Aproximei-me a medo

Publicado em cidades por lsoares em 29 fev 2008 11:26 PM | 6 comentários

 Cidades Conto Ensaio Ficcao Lisboa Romance

Não era alta, a figura, mas não me apercebi logo que era uma mulher. Parei três passos depois, piscando os olhos. Seria com toda a certeza uma ilusão de óptica, mas pareceu-me que flutuava sobre o cimento, não mais que alguns centímetros de ar através dos quais conseguia ver o primeiro brilho da manhã rasando o rio cinzento. Mais dois passos e comecei a perceber.

Era uma mulher, parada no cais, de frente para o rio. A seu lado, uma mala pousada, como se lhe tivesse caído dos braços, escorridos ao longo do corpo. Junto da mala parara Corto e conversava com ela. Dos dedos para a mala, escorriam ainda gotas de chuva, a mesma que lhe encharcara o cabelo escuro e colado às costas de um velho sobretudo verde. Por baixo do sobretudo, um vestido comprido de lantejoulas num tom cinzento azulado que se confundia com a água e que eu tomara por rio. Por isso parecia flutuar.

Ao chegar-me mais um pouco percebi que o vestido roçara no chão molhado e a toda a volta estava decorado por uma bainha molhada de sujidade. A sujidade do cais. Seguro um instinto de me ajoelhar, de lhe encostar a face, de provar esses restos de terra e ar, da chuva que cai dos passos que passaram. Talvez assim, colado à terra, a sentisse girar, com ela a cidade e todos nós que a habitamos. Quem seria aquela mulher que logo me inspirava a beijar o chão que pisara?

Se vos tivesse contado um pouco mais da minha história, dos meus amores e desamores, talvez me tivessem chamado de imediato a atenção para a sua figura, o seu cabelo negro e comprido, o peito roliço, a estatura mediana. Sim, talvez tivesse sido desde logo evidente que aquela desconhecida me lembrava Clara, que numa multidão no Chiado, se a visse passar, talvez a seguisse para confirmar se era. Tocava-lhe no ombro, virava-se surpreendida, via a desilusão no meu rosto e logo o pedido de desculpas.

Mas não. Parei a uma distância segura para não parecer intrometido. As vozes soavam-me ainda indistintas. Corto, sem desviar o olhar da sua interlocutora, acenou-me primeiro que me aproximasse, depois que mantivesse ainda uma reserva de boa educação. A mesma sensação de uns passos antes invadia-me com mais tenacidade, uma vontade infantil de me apaixonar sem redenção por uma desconhecida. Nesse momento, Corto dirigiu-me a palavra.

as cidades Cinco pessoas escrevem sobre cidades, reais ou imaginárias, mas vivas dentro de si. Porque uma cidade tem vida e é esta que a define. Nova Iorque, Hammershoi, Lisboa, Fava ou Rio de Janeiro são cidades vividas dia a dia, passo a passo, cada qual à sua maneira. Diariamente as suas histórias, aqui no obvious. Todas as histórias na página das cidades
 
Faça parte da nossa comunidade. Receba o obvious da melhor forma.
* EMAIL semanal com o melhor da semana ou EMAIL diário.
* Assine o nosso feed de RSS ou twitter.

artigos relacionados

6 comentários

Pela descrição - cabelo negro e mala - aposto que é a Linda de Suza acabadinda de chegar para mais umas "vacanças". :D

O autor que me desculpe, mas eu hoje estou pró humor como a cerveja pró WC.

Dina em 29 de fevereiro de 2008 às 23h47

Eh pá mas a Linda de Susa já deve ter o cabelo todo branco a esta hora, do alto dos seus 140 anos...

seven em 1 de março de 2008 às 00h06

Eu só não afirmo a pé juntos que se trata da Linda, porque estou deitada e tenho dúvidas em relação ao material usado na concepção da mala. Para além disto, contamos com o pormenor do vestido comprido com lantejoulas que é muito revelador, pois é certamente uma daquelas peças únicas da haute couture à venda na feira de Carcavelos.

Dina em 1 de março de 2008 às 00h31

"Olha a mala,
olha a mala,
olha a malinha de mão"...

seven em 1 de março de 2008 às 00h36

Provavelmente teria acabado de sair do Lux, depois de mais uma noite em que o ritmo lhe contagiou o corpo e a alma... 8)

José Santana em 1 de março de 2008 às 02h35

Um vestido de rio :)

sao em 3 de março de 2008 às 19h12

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do obvious sobre as matérias em questão.







 
(obrigatório, não será mostrado no site)


Inagaki PHP Scripts site statistics