O Centro Entrelaçado

Publicado em cidades por isabella em 21 fev 2008 11:28 PM | 4 comentários

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Decidi pegar o ônibus desta vez no assim seja. Sem confirmar a direção com o motorista, e entrei no instante confortável que antecede o perder-se. A ligeira idéia. Lojas e restaurantes de todos os dias amontoados no primeiro e segundo andar das casas. Farmácias, padarias e portinhas de não sei o quê. Uma ou outra residência entre prédios espelhados de empresas e negócios. Na avenida, a perspectiva.

Eu tinha essa encomenda de longe a perder de vista e a tarde semibreve. Por sorte que não foi preciso fazer sinal para o motorista, pois alguém já havia solicitado a parada. Do alívio menos uma preocupação. Desci na rua 34 com o frio crespo ventando no rosto e o calor do movimento das pessoas nas calçadas, atravessando as ruas e avenidas com rapidez e urgência. Numa espécie de atropelamento constante. A tessitura de um não viver. A gente devia poder refrear-se, fazer desvios, e trazer no passo a querença de um sossego de espírito.

Segui rumo. Cruzei a Broadway até a Quinta e subi linear. O papel que me entregaram, além de algumas imagens e o dinheiro dobrado, dizia que deveria ser entre as ruas 36 e 37. Assim, só. E uma trama toda nova, visual, para desvendar. Lojas de tecido, armarinho e aviamento. Um vendaval de miudezas e aprestos na cidade de todas as coisas. Então notei que a medida em que escurecia do lado de fora, do lado de dentro uma profusão de cores e brilhos fazia da vista miúda e cansada um sol duradouro. Excessos. Homens guardavam a entrada da maior parte dos estabelecimentos, ao passo que vendedores vigilantes cuidavam da mercadoria e de manequins seminus entre sacolas pretas e vestidos para festas de última hora.

As ruas pouco iluminadas e estreitas seguravam o tráfego intenso daquele horário e eu deslizava silenciosamente entre os carros hesitantes. Aproveitei para olhar para cima incongruente. A vista um ziguezague de apartamentos e prédios e uma cascata de luzes que nascia no limiar da noite. Eu estava perdida e cansada e ninguém sabia da bússola interna. Na pergunta, o olhar abundante e ao mesmo tempo incerto das pessoas. Então é assim quando a gente deixa as vias principais e anda e anda a espreita das vielas. Pequenas travessias e uma cidade feita de muitas outras, maior. Diversa.

No resvalio da situação costurei quarteirões sem perceber que a única loja que vendia a encomenda havia fechado cedo por conta de algum querer. O lugar para não ser visto. Desejei morar por perto para apenas subir, tomar banho e comer - o de todo santo dia, sempre. Pois que da mesmice, a miríade. Escondida e espremida entre lojas de tecido de linho, algodão, seda, e muito mais, havia uma peculiar casa de botões - do princípio arredondado e achatado, mas mesmo, de todos os tipos, formas, tamanhos e cores para ornar o vestuário e a imaginação. A fim de contemplar. Escutei o dono do local falar do manifesto da cidade. Conjurações. Dos botões das peças da Broadway, raridades e gentilezas. E porque eu já havia desviado caminhos comprei alguns para mim. Pequenas inscrições urbanas.

as cidades Cinco pessoas escrevem sobre cidades, reais ou imaginárias, mas vivas dentro de si. Porque uma cidade tem vida e é esta que a define. Nova Iorque, Hammershoi, Lisboa, Fava ou Rio de Janeiro são cidades vividas dia a dia, passo a passo, cada qual à sua maneira. Diariamente as suas histórias, aqui no obvious. Todas as histórias na página das cidades
 
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4 comentários

O texto é muito sensível, com referências que se entrecruzam entre a paisagem interna e a externa, levando-nos a percorrer a narrativa de um dinâmico mapa poético. É cativante. Ao mesmo tempo que nos leva a passear por um entorno urbano, devolve-nos a memória de estilos fundantes da literatura brasileira. É o resgate de uma vivência metropolitana e de uma experiência lingüística. Recorda-nos Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Insere-nos em Nova York e no situa no sertão. É um enorme prazer ler os textos de Isabella Kantek.

Sônia Régis Barreto em 22 de fevereiro de 2008 às 12h42

Muitíssimo obrigada, Sônia, pela mensagem elogiosa. =)
A idéia que me sondava de escrever sobre a pequena cidade que (contra a força da natureza) cresceu pra trás do rio, logo desenfeitiçou e eu me vi obrigada a escrever sobre as vivências urbanas. Uma obrigação pessoal, espécie de cisma com a cidade excessiva. Um desafio esse de desenvolver momentos concretos entremeados de lembranças que nos acompanham diariamente. Inculquei com o agora. Satisfações. Meu desejo é que, se permitido for, a escrita se expanda até o céu entrelinhas, trovoadas da alma-sertão, de Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Rendendo graças.

isabella em 22 de fevereiro de 2008 às 23h05

Há tempos ouvi um homem numa pastelaria contar que a tia dele uma vez viu um botão de que gostou muito, e então comprou-o, foi ter com a costureira e disse: 'Faça-me um casaco para este botão.'

tajana em 23 de fevereiro de 2008 às 23h24

"Faça-me um casaco para este botão." Nossa, é isso!
Brilhante.

isabella em 23 de fevereiro de 2008 às 23h54

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