Porque há tantos nus na Arte?

Publicado em artes e letras por seven em 9 jan 2008 12:27 PM | 20 comentários

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Amedeo Modigliani - Nu vermelho (1917).

A nudez sempre foi muito apreciada na Arte. É provável que tal facto fique a dever-se mais ao seu cariz sexual, eco distante da nossa natureza animal, do que a questões estéticas - a beleza. No entanto é inegável que as representações de nus proliferam na Pintura, na Escultura ou na Fotografia. Será que o corpo humano é intrinsecamente belo ou todos nós - artistas incluídos - somos voyeurs compulsivos?

A questão é complexa e foi já por várias vezes aqui abordada. A linha que demarca a arte erótica da pornografia é ténue e a nossa predisposição genética para achar belo o género que nos atrai sexualmente - homem ou mulher - acaba por nos toldar ainda mais o raciocínio e o sentimento. Não sabemos se o que realmente gostamos é da composição, da forma, da cor, do ritmo, do contraste, ou do(s) modelo(s) propriamente dito(s). As nossas reacções são então simultaneamente curiosas e reveladoras.

Quase sempre o senso comum tem uma de duas atitudes perante a representação do corpo humano nu: ou o condena, apodando-o de indecente, ou lhe confere o estatuto de Arte. Esta segunda posição é a que nos interessa; apenas na aparência é mais culta e com frequência mascara ignorância e o receio de a mostrar perante os outros.

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Praxiteles - Afrodite de Cnido (séc. IV a. C.); Policleto - Doríforo (séc. V a. C.)

As primeiras representações de nus com uma finalidade estética surgiram na Grécia Antiga. É preciso relembrar a grande proximidade, para não dizer coincidência, entre aquilo a que então se chamava Arte e a Religião. A Mitologia grega era composta por figuras antropomórficas, seres perfeitos que o Homem tentava igualar. Esta busca pela perfeição levou à instituição de um verdadeiro culto do corpo de proporções ideais que as esculturas de Fídias, Praxíteles e outros artistas plasmaram no mármore e no bronze. Nunca, desde então, se assistiu a outra representação de um nu com estes propósitos tão "puros" - Arte verdadeira.

Não obstante o nu continuou a preencher uma quota importante das temáticas utilizadas pelos pintores, escultores e, mais recentemente, pelos fotógrafos com todas as implicações trazidas pelo realismo próprio da fotografia. A uns interessa-lhes o jogo formal proporcionado pelas linhas ondulantes dos corpos; a outros o significado.

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Giorgione - Vénus adormecida (1510)

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Nan Goldin - Joana Topless at the Chateau le Bastion (2000)

Porém há uma dimensão da obra de arte que se reveste de um carácter sensual na acepção original do termo, ou seja, a percepção e estimulação dos sentidos. Não há artista que se preze que não deseje fazer vibrar o seu público. E que melhor meio para isso, então, do que o corpo humano nu? Os artistas sabem-no bem, como sabem também que a Arte deve ter sexo... e nexo.

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20 comentários

Gostei do texto; apenas uma observação: será que o nu é assim tão comum na arte? E o por do sol? Ou a florzinha? Ou será que nos chama mais atenção? Seria interessante valores estatísticos...

Cumprimentos

MN em 9 de janeiro de 2008 às 13h54

O pôr do sol é muito mais recente do que o nu, MN. É uma coisa - digo eu sem muito rigor - para aí do século XVII... O nu vem da antiguidade.

seven em 9 de janeiro de 2008 às 14h12

Viva!
Um dos motivos será idêntico ao da existência de tantos nus em blogs, sites ou publicidade.
Porque atraem a atenção.

Abraço

Luís Azevedo Rodrigues

Luís Azevedo Rodrigues em 9 de janeiro de 2008 às 14h16

Sem dúvida! Eu queria apenas sugerir se o facto de mencionares a abundância de nus não poderá ser uma consequência da "selecção" feita por nós próprios, e não uma realidade estatística. Eu falo em particular da fotografia; pelos meus conhecimentos, creio que abundam outros temas. Claro que, vendo as coisas por outro prisma, é mais fácil convencer uma árvore a ser fotografada, e não se gasta tanto dinheiro... ;)

MN em 9 de janeiro de 2008 às 14h23

Acredito com muita firmeza que há uma necessidade de auto-conhecimento humano que é iniciado à partir da arte que o retrata. Assim obedecendo a um ciclo sempre: a arte conhece ao humano que expressa sua dinâmica na arte ao longo da história.

Nesse contexto, o nu representa a busca e a resposta a esse auto-conhecimento até última camada, mais pura da essência.

MN - O nu nem sempre, mas o homem/humano é o recordista de aparições em figuras de arte. Em todos os períodos, sempre esteve lá, em maior ou menor expressão.

