Saudades do automóvel

Publicado em motores por seven em 20 dez 2007 12:24 PM | 19 comentários

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Hoje em dia ter um automóvel é ter um peso na consciência. É contribuir para o buraco na camada de ozono, para o aquecimento global, para o congestionamento do tráfego urbano e para a crise do petróleo. Ter dois automóveis, então, mesmo que sejam imprescindíveis para o dia a dia de uma família, é quase um crime! Para apaziguar a nossa culpa colectiva, a indústria automóvel nossa amiga desdobra-se em propostas de veículos "verdes", amigos do ambiente. São automóveis de aspecto biomórfico e gastrópode, tímido, semelhantes a amebas com rodas. À excepção dos concept cars e dos modelos desportivos topo de gama, o automóvel perdeu definitivamente o seu estatuto.

Mas houve tempos em que possuir um automóvel era um luxo. Era fazer parte do american dream. Os novos modelos ostentavam-se orgulhosamente como um troféu, enormes, cintilantes nas suas cores e aplicações cromadas, nos seus assentos em cabedal e nos seus motores devoradores de gasolina. É verdade que a gasolina era barata, as estradas largas e os engarrafamentos raros. A poluição era apenas uma pequena nuvem no horizonte. O automóvel tinha uma conotação francamente positiva.

A publicidade dessa altura - final dos anos 50' - apresentava-nos belos desenhos coloridos onde se podia ver os últimos modelos saídos das linhas de montagem das grandes marcas. Os artistas gráficos caprichavam no desenho e faziam vender. Os americanos lideravam e não era por falta de modéstia. As mais belas ilustrações eram as da Ford, da Buick, da Oldsmobile ou da Chevrolet, os gigantes de Detroit.

À volta destes automóveis, indivíduos estereotipados vestidos com elegância e em poses descontraídas protagonizavam famílias felizes em viagem, trabalho ou lazer. Não havia pobreza, não havia conflitos raciais, não havia guerra nestes desenhos; tudo era prazer, tudo era sucesso, tudo era alegria de viver. Fumar era normal e dava estatuto, nunca doenças. Não se falava da "Caça às Bruxas" do senador McCarthy. Dir-se-ia que vivíamos numa sociedade perfeita e que o automóvel era o instrumento e a face mais visível dessa transformação.

Sonhemos então e fiquemos com estes desenhos dignos de um coleccionador. Admiremo-los não apenas pela sua beleza intrínseca mas também pelo testemunho de uma época onde tudo parecia agradável e o futuro se apresentava risonho. Pouco depois o sonho acabou. Saudades.

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19 comentários

Magníficos desenhos. Curiosamente transmitem uma tranquilidade descomprometida. Hoje é tudo demasiado elaborado... soa a falsa felicidade.

Bjr em 20 de dezembro de 2007 às 14h20

Não me importava de ter vivido naquela época mesmo que isso significasse ter hoje mais uma dezena de anos - mas nos EUA, claro! ;)

seven em 20 de dezembro de 2007 às 14h58

Ah, o American Way of Life... Me lembra o Milagre Econômico daqui...
Como deve ser bom viver numa sociedade sem esse tráfego de informações de hoje...

Abigobaldo em 20 de dezembro de 2007 às 15h07

O post me remeteu magicamente ao "Fusquinha 66" de um tio meu. Realmente uma lembrança mágica, pois me pergunto até hoje como cabiam 4 adultos e 4 crianças, mais "kit" alimentação, roupas e brinquedos em nossas viagens à Atibaia!
Mas com certeza, foram esses momentos bem década de 60/70 que fizeram da minha infância um cartão postal único.

Kriz em 20 de dezembro de 2007 às 15h18

Pois é mas esses momentos não voltam mais... Fiquemo-nos pelos cartazes e pelos kits em miniatura dos automóveis de então.

seven em 20 de dezembro de 2007 às 15h45

Belo mundo de aparências! Nem um negro à vista, ou outro humano de raça diferente. O branco era lindo! Sonhemos, pois....

Mateus em 20 de dezembro de 2007 às 18h30

nem pobreza Mateus... mas como disse, acho que a forma de transmitir a mensagem, seja ela uma mera aparência, acaba por ser menos artificial do que agora, não concorda?

bjr em 20 de dezembro de 2007 às 19h02

Depois que o Al Gore ganhou o Nobel, nosso futuro ecologicamente correto nos privará de ter um carrão, comer carne, fumar, beber...Que vida é essa...

Fernando Sampaio em 21 de dezembro de 2007 às 12h08

É isso, Fernando. Parece que hoje em dia tudo faz mal... viver faz mal! Já pensou que também isso pode ser propaganda, de sentido contrário mas igualmente propaganda?
Obrigado pelo seu comentário.

seven em 21 de dezembro de 2007 às 13h11

"Viver faz mal" daria o slogan perfeito para uma agência funerária.

As imagens são sublimes, de facto. Porém, não concordo nada com o facto de se achar que agora já nem é preciso ou que não podemos ter um carrão. Se não tivesse um calhambeque, digo-vos que estaria neste momento geladinha até aos ossos e mortinha de tédio. Já por diversas vezes a coisa esteve feia. Até fico com taquicardia quando me lembro, apre! E a culpa nem sequer foi minha. Valeu-me o sistema de travagem.
Em suma, eu gosto de me sentir protegida e um carrão fá-lo quase na perfeição. Quanto à cena da poluição... a BMW lançou há pouco tempo o “7 Hydrogen” (não és tu). Penso que em 2090, a malta poderá atestar os carros com água da torneira. Nessa altura, talvez entre num em estado líquido. :[

Dina em 21 de dezembro de 2007 às 14h11

Ok, voltamos a falar então em 2090 ;)

seven em 21 de dezembro de 2007 às 14h14

E se te evaporas?

Dina em 21 de dezembro de 2007 às 14h52

E se tu congelas?

seven em 21 de dezembro de 2007 às 14h55

Aqui na europa também houve um carro que apostou na publicidade, tornando-se um sinonimo de carro futurista, que nem mesmo os seus 50 anos lhe tiraram tal fama.

http://storm.tocmp.com/citroends1960.htm

http://www.viewimages.com/Search.aspx?mid=338154&epmid=2&partner=Google

electricpower em 21 de dezembro de 2007 às 17h41

já não tenho carro a mais de 7 anos. ando de bicicleta, a pé, de carona e as vezes de ônibus. mas to doidim pra compra um fusquinha 66. quem sabe num fabricam um movido a água. a água também num pode. estamos próximos da escasses. o que fazer, vamos pra era dos flinstones e mover nossas máquinas com os pés descalços pra não gastar borracha feita de petróleo. Yabadabadooo!!!

kennedy rafael em 21 de dezembro de 2007 às 18h52

O Citroen DS, isso sim, era um automóvel e não um meio de transporte! Magníficos os links, meu caro Electricpower ;)

Kennedy: Yabadabadoo para si também! :D

seven em 21 de dezembro de 2007 às 23h25

Por falar em carros antigos, já te contei que o carro do meu tetravô está no museu do Caramulo, Seven?
Tens de lá ir espereitar, pá.
;)

Dina em 22 de dezembro de 2007 às 00h30

Opá, tu não "espereites" que faz mal à vista...phone-ix!
Raismalixem...
:S
Vai antes espreitar, óquei?
:S

Dina em 22 de dezembro de 2007 às 00h35

Conheço perfeitamente o museu do Caramulo. Qual é o carro?

seven em 22 de dezembro de 2007 às 22h32

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