Há um rio que passa em Fava

Publicado em cidades por chloe em 13 fev 2008 11:27 PM | 8 comentários

 Cidades Conto Ensaio Ficcao Fava Romance

Há um rio que passa em Fava. Chama-se Maritsa. Não consigo deixar de pensar que é um nome de rapariga - de menina, mais exactamente. Maritsa podia ser a rapariga que, quando éramos crianças, chamávamos do portão - e ela aparecia à porta de casa, depois virava-se para dentro alguns segundos (não ouvíamos, mas sabíamos o que dizia) e, já com a aprovação da mãe, saía a correr para brincar connosco. Maritsa não podia nunca passar uma certa idade - o fim da infância, digamos -; portanto, e para não terminarmos a sua história numa tragédia precoce, fica por aqui a comparação. Maritsa é o nome que os búlgaros lhe dão. Os gregos chamam-lhe Evros. Evros e Maritsa. Os turcos dão-lhe um nome semelhante ao búlgaro - Meriç.

Maritsa, o rio, nasce na Bulgária, nas montanhas Ródopos, e atravessa o sul do país até correr ao longo da fronteira com a Grécia, primeiro, e depois com a Turquia, terminando, imagino que em beleza, num delta no mar Egeu. É um rio estreito e atarefado nas montanhas, mas que abranda o passo e respira fundo quando chega à planície, onde se cruza com Fava.

Falo do rio porque sempre senti que uma cidade com água - um rio, um lago, o mar - é outra coisa. Qualquer cidade pequena é ampliada pela simples passagem de um rio, pelas margens mais ou menos domesticadas, pela caixa de ressonância da água. Um rio é uma herança, como uma jóia de família ou um antepassado célebre. É injusto para as outras cidades, que não podem mudar a sua sorte, mas é mesmo assim.

Para além de um rio, Fava tem: ruas desenhadas à mão por entre as árvores (tílias, cerejeiras, ameixoeiras, castanheiros); um anfiteatro romano; um centro histórico em forma de crescente, cujo lado menor dá para o rio; uma rua pedonal cheia de lojas e esplanadas; ruas e avenidas modestas de prédios com lojas, cafés e oficinas, construídos nas últimas décadas; o melhor ponto de observação de Edirne, do outro lado do rio (Edirne, a grande cidade de minaretes caligráficos a desenhar um perfil que conhecemos dos postais e que nos lembra que estamos, aqui, a pousar um pé cauteloso no Oriente). A língua é estranha; as pessoas têm caras de vários feitios, sorrisos e tons de pele, embora, após as últimas guerras entre turcos, búlgaros e gregos, depois de acertadas as fronteiras e de a Trácia ter sido repartida como uma carcaça, as populações se tenham deslocado de forma a reduzir misturas: búlgaros ortodoxos e muçulmanos para a Bulgária; turcos para a Turquia; gregos para a Grécia. Ciganos, por toda a parte. Desde sempre, foi região de passagem dos invasores que fluíam e refluíam da Europa para a Ásia Menor e desta para aquela, com Istambul pelo caminho - gregos, macedónios, romanos, bizantinos, cristãos do ocidente, e várias nações modernas nas suas armas pujantes, construindo e destruindo e assentando camadas hoje enterradas por baixo de mercados de fruta e flores, de homens que gritam, de mulheres com crianças a caminho da escola, de automóveis, de notícias e inquietações do dia. Fava esteve sempre do outro lado do rio, discreta e persistente, vendo as lutas em Edirne. Ainda lá está.

Que o frio do Inverno não nos engane: em Fava estamos no sul - esse sul magnético para onde aponta sempre a fantasia dos europeus do Norte, feito de sol, de água salgada, de vinho, de pessoas que se tocam. Os homens beijam-se, em Fava, e abraçam-se. A cidade não fica à beira-mar, mas a estrada que leva até ao mar de Marmara e até ao mar Egeu faz-se em menos de uma hora. Estamos também, para alguém da ponta ocidental da Europa, na periferia de qualquer coisa. Ainda que a região tenha sido o epicentro de tanta história, muito antes de romanos e Viriatos, para nós, pendurados do outro lado, é o limite do mundo conhecido. Damos aqui, em Fava, com Maritsa, o primeiro passo para fora do nosso quintal.

Cheguei a Fava sem querer. Tinha ido a Edirne fazer uma visita turística; ao fim do dia, tentei em vão reservar um hotel. O festival de Kirkpinar tinha terminado no dia anterior, e os hotéis estavam cheios. Enquanto bebia um chá e decidia se voltava ainda nesse dia para Istambul, sem grande vontade de apanhar um comboio nocturno, reparei que havia uma cidade (seria ainda Edirne?) do outro lado do rio. Perguntei ao empregado do café como podia ir até lá, e se sabia de alguns hotéis. Ele fez um vigoroso assentimento com a cabeça e voltou segundos depois com um número de telefone. "Cousin. Good.", disse. Ah, eu sempre a cair nos mesmos erros... "Cousin" era uma palavra perigosa, naquele contexto, e o "good" não me tranquilizava. Podia, pela minha experiência, ser um quarto bafiento no sótão da casa de família. Mas guardei o papel, agradeci com um sorriso confiante e, seguindo as indicações do homem, fui procurar o cais de onde saíam os barcos e os autocarros para Fava.

