A coragem do actor e as luzes da ribalta

Publicado em tv por lsoares em 15 jan 2008 | 22 comentários

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Dizia o Seinfeld no seu número de stand up que o americano médio tinha mais medo de falar em público do que de morrer, o que queria dizer que num funeral, preferiam estar no caixão a fazer o elogio fúnebre. É uma estatística que já vi citada mais vezes e lembrei-me dela frequentemente ao assistir ao casting de jovens actores para uma série de ficção.

Eu continuo a ficar nervoso quando tenho de falar numa reunião realmente importante ou perante um conjunto de pessoas de dimensão superior ao da minha família que se reúne no Natal. Nem sequer sou muito sociável e só em ocasiões particulares suportarei partilhar a minha opinião com desconhecidos em presença. Bom, estou a exagerar, mas a verdade é que a coragem dos actores perante o público surpreende-me sempre.

Há muitos anos atrás, nos idos dos anos 80, eu próprio fiz teatro, mas provavelmente era só inconsciência. O palco tem uma magia especial, claro, as câmaras também, sejam de televisão, sejam de cinema também. Nesse momento calculo que a coragem, o encanto, a magia, uma irracionalidade inebriante tome conta do verdadeiro actor. A minha pergunta é anterior e mais simples.

O que leva um jovem (realmente jovem, menos de 20 anos) ou uma jovem, mais ou menos da mesma idade, a sentar-se numa cadeira solitária, em frente a três desconhecidos e uma câmara e, num monólogo tímido, a expor os seus medos e fragilidades? Não nas palavras que alguém escreveu, mas nas mãos retorcidas, na respiração difícil, no rubor que lhe sobe às bochechas.

Do que vi, há dois conjuntos de motivos fundamentais. O primeiro é aquilo a que eu chamaria “vocação”, uma vontade e um à vontade reais com a nobre profissão de actor, uma capacidade de vestir outras peles e lhes dar voz, perceberem que um casting é isso e não o debitar a matéria decorada para um teste. Depois há os outros. Alguns até têm “jeito”, outros até dariam bons actores. Mas não é isso que os motiva. O que procuram é a luz da ribalta, é suportar o custo da fama, ser perseguidos por papparazzi, aparecer, ser conhecidos.

E o que os faz crer que podem ir por aí? Um novo mundo de microcelebridades que a Internet gerou, um mundo 2.0 em que cada um se pode construir e à sua fama. Mas mais sobre isso noutra altura.

Lsoares AvatarLuis Soares é escritor e colabora com o obvious. Mais informações e textos deste autor no seu blog pessoal: blog.luis.soares
 
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22 comentários

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Parece que uma grande camada dos jovens de que falas não tem medo de se expor. Ou melhor: não tem vergonha. Melhor ainda: são desavergonhados. Nem todos mas muitos.
É a geração do "aparecer" de que já falaste em artigo anterior. Querem aparecer mesmo que não tenham nada para dizer - no hi5 ou na tv. E fazem-no sem preocupações de intimidade; aliás, nem sabem o que isso é. Se lhes pedissem para tirar as calças e passear de skate com umas barbatanas nos pés no shoping faziam-no alegremente desde que ganhassem um iPod. Se aparecessem nas notícias então era o delírio!
É uma maneira fácil de subir na vida. Raramente tem a ver com vocação teatral.
"-O que é que fazes na vida?"
"-Apareço."

seven em 15 de janeiro de 2008

Pois é... às vezes dava jeito ser famoso: dinheiro, bons "saca-gajas boas", gajas boas, casa com piscina e por aí fora. Há quem de tudo faça para lá chegar. Uns conseguem-no -merecida ou imerecidamente-, outros nem por isso. O Luis e o Seven abordam bem o assunto: talento e vaidade são velhas vizinhas nos castings.
Veio-me à real gana, isto:

O ARTISTA E O TALENTO


O artista, enquanto tal, nunca está só.
Se, imaginemos, em entrevistas um artista usar o plural em referência à autoria de obras, mais não acontece do que a realização de um acto de justiça. Nós, pois!, o artista e o talento. Duas entidades com a mesma pátria, interdependentes, complementares, mas, por tudo isto, duas.
Ao artista deve-se todo o trabalho posto ao serviço da causa no antes (com a aprendizagem, o estudo, a prática tantas vezes trilhada no caminho do erro, a investigação, o know-how adquirido) e no decorrer da produção; ao talento, o resto, que, por muito pouco que seja, é fundamental.
Resta-nos referir que achamos de bom tom o desenvolvimento do talento por parte de quem o captou ou simplesmente recebeu.
Bem, não é adequado o plural aqui usado!


CJGil em 16 de janeiro de 2008

Acredito que atualmente o que mais motiva jovens a aparecer nos testes é o brilho que o estrelato apresenta. Reality shows são presença constante nas tvs do mundo inteiro, alçando microcelebridades que aparecem em programas televisivos, capas de revistas e nunca apresentaram uma ponta de talento.

