
Imagem de Metropolis, de Fritz Lang - 1927
Hoje falarei de cidades. Não de urbanismo, que é coisa de arquitectos e engenheiros, mas das cidades dos homens. Falarei da aventura das cidades, que começou há milhares de anos algures entre a mente visionária e a mão que segura o tijolo, qual delas a mais importante, qual a mais justa. É a aventura de uma raça de engenho cujos indivíduos escolheram viver em comunidade, impondo à Natureza a sua natureza e construindo o seu próprio ambiente artificial. Arte: as cidades são a arte derradeira do género humano.

Houve um tempo, durante muito tempo, em que se pensou que era um privilégio viver numa cidade, numa grande cidade. A civilização era, por definição, coisa urbana. O progresso era bom e só podia ser encontrado nas cidades. As cidades eram tecnologia. Hoje já não é bem assim e o sonho urbano resvalou não poucas vezes em pesadelo. Confusos, viramo-nos agora esperançosamente para a Natureza e descobrimos que afinal fazemos parte dela. Achamos então que as cidades são uma coisa má.
Mas não precisa de ser assim.
Vasculhando na nossa memória, as cidades trazem-nos boas recordações: das "Cidades Invisíveis" de Italo Calvino à "Metrópolis" de Fritz Lang, do "Spleen de Paris" de Baudelaire às visões utópicas de Sant'Elia, da lendária Persépolis ao "Frio Equador" de Enki Bilal, de Heliópolis, seja ela qual for, à obscura Urbicande... Fatalmente a nossa memória, passada e futura, parece condenada a ser uma memória urbana.
Todos devemos produzir memória e hoje queremos fazê-lo aqui. Cinco pessoas escrevem sobre cidades, reais ou imaginárias, mas vivas dentro de si. Porque uma cidade tem vida e é esta que a define. Nova Iorque, Hammershoi, Lisboa, Fava ou Rio de Janeiro são cidades vividas dia a dia, passo a passo, cada qual à sua maneira. A partir de amanhã começaremos a contar-vos diariamente as suas histórias, aqui no obvious. Um dia, quiçá, faremos um livro.
E quando a espécie humana acabar, consumida pela sua própria voragem, e as ruínas e vestígios arquitectónicos forem a pouco e pouco sendo reclamados pela Natureza, aço enferrujado, madeira bolorenta e betão pulverizado, a memória perdurará gravada num disco de ouro a bordo de uma nave espacial em direcção ao infinito. Lá estarão as palavras, os sons e as fantásticas construções de uns estranhos seres que se recusaram a viver sozinhos no meio da Natureza.
Não percam...
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