
A tentativa de produzir música deve ser tão antiga e essencial à espécie humana como a de falar; é apenas outra linguagem, no fundo. Há instrumentos imensamente antigos capazes de produzir sons espantosos e nos deixar a pensar como seria a música da época e da cultura em que foram concebidos. O gamelan, por exemplo, um instrumento com cerca de 2000 anos, oriundo da região de Java, é fascinante, não tanto pelos sons, melodias ou interpretação em si, mas pelo seu conceito.
O gamelan é, na verdade, um grupo de instrumentos variados. Compõe-se essencialmente de instrumentos de percussão tais como metalofones, xilofones, tambores e gongos. Eventualmente, poderão juntar-se-lhe grupos de sopro, cordas e até vocais, mas são excepções. A sua composição específica pode variar de região para região mas conhecem-se três grandes tipos, o de Java, o do Sudão e o do Bali. Há quem defenda, todavia, que não se encontram dois iguais em todo o mundo.


No entanto, o gamelan foi concebido como um instrumento único e não como um grupo de instrumentos. O papel do intérprete ou intérpretes é desvalorizado e é o todo que conta em absoluto. Isto equivale a um conceito de orquestra muito anterior ao que conhecemos actualmente mas não necessariamente igual, até porque não existe aqui a figura do maestro.
O que está subjacente é um conceito intrínseco à natureza musical: a harmonia. E é esta harmonia que se verifica não apenas nas combinações de intervalos sonoros perfeitos, característicos das escalas utilizadas, mas sobretudo no entendimento entre os executantes que torna este instrumento colectivo e ancestral tão fascinante.
No gamelan a música é produzida em conjuntos de sons de alturas e fraseados diferentes que se encontram a períodos de tempo determinados - no fim dos compassos se se quiser. A verdadeira melodia pode ser ouvida num registo de altura média, denominado balungan, que serve de fio condutor a toda a música e marca o ritmo, no fundo. Apesar de poder parecer uma polifonia anárquica toda a articulação melódica e harmónica é bastante complexa, facto a que a afinação do instrumento, que pode ser variável, não é indiferente: enquanto uns são afinados numa escala diatónica de sete tons (equivalente à escala menor natural), outros reproduzem exclusivamente cinco tons - uma escala pentatónica, portanto.
Este instrumento, relativamente pouco conhecido na Europa, diz-se ter influenciado fortemente o compositor impressionista Claude Debussy, que o ouviu tocar na Exposição Universal de Paris de 1889 (aquela em que foi apresentada a Torre Eiffel). Debussy compôs uma peça para piano intitulada "Pagodes" cuja estrutura musical se assemelha muito às músicas tradicionais para gamelan.
Gamelan do Bali
Construção tradicional de um gamelan
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