
Καλημέρα Astoria!*
Atravessei a avenida que se projetava na rodovia e segui adiante aguardando emboscada o terceiro circundar - a paisagem demorada e abundante. Parei embaixo do trilho do trem e esperei o sinal abrir. Sem a filmadora na mão, o bairro desarmado para eu nunca esquecer. Senti uma leve precipitação tocar minha bochecha e ergui o rosto. Estendi o braço para em seguida me dar conta de que havia uma goteira na estrutura suspensa, uma poça que se formou no alto com a água parada das chuvas. Sorri. Outras pessoas aguardavam o sinal que demorou para abrir, e eu cruzei a rua com um carro chispando bem atrás. O medo repentino para as vias da cruz.
Na esquina, o parque menor que se ausenta no inverno. De vista taciturna. Cortei caminho pelo meio, entre a quadra de esportes e o parque das crianças, e me deparei com um sem teto que descansava em um dos bancos perto do dragão que esguicha água no verão. Fiquei assim sendo no olhar, vendo uma pessoa largada. Ali, no evitável, contrariando a temperatura desagradável que imita a madrugada. Parte da cena que não orna com o sentir, com o humano. E tremia, tremíamos todos; menos a certeza de que nem sempre podemos com a vida. Então havia a casa italiana de iguarias diversas. O comércio enfileirado e todas aquelas lojinhas de agora e sempre, amém. A peixaria, a loteria e o rodopio. E na lonjura, o parque maior. Campo geral.
Em Lorena, cidade onde nasci, havia um hotel e restaurante grego chamado Olympia. O hotel era conhecido na cidade, assim como a família que mantinha uma certa relação com a minha. Convém contar que eu almocei lá uma única vez e agora percebo que não deve ter sido memorável, porque tive que puxar as lembranças todas e elas foram resistentes. O céu estava sempre só turquesa quando a gente passava de carro em frente ao hotel branco-branco, e eu gostava de imaginar que eles haviam mandado pintar de azul inclusive as nuvens para atrair freguesia. Como nos quadros e panfletos de agência de viagens. Ora, pasmem. Entreassumo que a Grécia para mim era isso. Excessiva em epopéias, grande em filósofos e heróica na mesa de domingo quando anunciavam que ia ter arroz à grega - que aqui é outra história. Então eu continuo.
Era Astoria vista de um ângulo corriqueiro, prosaico, onde restaurantes gregos alvoroçados reviviam elegias e outros também. E foi. Tomou-me tempo, mas veio na forma de uma cúpula azul vistosa quando eu virei na rua 26 e dei de cara com a igreja ortodoxa grega. A imagem do céu em Lorena, do hotel e dos quadros pendurados na porta da recepção. A pequena memória delineando o tempo, tencionando milagres. De dentro o silêncio, e como o portão estava trancado não pude entrar. Mas pensei. Pensei se ia valer fazer um pedido como me ensinaram, pois que era ortodoxa e grega - de meia calça cor de breu. Voltei metade do quarteirão e fui pela avenida que corta o bloco da minha rua. O dia de religar. Encontrei uma figura brasileira no açougue que teimava conhecer a história da minha cidade natal. Lorena no século XIX e o mapa do corpo da vaca na parede de azulejo branco, um diagrama que já nem hesita mais. Na mesa, a antiga criatura cristã. Andando, quase ao lado, e para as necessidades do bolso, o banco do país oficial circulando um entra e sai de gente e apertos e papéis na mão. Os números da cidade carecem de mais dígitos.
Parece que vi demais e caminhei mais um pouco. Tudo não demorou e ergueram, eles, a reforma na parede. No busto da ponte do trem de carga e passageiros. Aquele que sempre passa com o entardecer e que a gente fica a pensar na viagem inventada e feliz. Então a ponte. No sossego uma espécie de sustentáculo sem nenhuma beleza. Feia mesmo e, principalmente, porque acharam por ai que o lugar é depósito de lixo. À revelia. A gente se acostuma e uns mais ainda, e trazem cadeira, banco e tiram cochilo, conversam e olham enigmáticos para o urbano no qual eles se afiguram inseridos. Ninguém nem sabe mais o que é a vida sem a reforma instalada e a tela de proteção. Só sabe que mais adiante, no perdido da visão, a construção continua e desemboca no parque maior. Curvatura do abraço.
Vê-se. E eu achava que havia entendido tudo sobre alguns lugares. Pois que é preciso ser e estar de forma enfática. O quadro desembaçava o domínio do conhecer e as casas, iguais mas diferentes apaziguavam o passo desordenado. Um quarteirão de cada vez e o parque aos poucos, sem verde, ainda parque, amplo e nu. Oco de verão. Atravessei a rua, ajeitei o casaco como quando a gente se prepara para alguma festividade, para receber visita e fui, ansiosa, sabendo que nesse caso a visita era eu. Pedia para olhar. No começo, ainda no topo, o gramado vasto, quase ressequido. No final, o rio e o cargueiro. Uma porção de terra, um barco menor e o vento que aguça o olfato. Algumas lembranças e a vontade insuportável de matar a saudade. E depois do final, na conjuntura do limite - se isso é possível - a ilha amanhecendo.
*grego [kali me ra] ou [kaleemera] = bom dia
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