Mozart - brincando aos clássicos

Em termos artísticos a palavra Clássico significa acabado, perfeito, eterno, algo que não pode ser melhorado e, por isso mesmo, constitui uma referência. Mas é também sinónimo de imobilismo, de repetição, monotonia... o oposto de Criação, tão essencial à Arte. No âmbito musical a palavra remete para a música produzida num dado período histórico e que obedecia a parâmetros bastante rígidos. Os músicos preferem, com razão, chamar-lhe música erudita.
Mozart é justamente considerado um clássico. Já falámos dele aqui e aqui a propósito do 250º aniversário do seu nascimento. O músico tinha consciência das regras apertadas que pendiam sobre os compositores e das implicações que acarretava a sua transgressão. No entanto foi um transgressor convicto e recusou ser igual aos outros, monótono e repetitivo. Foi não só original como brilhante na sua empreitada mas pagou caro o preço dessa ousadia. Mesmo assim, riu-se disso e fê-lo da maneira que sabia: compondo.
Os compositores seus contemporâneos, mesmo os melhores, eram indivíduos que escreviam 300 sonatas, 500 quartetos de cordas, etc. quase todos iguais. Isto devia aborrecê-lo sobremaneira. Compôs então um pequeno trecho musical propositadamente medíocre e banal mas pleno de humor onde captou todos os tiques dos seus colegas de profissão. Uma paródia, no fundo. Mas por trás da aparente banalidade há uma ironia muito subtil e um trabalho de composição extremamente apurado que, inclusive, introduz dissonâncias, fraseados assimétricos e politonais que só bastante mais tarde seriam utilizadas pelos Modernos, como Debussy ou Stravinsky.
Trata-se da peça em três andamentos Kv. 522 sintomaticamente denominada Ein Musikalischer Spaß (Uma brincadeira musical). Poucos meses depois desta obra medíocre Mozart deu-nos a espantosa composição Eine Kleine Nachtmusik, um dos seus trabalhos mais belos e emblemáticos. Uma bofetada de luva branca...

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23 comentários
Sim, Mozart era um brincalhão, mas subversivo. Por exemplo: “As Bodas de Fígaro” (K492), é uma ópera que se baseia numa peça política escrita por Beaumarchais, dramaturgo francês, da qual se diz ter incitado à Revolução Francesa. Ou o “Concerto para Trompa nº4”, do qual destaco o 3º andamento (K495). Mozart compôs quatro para este normalmente lúgubre instrumento fazendo que seja tocado de forma rápida e jovial – “Trompa e orquestra cruzam sons de ironia musical” (Herbert Kraus). Um Solo de Trompa?! Quem mais senão um génio revoltado naquela época de formalismo rígido, se lembraria disso?
Mateus em 17 de janeiro de 2008 às 22h25
Desde que assisti a um concerto comentado, onde exemplificaram que com uma música de Mozart se cantava o "Eu tenho 2 amores", nunca mais os meus ouvidos foram os mesmos. :[
Gosto de Mozart, mas prefiro outros clássicos não tão famosos.
Ah!, gosto de sonatas, mas quem me tira um minuete... tira-me tudo. Os de Boccherini são um espanto. ;)
Dina em 17 de janeiro de 2008 às 23h22
Mateus: concordo que Mozart era especialista em combinações surpreendentes, no mínimo. Não sei é se o fazia por revolta se pelo simples prazer de ser diferente ou extravagante. Mas que o fazia de modo soberbo, sim, fazia.
seven em 17 de janeiro de 2008 às 23h59
Dina: não pondo em causa a grande admiração que eu tenho pelo Marco Paulo, devo dizer-te que o facto do seu grande sucesso bi-amoroso ser cantável ao som de Mozart nenhum desabono traz nem um nem outro.
Faz o teste: experimenta declamar "Os Lusíadas" ao som da música "Cavalos de corrida" dos UHF e terás uma surpresa...
seven em 18 de janeiro de 2008 às 00h06
Era um génio revoltado neste contexto: "No entanto foi um transgressor convicto e recusou ser igual aos outros, monótono e repetitivo."
Senão, tenhamos em conta o 1º andamento da 'Sinfonia Concertante’ (K364). Começa com uma abertura longa, formal. Mas eis que um violino e uma viola saem dessa rigidez, dessa inflexibilidade e começam a brincar um com o outro, a jogar com os sons para vários instrumentos, como se pretendessem tocar os dois sozinhos um concerto inteiro.
A Orquestra tenta que eles voltem à ordem, várias vezes, repetidamente, mas eles continuam livres os seus solos, depois repetindo os sons um do outro e mais tarde formando um dueto de forma natural. A Orquestra tem de os seguir e o andamento acaba descontraidamente.
Este pequeno exemplo pode não ser o melhor, mas não é difícil encontrar “provas” da insubmissão de Mozart na sua obra.
Mateus em 18 de janeiro de 2008 às 03h12
" Cavalos de corrida ", grande tema em breve em reedição merecida; " Eu tenho uma loira e uma morena " - isso queria eu! - também não é mau, até porque o senhor canta bem, não é Dina?; Mozart era dois, e a entidade Seven já sabe bem o que eu entendo por dois em arte. Era dois, e cada um era enorme. Sendo assim, e dominando as claves em todas as linhas em que estas se podem fixar; sendo, ainda, excelente observador e irreverente em dose cavalar, só poderia produzir qualidade e inovação!