Escolhi ir de barco, embora ainda demorasse meia hora. Queria saber como eram as águas do Maritsa - pareciam pesadas e lentas, mas também o Tejo, por vezes, tem essa qualidade de animal antigo a dormir a sesta, e, no entanto, ao entrarmos no cacilheiro, as pranchas de acesso sobem e descem perigosamente ao ritmo da ondulação, que até ali não existia. Fiquei a saborear o nome - Fava. Esse nome de comida antiga e respeitável. Vou a casa de um primo que mora em Fava, pensei, e tive vontade de rir.

as cidades Cinco pessoas escrevem sobre cidades, reais ou imaginárias, mas vivas dentro de si. Porque uma cidade tem vida e é esta que a define. Nova Iorque, Hammershoi, Lisboa, Fava ou Rio de Janeiro são cidades vividas dia a dia, passo a passo, cada qual à sua maneira. Diariamente as suas histórias, aqui no obvious. Todas as histórias na página das cidades
 
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8 comentários

O rio parece ser a matriz da cidade. As cidades nascem espontaneamente junto aos rios; fazem parte da sua condição urbana.
Talvez por ser ao contrário de tudo isto, Brasília é tão fascinante...

seven em 13 de fevereiro de 2008 às 23h41

Olá!
Genial o modo como somos sutilmente apresentados a menina Maritza.
Acabamos tendo duas histórias "pelo preço de uma". A do rio - nos é contada,e a da menina, fica por conta da nossa imaginação...

Amauri Ferreira em 14 de fevereiro de 2008 às 11h10

Gosto imenso do animal antigo a dormir, Chloe. É uma imagem toda poderosa.

sao em 14 de fevereiro de 2008 às 11h37

"Um rio é uma herança, como uma jóia de família ou um antepassado célebre. É injusto para as outras cidades, que não podem mudar a sua sorte, mas é mesmo assim."

Quando li esse trecho, lembrei daqui de Brasília, uma cidade sem rios e com um lago artificial, uma aparente rebelião contra a injustiça. E, de repente, vejo que seven falou que "O rio parece ser a matriz da cidade. As cidades nascem espontaneamente junto aos rios; fazem parte da sua condição urbana. Talvez por ser ao contrário de tudo isto, Brasília é tão fascinante..."

Percebi como o lago é tão... insignificante. Talvez por ser inacessível - embora seja certado por estradas e centros comerciais, muito de suas margens são privadas - a rebelião não tenha surtido efeito...

De qualquer forma, perdoe-me a deselegância de não comentar a cidade que visitamos nesse texto. Realmente, Fava para mim é uma absoluta novidade.

Adam Victor Nazareth Brandizzi em 15 de fevereiro de 2008 às 02h33

Se o Porto não tivesse o Douro, sempre queria ver as bocas que nos mandavam para Lisboa.
Madrid não tem rio e é coisa estranha, de facto, tem o lago do Retiro que não é, nem de perto nem de longe, o mesmo.
Beja não tem rio mas é planalto e tem um castelo, se tivesse rio era demais, a ideia de subir a uma torre e ver o redondo da terra e o liso dourado dos campos é herança boa, preenche bem o coração romântico da urbe :) (e tem famosa rotunda, Chloe :D)

sao em 15 de fevereiro de 2008 às 13h45

Brasília é uma impossibilidade tornada real. Arte.

seven em 15 de fevereiro de 2008 às 16h10

Amauri, obrigada. Muitas vezes penso nas histórias que não sei das meninas da minha infância que nunca mais vi.

Adam, creio que Fava é uma novidade para todos. Há meses li um texto de um escritor polaco sobre viagens (esqueci-me do nome), e a viagem dele era ao longo do meridiano que passava na sua terra - ou seja, apanhando povoações de que nunca se ouviu falar, por ali fora, sempre a direito. E ele dizia mais ou menos isto: mas onde hei-de eu ir, se não aqui? A Paris, onde todos já foram ou querem ir um dia?

Não conheço muito da história de Brasília, mas criar uma cidade do nada é um luxo espantoso que, nos últimos tempos, parece ter estar acessível apenas aos escritores, que só gastam papel e tinta. Ou então, aos fãs da Lego.

Quanto a rios, acrescento apenas uma citação do Luiz Pacheco: "A água do rio lava a cidade de toda a merda." Não me recordo da fonte.

Chloe, condessa de Ségur em 18 de fevereiro de 2008 às 01h17

Essa citação do Pacheco é brutal... Aqui em Aveiro não temos tanta sorte porque a ria (e não o rio) é que traz para a cidade toda a merda. Geografias...

seven em 18 de fevereiro de 2008 às 13h13

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