Analisando Tarantino´s Mind

Publicado em cinema por prill em 30 jan 2008 06:23 PM | 11 comentários

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É até compreensível que o curta metragem Tarantino`s Mind continue pouco conhecido do público; afora as dificuldades de encontrar o vídeo em mídia, seu tom nada delicado e submundesco conferido pelos roteiristas/diretores "anônimos" que assinam sob o pseudônimo 300 Ml, as muitas referências (de Cecil B. DeMille à ESPM) que são metralhadas pela tela em menos de doze minutos e mais a temática meio de-fã-para-fã, deram-lhe um certo ar de filme para poucos. Vamos esquecer esse engano. Surpresa geral do Festival de Cinema do Rio em 2006, a produção da Republika Filmes, deixou atônitos até os críticos que só esperavam sair dali dizendo alguma coisa sobre o novo do De Palma (naqueles dias, eram as primeiras exibições de Dália Negra no Brasil); o ousado curta consegue se expandir de homenagem a um dos maiores cineastas contemporâneos, para uma sedução aos apaixonados por cinema - e não só aos admiradores do, dispensa-apresentações, Quentin Tarantino.

O curta se passa num bar de São Paulo e reúne, entre choppes, batatas fritas, palavrões, absurdos e pessoas que talvez sejam intelectuais, filósofos e jogadores de poker; nele, as duas improváveis figuras de Selton Mello e Seu Jorge, como dois cinéfilos, dialogam sobre a filmografia de Quentin Tarantino pretendendo revelar os pontos que amarram toda a obra do cineasta.

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Tendo em Seu Jorge um indecifrável interlocutor, Selton - para variar, genial - apresenta sua tese: jura ter descoberto um tal "código Tarantino" e se põe a enumerar as provas que evidenciam a ligação entre todos os filmes do autor, de Natural Born Killers, aos dois volumes de Kill Bill (Death Proof ainda não existia na época). Ou seja, QT teria forjado uma linha única que tornaria as suas histórias todas - e seus personagens - uma única e épica saga, cujas narrativas iriam muito além do que se vê.

Bem, mas não teria graça se não fôssemos extrair e comentar ponto-a ponto alguns dos argumentos levantados pelos dois moços no bar de Tarantino´s Mind. Vamos à eles, em ordem de aparecimento.

1. Para iniciar a linha investigativa, o personagem de Selton Mello revela (com o ar de teoria da conspiração, tônica do diálogo) que o aspirante à celebridade Jack Scagnetti de Natural Born Killers é o mesmo agente da condicional de Mr. Blonde no Reservoir Dogs. Contrargumenta o personagem de Seu Jorge: mas o nome dele não era Jack? Sim... Mas depois ele mudou. A coisa toda fica nublada diante de uma discussão sobre os italianos e os sérvios não conseguirem pronunciar nomes difíceis. Fato é que Michael Madsen, como Blonde, comenta sobre seu agente da condicional que, como o Jack, é também um Scagnetti

2. O melhor é segundo ponto: a maleta levada por Mr. Pink (Steve Busceni), após o massacre coletivo em Reservoir Dogs, é a mesma maleta misteriosa que John Travolta e Samuel L. Jackson resgatam e escoltam por todo Pulp Fiction. É realmente uma coincidência (ou não) interessante que o bando do primeiro filme tenha assaltado uma joalheria e que, ao ser aberta, a segunda maleta tenha aquele hipnótico brilho.

3. Ainda em Reservoir Dogs, é dito que o nome de Mr. Blonde é, na verdade Vic Veja. Ora, qual o nome que Mia Wallace mui sensualmente sussurra ao microfone para anunciar John Travolta como seu parceiro naquela antológica cena da dança? Vicent Vega. Para o roteiristas de Tarantino´s Mind é claro: eles são irmãos.