CJGil em 18 de janeiro de 2008 às 03h22
Em suma: um rebelde brilhante!
Gosto muito de Mozart e confesso que não conhecia esta peça nem essa história. Foi agradável ouvi-lo logo pela manhã.
Bluegift em 18 de janeiro de 2008 às 09h13
qual foi o preço dessa ousadia? =X
X em 18 de janeiro de 2008 às 15h37
Pois é exatamente por essas características peculiares, que Mozart é um dos compositores eruditos mais "clássicos"... e o meu FAVORITO!!! Beethoven tbm era meio fanfarrão, né não? Por isso, esses dois são os melhores :)
Palavera de quem não entende lhufas de música clássica, mas adora alguns clássicos impecáveis, como as peças desses dois :)
Abraços o/
MUTUMUTUM em 18 de janeiro de 2008 às 16h29
Seven-pá,
tu nunca compreendes o que eu esrcevo. Oh sorte malvada!:$
Só te desculpo, porque isso é uma prova irrefutável da tua masculinidade. ihihihih
Eu não subestimei nenhum deles, caraças! Aliás, seria pouco inteligente da minha parte fazê-lo, não achas?
Gosto de Mozart, mas não é o meu preferido.
Isto interessa para alguma coisa?
Nada. Apeteceu-me dizê-lo e ponto final parágrafo :P
Dina em 18 de janeiro de 2008 às 18h16
X: não sei qual foi o preço dessa ousadia em particular mas é sabido que Mozart fez muitas invejas numa corte onde era um estranho, de certo modo. Não teve uma vida muito fácil apesar de tudo e não morreu nem rico nem velho. Morrem jovens aqueles que os deuses amam.
seven em 18 de janeiro de 2008 às 22h51
Gil: há uma característica em Mozart que eu aprecio imenso e que só encontro nos grandes. É talvez a medida do génio. Enquanto um compositor com Beethoven cria peças magníficas mas esforçadas - é o que sinto - Mozart faz parecer as suas obras desconcertantemente simples, ainda que tenham um enorme esforço por trás. Os sons saem naturais, fluidos. Um criança trauteia facilmente Mozart e isso é um grande elogio. Só encontro equivalente em Bach, aquele entre os "clássicos" por quem nutro uma admiração sem limites.
seven em 18 de janeiro de 2008 às 22h58
"Cavalos de corrida" deve ter sido a melhor música dos UHF. Depois disso fizeram todas iguais. Mas já experimentaram cantar "Os Lusíadas" com essa música? É uma experiência que tem tanto de místico como hilariante...
seven em 18 de janeiro de 2008 às 23h01
É, suponho que um génio maior visitava e impunha-se regularmente a Mozart; Seven, quanto aos UHF é verdade: mulheres bonitas não as há somente na rua do Carmo.
CJGil em 19 de janeiro de 2008 às 05h37
eheheh... é verdade, Gil. Também as há aqui no obvious, por exemplo ;)
Bom fds
seven em 19 de janeiro de 2008 às 10h42
Anna em 19 de janeiro de 2008 às 11h16
Conhecia esta peça, Anna?
seven em 19 de janeiro de 2008 às 11h24
Quanto Bach não podia estar mais de acordo contigo, 7-pá. Esse é o máximo! Devo dizer que na minha estante está um calhamaço, da grossura de uma lista telefónica - "História da música ocidental"-, onde se lê que nos 3 melhores trabalhos de Mozart se nota, precisamente, a influência do Génio dos Génios. Há até quem diga que o classicismo começa precisamente com a morte de Bach.
E pronto, apesar de estar a escrever este comentário ao som de Justin Timberlake (aquela coisa ‘má linda’) apeteceu-me dizer que estou atenta e a gostar imenso de ler as vossas opiniões, viu Gil?
O que se aprende convosco!
Bom fim-de-semana a todos!
;)
Dina em 19 de janeiro de 2008 às 12h43
Recordo-te Dina-pá que Bach foi muito mal visto pelos Clássicos e também pelos Românticos. Só foi resgatado muitos anos mais tarde. Cito Eça, n'Os Maias: "Foram dar Beethoven a pessoas habituadas à chulice de Bach".
seven em 19 de janeiro de 2008 às 22h38
Dina, desculpa só agora te retribuir os votos de um bom fim-de-semana. Quanto a aprender, eu é que tenho aprendido com vocês... Só há pouco descobri isto, mas mais vale tarde do que nunca. Sinto-me bem nestas incursões; pena é que por vezes não haja disponibilidade.
CJGil em 21 de janeiro de 2008 às 03h58
O que há de bom no meio disto tudo é que todos aprendemos - nós e vocês - se tivermos a mente suficientemente aberta para isso.
Obrigado a todos pelos vossos comentários e sugestões.
seven em 22 de janeiro de 2008 às 13h14
Meu favorito é Bach.. mas não conheço quem não goste de Mozart!! alguém ai já viu o filme "Amadeus"???
O filme é um pouco exagerado mas retrata aquele mozart que, eu não sei se existiu, mas que é oque todo mundo imagina, retrata o ideal de mozart que nós (ao menos eu) tenho.
Rafael Carazolli em 3 de maio de 2008 às 18h02
Rafael: o meu favorito também é Bach ;)
O filme "Amadeus" é um clássico, toda a gente devia ver.
Obrigado pelo comentário. Um abraço
seven em 3 de maio de 2008 às 23h52
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