Fotografias de anjos

Publicado em fotografia por prill em 23 jan 2008 06:26 PM | 20 comentários

 Morte Fotografia Criancas Meninos Historia Brasil Tradicao Velorio Funeral Anjos

Representações da morte infantil no Brasil dos oitocentos

Os estudos das representações sobre a morte e seus entornos, a fatal e coletiva passagem da vida para um desconhecido, nos reúne imemoriais em ritos que denunciam os anseios e as mentalidades de épocas e suas gentes. É certo que os eventos da morte relacionados às crianças costumam despertar uma comoção bem particular e, em finais século XIX, quando no Brasil a fotografia dava os seus primeiros passos, as práticas em redor da morte infantil ganharam novos contornos para seus antigos costumes evidenciando uma surpreendente comunidade imaginária onde o além é o mote primeiro do estar-se vivo.

Ainda que a prática da fotografia fosse uma novidade restrita às famílias mais abastadas e, desse modo, um tanto raras, o historiador Luiz Lima Vailati, em artigo para a revista “Anais do Museu Paulista”, conseguiu reunir uma série de imagens de crianças falecidas, datadas entre 1865 a 1895 (pertencem ao acervo do Museu Paulista da USP). Trata-se de um material um tanto chocante cuja força encerra relevâncias brutais sobre a sociedade Paulista e, até onde pudermos estender, à brasileira daqueles anos de 1800. Temos vislumbres de práticas que, aos nossos olhos viciados, não podem ser menos que absurdas. Mas ao início: por que fotografar crianças mortas?

A superexposição da morte e dos mortos fortalecia-se naquele período a cada velório onde ficavam apinhados as famílias, os vizinhos, os desconhecidos, os curiosos e toda sorte de pessoas - num movimento que, tenho certeza, ainda se pode encontrar no interior dos estados e nos cultos regionais em países de tradição católica. O mostrar, o apresentar o defunto já estava fundado entre as centenas de motivos que podem reunir público ao redor de alguém de quem se pode falar bem, mal ou somente falar, mas, no caso das crianças, o que se percebe é um outro anseio: inocentes, livres da dúvida sobre a descida ao inferno, os pequenos aparecem glorificados, podem portar pedidos, interceder, são assim chamados “anjos”.

Vailati explica que pela organização dos enterros de crianças, estes pareciam ser concebidos para uma assistência, para que pudessem ser vistos por todos. Eram, inclusive, realizados pela manhã, quando os velórios adultos costumavam acontecer pela noite. Existem documentadas procissões, cortejos, visitas dos anjinhos às casas, até mesmo com o uso de andores onde apoiavam os pequenos em suportes de madeira ou cordas; numa expansão que quase me escapa imaginar. É possível que a fotografia tenha sido opção para quando começaram a sair leis que visavam acabar com este costume dos cortejos.

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Jerônimo Bessa e Militão Augusto Azevedo, fotografaram, entre seus demais expedientes, os pequenos anjos de São Paulo numa sensível documentação dos corpinhos que, por não se apartarem de suas almas (era a crença), eram ornados como entes divinos. Flores feitas em coroas, um último olhar sereno, hábitos de santos (nas palavras do autor, se a criança se chamasse Francisco, ia com o hábito de São Francisco), cuidados zelosos de pais que desejavam ver seus filhos amparados também no outro mundo onde, na certeza da salvação, pediriam pelos que ficaram. Pediriam graças, perdões e, se fosse possível, outros filhos pro consolo.

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20 comentários

Por mais que pareça muito bizarro era algo extremamente comum. em alguns lugares na India, ainda de convive por semanas ou meses com o cadaver da pessoa na casa, até que ela possa pagar por um funeral apropriado! Inclusive servindo comida,

Dudu Maroja em 23 de janeiro de 2008 às 19h30

Os rituais da morte são muito diferentes por esse mundo fora, Dudu. No Oriente têm de um modo geral uma atitude de maior aceitação do que nas sociedades ocidentais modernas.

seven em 23 de janeiro de 2008 às 22h40

Bem, no caso citado por Dudu parece que as famílias só mantêm o cadáver em casa por não terem como pagar o funeral. De qualquer forma, tal atitude tb demonstra um modo diferente de encarar a morte, é verdade. Sabemos que os orientais encaram a primeira certeza pós-nascimento com
uma "leveza" que nos pode impressionar.

