gostaria de saber como entro em contato com o Sr Oscar Niemeyer. Pode ser até mesmo um e-mail...
Daniely Santos em 2 de abril de 2008 às 20h23
Ao passar pela rodoferroviaria de Brasilia, que por informaçoes repassadas a algumas pessoas e tb por falta ate mesmo de interesse em saber sobre o primeiro aeroporto de brasilia que se situa neste local onde nosso querido e estimavel JK pousou pela primeira vez,fico a obeserva a Arte Arquitetonica desta rodoferroviaria patrimonio tombado, e obra do magnifico OSCAR NIEMEYER, hoje me parece ao observar mudanças na obra, minha pergunta será que o genio da aquitetura resolveu mudar tao maravilhosa obra? ou se arrependeu de seu trabalho que é maravilhoso e que na epoca anos atraz era pefeita, penso eu que uma mudança em tal obra seria retroceder no tempo,ou entao peço desculpa pelo comentario caso o que estao fazendo na obra da rodoferroviaria seja apenas reparos,mas ao longe me parece mudar a forma com que foi feita na epoca sobre a vigilancia de seu criador..
celso em 9 de maio de 2008 às 20h20
SEM PALAVRAS.......
INCOMPARÁVEL,
EXEMPLO DE VIDA E PROFISSINALISMO !!!!
SEM DÚVIDA, O MELLHOR !
DÉBORA KATTÁN em 29 de maio de 2008 às 18h41
HOLA, COM VAI DODOR OSCAR, EU GOSTARIA MUITO DE SABER UM POUCO SOBRE, ARQUITETURA POR QUE VC, É UM OTIMO ARQUITETO, POR QUE EU VOU FAFEZ FACUDADE NETE ANO,DE ARQUITETURA EU VIR SUAS SEUS PROJETO REALISADO EM BRASILIA,GOSTARIA QUE VC MANDACE,UM EXEPLICASÃO. SOBRE ARQUITETURA UM DOS MEU SONO É FAZER ARQUITETURA,UM BRANDE ABRAÇO FIQUI COM DEUS...
JOÃO BATISTA COSTA NASCIMENTO em 13 de junho de 2008 às 17h39
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