Temos diversos exemplos de ex-BBBs que se tornam atorizes e recebem muito dinheiro para posar em ensaios sensuais. A fama também apresenta uma visão de riqueza que muitas vezes é falso, pois nem sempre quem está nas mais badaladas festas possui muito dinheiro.

Gostaria que a maior parte dos atores escolhessem sua profissão por vocação e não pela busca das capas de revista, assim existiriam mais atores copetentes no mundo.

Dmitry em 16 de janeiro de 2008

Acontece também outra coisa Gil: o verdadeiro artista (sic) fala no plural porque sabe também que toda a criação é frequentemente uma obra colectiva. Chama-se ética.

seven em 16 de janeiro de 2008

Subscrevo inteiramente, Dmitry. Vocação parece coisa do passado. Agora chama-se mais "interesse".
Obrigado pelo seu comentário.

seven em 16 de janeiro de 2008

Tb, tb, Seven.

CJGil em 17 de janeiro de 2008

Agora já nem para ser Padre há vocação...

seven em 17 de janeiro de 2008

Pois, é capaz de haver algum calculismo tb aí!

CJGil em 18 de janeiro de 2008

Só se for por causa dos impostos ;)

seven em 18 de janeiro de 2008

E não só, e não só!

CJGil em 19 de janeiro de 2008

Sim, porque há outras profissões igualmente isentas.

seven em 19 de janeiro de 2008

Concordo com o comentário, mas só em parte...
Acho q há agora uma procura grande de estrelato por parte dos jovens. Eu vejo isso porque estudo teatro, mas porque faz sentido para mim, talvez me traga uma certa adrenalida, apesar de me trazer muito sofrimento também, só que é viciante, mas há uma coisa que prezo muito, q é a minha liberdade, aquela sensação de, de vez em quando "fujir" do mundo, andar por aí e não ser reconhecida! A maior parte das pessoas com que me cruzo, estão ali para serem famosas, isso deixa-me bastante intrigada, mas tenho a sensação que não é só culpa de quem procura, mas também de quem escolhe...
Qualquer casting envolve a palavra "modelo" e "actor" como q se fossem indissociáveis um do outro. Acho que quem escolhe também(especialmente na tv) não exige muito talento, exige é que n tenham pudor e tenham essa performance de "estrelas". Fazem castings a milhares e milhares de pessoas, o que acho uma falta de respeito pelo trabalho de quem se esforça, para depois escolherem pela fachada e não pelo conteúdo. Sinceramente faz-me separar os mundos (uma coisa é teatro - e tb cinema- outra coisa é tv) e faz-me afastar cada vez mais a hipótese da tv. Por acaso tenho a minha profissão e faço teatro por gosto, mas há quem n tenha essa opção e tenha q passar por coisas q não pode escolher.
Acho q é um bocado o problema de quem nasceu primeiro o ovo ou a galinha... Aqui também me pergunrto, são os jovens que procuram o estrelato ou é isso que se exige hoje em dia por parte de quem escolhe?

Tete

Tete em 24 de janeiro de 2008

Olá!
Estou de acordo com o seu comentário. Infelizmente existe muita gente que quer ser tornado celebridade e capa de revista. Várias são as pessoas que concorrem a castings de televisão e cuja prova principal de selecção é a fotografia. É certo que a imagem é muito importante, mas não é o principal. E O TALENTO? A vontade de trabalhar em palco para conseguir representar o seu melhor?
Eu adoro teatro tal como cinema. O meu sonho era mesmo ser actriz. Já tive algumas experiências o que me ajudou a perceber ainda melhor o “bichinho” que mexe dentro de mim. Sei que este mundo é um pouco movimentado por cunhas mas, por outro lado, também sei que os bons vencem!

Marta em 5 de março de 2008

Quando penso nessas questões que coloca, Marta, lembro-me sempre da forma oca, sem conteúdo. É, infelizmente, uma característica dos tempos que correm. Não basta uma boa imagem, é preciso ter alma.
Obrigado pelo seu comentário

Author Profile Page seven em 5 de março de 2008

SOU ACTOR NAO PROFISSIONAL E KERO TRABALHAR,SOU DE LISBOA.

rogerio em 21 de março de 2008

Concordo plenamente com o Dimitry.

Eu acabei a minha formação no ano 2002(acabar nunca acaba). Tirei um curso porque penso que é fundamental para um actor. Digo mais, devia ser obrigatório. Neste momento vivemos num país onde toda a gente quer aparecer, todos querem ser estrelas. De que? não importa...Eu tenho um amor enorme por esta profissão e um respeito ainda maior. Como disse uma vez uma pessoa ligada ao cinema " estão a entrar pessoas que não interessam a ninguem para esta profissão". Eu concordo, há pessoas que se dizem actores que não têm o mínimo de alma e paixão.