Gil em 24 de janeiro de 2008 às 05h17

Nascemos para morrer e esquecemo-nos disso.

seven em 24 de janeiro de 2008 às 10h15

Não conhecia isto. Lembro-me de ver em casa de um amigo alemão, há anos, uma foto antiga de uma família inteira e um morto num caixão - levantado, de forma a que o corpo estivesse quase na vertical. Mas era um adulto. Na altura pensei que o funeral devia ser considerado como mais um momento para juntar a família, como os casamentos e baptizados, que também têm direito a fotografias de grupo em pose.

tajana em 24 de janeiro de 2008 às 21h16

Pessoalmente incomoda-me a visão das pessoas depois de mortas. Considero os corpos em câmara ardente, com os rostos pálidos e macilentos, uma humilhação para os defuntos, que nem na morte têm o direito de se esconder pudicamente, frágeis e indefesos. Ao contrário do que dizia Andy Warhol, não se fica bem na morte.

seven em 24 de janeiro de 2008 às 21h25

Mas parece que se morreres com monóxido de carbono ficas com um lindo sorriso do tipo pós-plástica.
Bom, eu ainda só vi uma pessoa morta. Mas lembro-me de ter ido ao funeral do bebé de um amigo, que morreu no parto, e, obviamente, não quis ver a criança (é uma zona que tem a tradição de abrir o caixão uma última vez antes de o baixar para a cova, para as pessoas poderem ver e etc..). E uma tia-avó minha veio ter comigo e dizer que eu devia ir ver, argumentando que "É tão bonito, tão perfeitinho...". Brrr.

tajana em 24 de janeiro de 2008 às 21h31

Espero morrer de morte rápida e violenta, que é para não ficar com cara de parvo. Era só o que faltava...

seven em 25 de janeiro de 2008 às 23h30

amigos, estou impressionada pelo texto ter gerado debates e impressões. fiquei com medo que todos achassem mórbido demais (até desrespeitoso) e me dessem uma pedrada na rua.

o assunto é riquíssimo, riquíssimo. gostaria de deixar pra vocês a fonte, o artigo de Luis Lima Vailati que está disponibilizado na rede. http://redalyc.uaemex.mx/redalyc/pdf/273/27314203.pdf

gostaria participar também do debate, mas ando complicada com mais uns 20 artigos parecidos com esse. até :)

prill em 26 de janeiro de 2008 às 01h21

Welcome back, Pri ;)

seven em 26 de janeiro de 2008 às 09h45

Olha, agora que falas em pedrada... hmmm...

tajana em 26 de janeiro de 2008 às 15h27

Vais ser tu a atirar a primeira pedra?

seven em 26 de janeiro de 2008 às 22h16

Pois, se estão todos aí com vergonha...

tajana em 26 de janeiro de 2008 às 22h47

Força! ;)

seven em 26 de janeiro de 2008 às 22h57

Não!! Com força não!!!

(quando eu me referia a 20 artigos iguais a esse, não significavam artigos para o Obvious, mas artigos acadêmicos tratando das manifestações e representações da morte no mundo luso-brasileiro seculo 19). ufa! explicado. além de pedradas, fiquei com medo duma internação como psicótica.

prill em 28 de janeiro de 2008 às 05h29

Sim, sim. E já faltou mais...

seven em 28 de janeiro de 2008 às 12h43

Olá
Tornei-me admirador e divulgador deste blog, até em meu orkut, desde o primeiro e acidental encontro e agora, com estas fotos de "anjos", vocês se suplantaram !!!! Não conhecia este hábito, ou mesmo os cortejos citados... Fantástico !!!! Nada de morbidez, apenas tentando entender as razões humanas destes atos. Até por não ser um ritual tradicional de despedida, como um velório, ou missas. Parece ir além... Por serem "anjos" ?!?! Vou tentar encontrar entre os mais velhos alguém que saiba me dizer algo a respeito, o sentimento de uma época...
Bem.... Obvious merece ser estudado em teses. Todos os dias tenho a alegria de ser provocado e sempre aguardo ansiosamente pelo mais novo newsletter.
Obrigado e um grande abraço.
Eduardo

Eduardo Peter Zimmermann em 31 de janeiro de 2008 às 10h06

Muito obrigado, Eduardo. Abraço

seven em 31 de janeiro de 2008 às 14h23

também agradeço, eduardo. a tua idéia de perguntar pros mais antigos é boa, cara. presumo aqui que os costumes permaneceram pelo litoral até a primeira década de 1900, devem ter resquícios na memória de alguém, principalmente no interior do país.
quando levantar algo, não deixe de vir aqui partilhar com a gente, certo?
beijos

prill em 1 de fevereiro de 2008 às 13h49

ola companheiros!
Foi de muita ajuda pra mim encontrar esse conteudo aqui. Sou estudante da Universidade Federal de Sao Carlos, do curso de Imagem e Som, e pretendo fazer um trabalho final para a disciplina de Teorias do Audiovisual a respeito desse costume interiorano de fotografar os mortos no velorio ( e aqui, particularmente as criancas)
abraco a todos!

jose ruiz em 12 de maio de 2008 às 20h50

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