Vanessa Labuto em 9 de janeiro de 2008 às 21h21

MN: parece-me difícil, para não dizer impossível, fazer tal estatística. É um facto que o nu é muito desenhado, esculpido, pintado, fotografado, etc. O recurso a figuras nuas é muito comum no ensino artístico pela sua complexidade em ser representado condignamente. Digamos, por isso, que o nu na Arte é um clássico.

seven em 9 de janeiro de 2008 às 22h14

Isto é verdade para a arte ocidental. Não sei bem como será nas outras. Tenho a sensação de que a arte foi um dos poucos redutos onde pôde refugiar-se a presença do corpo nu depois de ter sido repudiada pela religião e pelas regras sociais. Numa sociedade onde as pessoas andem nuas, um objecto artístico que mostre um corpo nu será considerado "um nu", ou simplesmente uma figura humana? Um nu, afinal, também é uma forma de nos lembrarmos de quem somos, quando quase tudo o resto nas nossas vidas serve para esconder e controlar isso.

tajana em 10 de janeiro de 2008 às 02h48

Achei o site maravilhoso, ótimo conteúdo e discussão. Como agora são 3 da manhã, voltarei com calma =)
Bjs!

Erica Hans em 10 de janeiro de 2008 às 05h20

Vanessa: De acordo! :)

Seven: Sem dúvida, aí estamos de acordo. O nu faz parte do currículo de qualquer curso de belas-artes, nomeadamente em desenho e pintura...

MN em 10 de janeiro de 2008 às 09h16

Na mosca, Tajana ;)

seven em 10 de janeiro de 2008 às 14h51

A arte evoluiu: no começo eram apenas traços infantis representando animais e ... figuras nuas!
Em Minas Gerais (Brasil) vi uma dessas cavernas com arte rupestre: chama-se a gruta Rei do Mato - há lá um desenho de um homem com um falo bem visível. O que isso quer dizer? Que o homem é pornográfico desde os tempos mais remotos? Ou que há um um desejo quase mágico de compartilhar (e/ou vivenciar) algo visto (e/ou imaginado)? Ou se trata apenas de ganhar fama, fortuna e a mulherada?

Stephen Dedalus em 10 de janeiro de 2008 às 18h51

Dedalus: ignorava que havia uma gruta de arte rupestre em Minas Gerais. De que período é? Pode dar-nos mais informações sobre isso? Tanto quanto sei a única representação paleolítica de uma figura humana situa-se na gruta de "Les trois frères", na região franco-cantábrica. O resto é do Neolítico. A figura que refere celebra provavelmente um ritual de fertilidade.

seven em 11 de janeiro de 2008 às 00h18

Há vários lugares com arte rupestre no interior do Brasil, nenhum tão antigo como os sítios europeus, mas ainda assim interessantes. Acho que o lugar mais famoso do Brasil é a Pedra do Ingá, na Paraíba. De qualquer modo, dê uma busca em "arte rupestre Brasil" no Google e veja, por exemplo, o verbete da wikipedia (em português). Quanto à gruta Rei do Mato, acho que o estilo é o do paleolítico (naturalismo), e infelizmente não sei se tenho fotos de lá (vou fuçar em meus baús). Achei na rede uma única imagem (acho que de uma anta) no Flickr:
http://www.flickr.com/photos/caminhoaluz/1418960119/.

Stephen Dedalus em 11 de janeiro de 2008 às 16h52

Pois de facto já me tinha questionado do mesmo, e penso que os escultores/pintores só quereriam mostrar a beleza do corpo humano e fazê-la perdurar em quadro ou escultura.Cheguei a uma conclusão que afinal não há tanto "nu" na arte, simplesmente reparamos mais nela. è a nossa natureza :) ..abraço

Ricardo em 18 de janeiro de 2008 às 13h31

bota os homens peladois

maria eduarda em 8 de fevereiro de 2008 às 18h14

Uma: Courbet era demais por causa do naturalismo e da sua época.
Outra: o modo como reagimos a um nu diz muito sobre nós mesmos.
Blog legal... ; )

Mod em 21 de fevereiro de 2008 às 19h45

legal a matéria. Gostaria de fazer um trabalho sobre nu nas artes pláticas desde os primórdios da civilização. Quem tiver alguma imagem ou sujestão pode enviar para crepusQbol.com.br
obrigado

Carlos Cruz em 9 de abril de 2008 às 19h54

O nu nas artes nada tem a ver com voyeurismo, é somente uma inspiração
sagrada porque é um presente de Deus. O corpo humano é a materializa -
ção de tudo o que é suave e terno. As mentes involuídas é que maculam e
vêem com desvio de ângulo aquilo que retratado nos eleva a alma. Como é
bela a anatomia, a intimidade e a pureza do nu artístico, sem pornogra -
fia com a energia sensual feminina ou a força viril do homem.
Sem entender de artes, sendo leiga na matéria, entendo intuitivamente '
que gosto de gente em tela a óleo, com roupa ou sem ela.
A imagem que as pinceladas do artista produz ficam para a eternidade. É
o artista um pouco deus quando pinta a eternidade. Somente na arte o ser
humano é infinito.

Valeska Reder em 29 de abril de 2008 às 19h00

adorei ! esses cara nús ameiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii?

BIANCA em 22 de junho de 2008 às 20h55

O "nu" humano é uma coisa fascinante e que encanta a todos nós, principalmente se estamos diante do sexo oposto. É verdade que muitos veem com olhos maliciosos, maldosos, é verdade também que outros apreciam com exuberância o nu humano. Todos nós gostamos de apreciar o nu, mas nem todos tem a coragem de se mostrar, o que não deixa de ser natural, é escolha de cada um. Um belo trabalho, gostei.

Ney em 2 de julho de 2008 às 20h46

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