Em quanto tempo se conta uma história?

Publicado em tecnologia por lsoares em 7 jan 2008 06:26 PM | 9 comentários

Video Tempo Historia Contar Audiencia Publico
Ilustração: Jacek Yerka

Com o peso do vídeo a crescer na Internet, multiplicam-se os festivais de “filmes de um minuto” e de “microfilmes”, como se a emergente cultura de “snack tv” fosse uma descoberta do Século XXI.

Queria neste post só reflectir um pouco sobre o tempo que demora (ou não) a contar uma história e para isso, permitam-me, vou usar o exemplo da música. Quando me perguntam quanto tempo deve durar um vídeo “feito para a net”, costumo responder “o mesmo que uma canção pop”.

Condicionados pelas playlists radiofónicas e pela necessidade que as estações tinham e têm de agarrar as audiências, os compositores de música popular habituaram-se a exprimir-se no tempo máximo de três minutos, três minutos e meio. Ah, não, esperem! Isto não é coisa da rádio, é coisa de sempre. Essa sempre foi a duração razoável de uma cantiga, desde a Idade Média ao Renascimento, passando pelas “lieder” do Séc. XIX. Há excepções, claro, estamos a falar de média.

Esse é também o tempo médio para uma ária de ópera, mas uma ópera completa, tal como uma peça de teatro, durará mais perto de duas horas, tal como uma longa metragem de cinema. Já uma série de televisão tem um tempo que se aproxima mais do formato épico, da leitura de um romance. A própria telenovela tem a sua raiz óbvia no folhetim de jornal ou de rádio.

Tudo isto para dizer que esta “inovação” do “microfilme” não é de facto inovação nenhuma. Conta-se hoje uma história em trinta segundos de telemóvel celular, como se contou já num Haiku ou numa cantiga de amigo. Não me creiam Velho do Restelo, nem que vá dizer que a tecnologia não muda nada. A tecnologia muda muita coisa, mas os tempos em que se conta uma história, isso vão perdoar-me, continuam a ser tão velhos como a humanidade.

Lsoares AvatarLuis Soares é escritor e colabora com o obvious. Mais informações e textos deste autor no seu blog pessoal: blog.luis.soares
 
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9 comentários

Coloco a questão de outra maneira, extrapolando para a pintura e lançando achas para a fogueira: Quando está uma pintura acabada?
Resposta a): nunca;
resposta b): está permanentemente acabada.
Qual escolhes?

seven em 7 de janeiro de 2008 às 22h29

Muita coisa se atribui a tecnologia...
Mas como vc mostrou nem tudo vêm por ela...
Só se evidencia ou é mostrado por ela de maneira mais fácil ou acessível...

Rodrigo em 7 de janeiro de 2008 às 22h37

A tecnologia é um meio, neste caso, embora não concorde que não possa ser igualmente um fim.

seven em 7 de janeiro de 2008 às 22h48

Finalmente descubro quem é o dono do olho! A obra de arte depende primordialmente do teste do tempo. Meu primo tropicalista, Hélio Oiticcia, era um marginal para a família até que de repente a Tropicália foi redescoberta pelos ingleses com a mostra do Barbican, ano passado. A família imediata do Hélio é curadora arguta e hoje Helio Oiticica é assunto de teses de Ph.D. Realmente, a arte da Tropicália foi a última manifestação de porte no Brasil, em meio à ditadura. Hélio criou instalações antes do Andy Warhol e toda essa moçada cujas obras vi no DIA Beacon, um museu só para instalações em NY state.

Meu teste é este: passada a "modinha" ainda é arte, ou seja, tem significado cultural? Então é arte na vera. Se não, tudo bem, que pintura em veludo e poesia de Internet também têm seus lugares na criatividade humana.

Agora que te achei, não suma e me visite tembém, por favor.

tina oiticica harris em 8 de janeiro de 2008 às 01h02

Hummmm... Questão bem difícil a ser discutida. Cabem aqui várias nuances, pois o que é arte, o que é o belo? O que é atemporal? Não é também a arte um objeto inacabado para ser digerido, deglutido, repensado e "acabado" pela mente do observador? E aí, novamente ser "vomitado" e transcender conceitos?
Com certeza são muitas as reflexões. Como dizemos aqui no Brasil: uma viagem. Mas valeu a lembrança de Hélio Oiticica e da Tropicália como exemplos de arte que permanece e estende seus ramos através da cultura brasileira e mundial.
Abraço a todos!

Kriz em 8 de janeiro de 2008 às 01h29

Interessante abordagem, esta da Tina... É, acaba tudo por ter a sua "utilidade". São os mundos 1, 2 e 3 que Popper tão bem descreveu, no labor que lhes compete.
Tens razão, Seven, moças interessantes aqui por estas paragens!

CJGil em 8 de janeiro de 2008 às 03h41

Muito interessantes, Gil ;) E atenção que quando falamos em "ser ou não ser arte" na realidade queremos dizer "boa ou má arte".
Abraço a todos(as)

seven em 8 de janeiro de 2008 às 20h23

Claro, Seven! Está implícito esse juízo.
Abraço

CJGil em 8 de janeiro de 2008 às 22h13

"o cinema só será verdadeiramente uma forma de arte quando o seu custo for igual ao de um papel e de um lápis" ... ou quem sabe ao de um telemóvel...

rmes em 16 de fevereiro de 2008 às 00h43

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