4. Mr. White, antes de integrar o grudo de bandidos de Reservoir Dogs, foi parceiro de Alabama, que casou com o Clarence no obscuro True Romance (aqui no Brasil, Amor à Queima Roupa)

5. A colombiana que dirige o táxi de Butch, em fuga após ter dado um golpe no gangster Marcellus Wallace de Pulp Fiction seria a mesma psicótica, doida por assassinatos em Curdled (no Brasil, Ele mata e nós limpamos, produção do Tarantino). Faz sentido, afinal, o que mais interessa a Esmeralda Villalobos enquanto dirige é a pergunta "qual a sensação de matar um homem?", que faz a Butch (Bruce Willis) assim, sem mais nem menos.

6. Num programa de TV em Curdled, aparece a foto dos irmãos Gecko de From Dust Till Dawn (Um drink no inferno), procurados no Texas.

7. Mia Wallace e A Noiva (Kiddo) são a mesma pessoa. Ela só trocaria de nome de acordo com o bandido que estivesse namorando. Antes fora Wallace e, depois, noiva do Bill. Ok, aí já pegaram pesado porque Mia era esposa e não noiva do Marcellus Wallace, fora que, após o doutrinamento com Pai Mei, A Noiva dificilmente iria se tornar viciada em cocaína. Há ainda problemas de cronologia com isso.

8. O xerife que investiga o massacre na capela de El Passo, Texas, em Kill Bill, é o mesmíssimo que os irmãos Gecko matam à tiros noFrom Dust Till Dawn. Mais engenhoso que isso, só observar que, após a revelação espiritual que teve em Pulp Fiction, o Jules (Samuek L. Jackson) foi tornar-se pianista nessa mesma igrejinha...

Então, o que acham? Mais alguns apontamentos que tenham percebido em suas audiências tarantinescas?

Prill AvatarPriscilla Santos é adoradora de cervejas e colabora com o obvious. Mais informações e textos da sua autoria no seu blog pessoal: Limão Expresso
 
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11 comentários

Bem, sou suspeita para comentar Tarantino, uma vez que sou sua fã ardorosa em todos os sentidos.
Sinceramente, desconhecia o curta-metragem que é muito interessante.
Abraços, Priscilla.

Kriz em 30 de janeiro de 2008 às 19h14

é a arte imitando a arte.
não importa se é verdade, o curta não é um documentário...
é uma genial obra de ficção, que te deixa com a pulga atrás da orelha
=)

Pedro em 30 de janeiro de 2008 às 20h46

Totalmente Pedro!!! Concordo contigo. É a meta da meta da meta linguagem.
Abraços!

Kriz em 30 de janeiro de 2008 às 20h53

Deve ser muito bom, também não vi.
Selton è um dos maiores artistas brasileiros da nova geração; Seu Jorge muito bacana.
O argumento parece-me instigante.
Metalinguagem tarantiniana

Sandra em 30 de janeiro de 2008 às 22h05

A teoria é fascinante em todos os sentidos ;)

seven em 30 de janeiro de 2008 às 23h46

Por... legal pra car...

Fmalta em 31 de janeiro de 2008 às 16h51

Tô sem palavras. Maravilhoso esse curta, o cara que produziu é um gênio

Marcelo em 1 de fevereiro de 2008 às 06h08

A obra de Tarantino presta-se a isso :)

seven em 1 de fevereiro de 2008 às 13h20

" a meta da meta da metalinguagem" é brilhante, Kriz!
gosto do absurdo desse bar, desse encontro no bar. o Selton e o Seu Jorge ficam sendo meio estranhamente personagens de si próprios, não sei explicar; o lugar normal-surreal.. enfim. que bom que gostaram :) foi muy bueno escrever.

prill em 1 de fevereiro de 2008 às 13h43

Excelente! Salvou meu domingo de carnaval...

Alexandre Kovacs em 3 de fevereiro de 2008 às 22h23

PERFEITO!
Selton está perfeito!
De quem é o texto?
Bem arrematado, bem escrito,PERFEITO!

Ia em 9 de abril de 2008 às 14h37

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