Ramón em 16 de maio de 2008

Entre aparecer e não apercer nos locais da fama, existe primeiramente a necessidade de saber o que realmente se deseja.
Há 10 anos, esta eu a andar calmente a pé em Lisboa, no Chiado, perto do café com a estátua de Fernando Pessoa, quando um homem se aproxima de mim rapidamente. Tocou-me no braço e disse-me "Foi escolhida para casting de publicida! Venha comigo." Eu parei, fixei-o, vi que junto do metro, em frente da estátua do Pessoa estava outras raparigas, uma camâra e fios. "Venha, foi escolhida!", repetiu ele. "Não obrigada!", respondi-lhe e ele ficou espantado e estático a olhar para mim. Continuei o meu caminho bem comigo mesma, pois além de não gostar de publicidade, não desejo aparcer por aparecer. Mas, a minha mãe diz que perdi uma oportunidade e muito dinheiro, o que me faz rir!!
Amo escrver e escrevo poesia desde os 13 anos. Representar é maravilhoso, e já o fiz a nível amaduro. De momento iniciei algo que desejava à muitos anos; estou a fazer dramatização poética com os meus poemas, sendo acompanhada por um homem das cordas em guitarra clássica (o violão, como se diz no Brasil!). Estamos no mesmo no inicio, num bar em Braga, sem imaginarmos altos voos, nem fama. Anima o respeito que recebo do público e quando termino aptece-me desaparecer de repente e deixar cada pessoa entregue às emoções vividas com as minhas palavras e a guitarra clássica dele.

Cristina Silva em 12 de junho de 2008

SOU ACTOR DE TV E CINEMA,MAS SO TENHO FEITO FIGURAǺAO ESPECIAL,SERÁ QUE HA ALGUEM CAPAZ DE ME DAR UM PAPEL?mail-rogerio-escuteiro@hotmail.com,sou de Lisboa.

rogerio rosa em 13 de junho de 2008

A sociedade portuguesa mudou. Perguntas o que leva alguém a querer se submeter ao público. Também não te sei dizer. Só sei que vem de dentro.

Em criança, soube que era o que queria, mas desejava primeiro fazê-lo na televisão. Mas como? Primeiro, nenhum pai considerava a possibilidade. Depois, não se sabia onde ir. E finalmente, quase não havia produção portuguesa em televisão, muito menos papéis para crianças. Novelas, eram de 4 em 4 anos e televisões, uma, a RTP. Nas escolas, não havia teatro. Na zona de residência, não havia teatro. Nada.

Então porquê hoje é diferente? Porque hoje são os pais que encorajam e arrastam os miúdos ás agências de modelos, para que façam castings. São os crescidos a sonhar pelos pequeninos aquela vida fantástica e as revistas a usar esse conto de fadas para vender mais e mais. É natural que muitos acreditem que está ali uma saída para a sua vida. É uma nova motivação, que atrái pela recompensa material. Surgiu da abertura do mercado ás novas estações de televisão e o subsequente aumento da produção e rivalidades. Em termos de teatro, em palco, não sei se se passa o mesmo. Continua a não haver teatro na escola, e a zona de residência continua a não ter teatro.

Ainda hoje não sei se teria talento para representar e terei de suspeitar que sim, por sentir a vocação e a julgar pela reacção alheia das duas únicas vezes que o fiz, ainda em criança. Depois, só de entrar numa sala com um palco me incomodava. Assistir a uma peça de teatro me incomodava. Tudo porque estava sempre a sentir "algo" por dentro.

Se fosse criança hoje, haveria mercado e muitos locais prontos a receber um dinheirinho para me ensinar. Eis a diferença.

CC em 25 de junho de 2008

sou actor nao profissional e tudo tenho feito até ser explorado em trabalhos de tv e cinema,mas hei-de conseguir ser realmente actor profissional. Só é pena,nao haver quem queira dar a mao a quem tanto se esforça.

rogerio rosa em 9 de julho de 2008

ola sou um jovem de 15 anos com aspiraçao a actor, é a coisa que mais quero nao me imagino sentado 8 horas por dia num escritório a preencher papelada ou algo do genero...faço teatro amador num grupo perto de minha casa..e o teatro traz me sensaçoes que sao inexplicaveis estar em cima de um palco perante um publico e encarnar uma personagem que nao a nossa eh muito gratificante..
na minha opiniao a sociedade portuguesa em geral nao esta muito virada para a cultura neste caso o teatro..tambem nao acredito que a industria tenha capacidade para dar opurtunidades aos muitos e talentosos actores que surgem a cada ano que passa...muitos ficam a trabalhar em mini preços e por ai...acho que o segredo é mesmo nao desistir...enfim espero que isto melhore nos proximos anos para que os jovens aspirantes a actores como eu tenham confiança para investir na representaçao...

p.s deixo aqui o meu mail para o caso de alguem ter informaçoes sobre castings e afins pois nao consigo encontrar muita informaçao do genero ... maurf_patua_lp@hotmail.com

obrigado

Marco em 27 de agosto de 2008

Sou actor e acabei de fazer um dos papeis principais de uma curta metragem,espero k seja convidadop para mais e tambem para teatro.rogerio-escuteiro@hotmail.com

Rogerio Rosa em 20 de dezembro de 2008

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