MailRail - o correio subterrâneo de Londres

Em Londres existe um sistema subterrâneo de distribuição de correio que serviu a cidade durante cerca de 140 anos, o MailRail. Este facto, tão surpreendente, é desconhecido da maioria das pessoas. A infraestrutura é equiparável a um mini-metropolitano, com pequenas carruagens que se deslocam em túneis de aproximadamente 2 metros de diâmetro, como se fossem vagonetas no interior de uma mina, o que se percebe dada a tradição mineira inglesa. Parece um brinquedo, mas o correio chegava realmente a horas ao destino - isto sim, para nós portugueses verdadeiramente surpreendente!
A ideia surgiu bem atrás no tempo, corria o ano de 1855, e consistia basicamente num túnel sujeito a vácuo com uma linha férrea no seu interior. As carruagens seriam movidas pela sucção provocada por um compressor de ar fixo numa das extremidades do túnel. Este sistema rebuscado parecia no entanto bastante exequível aos olhos do seu autor, Thomas Rammell, e levou-o inclusivamente a fundar a Pneumatic Despatch Company, em 1859.
Após a construção de um pequeno troço experimental e da realização de alguns testes, a ideia revelou-se eficaz e propôs-se a ampliação da linha. O primeiro ramal ligando dois postos dos Correios foi então inaugurado com pompa e circunstância a 15 de Janeiro de 1863, passando a linha a ter um tráfego diário de 70 vagonetas. Cada viagem de um posto a outro demorava pouco mais de um minuto e aí permanecia o tempo estritamente necessário para a carga e descarga da mercadoria, voltando a partir de seguida.

Inauguração do primeiro ramal em 1865 e vagoneta da época

Obras de electrificação da linha de 1915 a 1924

Composições eléctricas em 1930

Composição de 1962 e estação de Mount Pleasant
O MailRail funcionou bem durante alguns anos e foi até melhorado com novas vagonetas um pouco maiores. No entanto a evolução dos meios de transporte à superfície retirou-lhe a vantagem que possuía. Depois de algumas hesitações resolveu-se adoptar um novo sistema de propulsão eléctrico. Estávamos ainda em 1895 mas a adaptação da linha só se iniciou em 1915 para ficar totalmente concluída em 1927. Pelo meio houve a Primeira Guerra Mundial e durante este tempo os túneis e estações serviram como abrigo, nomeadamente de obras de arte (grande parte do acervo da Tate Gallery foi guardada nestes locais). O mesmo aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial mas durante este período continuou a funcionar, parando entre as 23h00 e as 7h00.

Depois da guerra o correio subterrâneo conheceu o seu ponto mais alto. Funcionava em três turnos durante 19 a 22 horas por dia, excepto domingos, altura reservada à manutenção da linha e das composições de vagonetas. Somente no último quartel do século passado começou a perder importância e a acumular prejuízos, que ditaram a sua morte adiada. Estações e ramais foram sendo fechados uns após outros até ao encerramento total, ocorrido em Março de 2003. O famoso sistema é agora um silencioso complexo de túneis abandonados onde apenas correm comboios-fantasma...

Quem desejar conhecer mais detalhadamente o MailRail encontra dois links interessantes aqui e aqui (em inglês).
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15 comentários
"Parece um brinquedo, mas o correio chegava realmente a horas ao destino - isto sim, para nós portugueses verdadeiramente surpreendente!"
Só assim por acaso, os nossos CTTs são dos serviços europeus mais fiaveis. Em España por exemplo, enviar uma carta é um suplicio.
Miguel Nogueira em 15 de janeiro de 2008 às 13h55
Muito bom! Desconhecia esta realidade.
vb em 15 de janeiro de 2008 às 14h41
Talvez os Correios de Portugal agora não funcionem muito mal, Miguel, mas recordo o que eram há alguns anos atrás. Eu lembro-me. Enquanto isso os ingleses praticam essa pontualidade (dita "britânica") há muitos anos...
seven em 15 de janeiro de 2008 às 15h11
Bem, experimentem mandar algo por US Mail, nos EUA e verão o que é um sistema de correios ineficaz e pouco fiável.
Manel em 15 de janeiro de 2008 às 17h59
Vocês ainda me vão convencer que o correio português é o melhor do mundo...
seven em 15 de janeiro de 2008 às 23h14
Marília em 16 de janeiro de 2008 às 01h52
Seven, a pontualidade "dita britânica" não passa de um mito. Como todos os mitos, teve a sua origem. Se calhar, em tempos, os britânicos foram praticantes da "pontualidade britânica". Hoje, testemunho a adopção da "pontualidade portuguesa": já perdi a conta aos exemplos de exasperantes secas que experienciei em Londres. Mudam-se os tempos...
CJGil em 16 de janeiro de 2008 às 04h04
Conheço pessoas que estiveram em Inglaterra e me dizem o contrário. Secas em Portugal é a regra e não a excepção.
seven em 16 de janeiro de 2008 às 11h26
Seven, não pretendi, de todo, afirmar que aqui tá td bem. As secas aqui são mais que muitas, tantas que o que verificamos mesmo é uma aridez de elevada monta. O que quis dizer é que “lá fora” tb nem tudo é um deleite. O caso da “pontualidade britânica”, por exemplo, penso que já era… Mas pronto, posso estar enganado; pode ter-se passado só comigo (há tanto de sibilino neste mundo!).
Não sou absolutamente nada a favor do muito mau ou medíocre que, em termos físicos ou humanos, reiteradamente continua a ser feito no nosso país, nada mesmo. Também não sou nada a favor do marasmo. Mas repara, uma das nossas péssimas particularidades é este provincianismo atávico que nos leva a dizer, não raro e a propósito de tudo e de nada, que “lá fora é que é…”.Vá, isto aqui (neste sítio) é porreiro!
CJGil em 17 de janeiro de 2008 às 03h25
Sim, também sou contra essa atitude do "lá fora é que é bom". Talvez, afinal, em algumas coisas tenhamos progredido muito. Estávamos tão atrasados... É facto que não tenho viajado muito ultimamente e, se calhar, os meus referenciais não são muito actuais.
Mas jamais falemos de pontualidade portuguesa! :)
seven em 17 de janeiro de 2008 às 09h43
Sim, claro. Quis dizer isso mesmo: a deles agora é como a nossa, ou seja, não é!
CJGil em 18 de janeiro de 2008 às 02h54
De qualquer modo, o que me impressionou mais neste tema foi o investimento numa infraestrutura como esta há 150 anos. Era preciso convicções! E isso foi coisa que nunca vi e não vejo por estas bandas...
seven em 18 de janeiro de 2008 às 23h28
Grandes e arrojadas mentes, sem dúvida. Já agora, são fantásticos os túneis! Gostava de calcorrear aquilo tudo... bem acompanhado, tá claro (se a minha cachopa ler isto!...)!
CJGil em 19 de janeiro de 2008 às 05h55
Não sei se isso é possível, Gil. Acho que os túneis estão mesmo fechados ao público e as imagens que vimos (a cores) foram feitas na data de encerramento por alguns ilustres convidados.
De qualquer modo, Londres está cheio de túneis, é um verdadeiro queijo gruyère...
seven em 19 de janeiro de 2008 às 10h35
Pois, Seven,vou ter mesmo que namorar no metro.
Gil em 21 de janeiro de 2008 às 04h44
Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do obvious sobre as matérias em questão.