Hammershøi – A floresta condescendente

Publicado em cidades por sao em 17 fev 2008 11:29 PM | 7 comentários

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Acordei na repetição de janelas com cortinas ausentes. Ruas largas, prédios aprumados de pedra e tijolo escuros, acastanhados. Espaço, muito espaço urbanizado, não necessariamente em altura; e, outra vez, árvores, cada vez mais, mais do que a aproximação à cidade me permitira esperar. Muitas e cada uma. Direitas ao longo dos passeios, gigantes silenciosas a aparecer nas traseiras dos prédios, em aglomerados porque jardins ou, muito, em aglomerados porque sim. Hammershøi tem árvores como a terra: porque sim.

Então a noite chegou, devorou o mundo e Hammershoi foi o espaço escuro, a iluminação artificial a escassear enquanto passávamos do centro para o labirinto curvo de vias rápidas, iguais em qualquer lugar, a neve franzina que recomeçou no momento em que o táxi me deixou à porta do hotel, edifício de dez andares, com base de largura quase equivalente, albergando um centro de congressos. A contrastar com a noite e com a rua, o interior do hotel era feito de luz branca total, luz de frigorífico, sem altos e baixos ou sombras onde apetecesse estar, ficar. O ar entre as paredes, mais que limpo, cheirava a pó desinfectante, um ar com notas de fundo quase imperceptíveis de mofo e odores humanos disfarçados, controlados, odores ocidentalizados, anulados para uma qualquer ilusão generalizada, desejada, de conforto sem raízes ou entranhas.

Feito o check-in, entrei no elevador, uma montra de vidro de tal forma transparente que, àquela hora, um louco descompensado que tivesse acordado furioso poderia, sem especial vocação para sniper, limpar o sebo a qualquer pessoa que subisse ou descesse. Um minuto depois, a porta abriu-se para um pequeno átrio onde um homem magro, com bigodinho revirado à retrato antigo, envergando fato xadrez castanho e verde e uma boina de feltro cor de mel, engraxava os sapatos num dispositivo próprio instalado numa das paredes. Sorriu-me e disse-me boa noite num inglês melífluo com vogais abertas. O átrio afunilava num corredor comprido e uniformemente pouco iluminado, no qual o meu quarto veio a ser o último à direita.

Sou sempre um embuste em lugares assim. Aquela que não se adaptou plenamente às obrigações da idade adulta e nunca consegue roupa suficientemente formal para não destoar, que só deseja ser invisível, mas que as pessoas de sucesso, as que aprenderam a vestir-se para todas as ocasiões, sempre topam e olham com a complacência dos tios por afinidade – o que mesmo assim implica um mínimo carinho residual, ainda que abstracto –, como que abanando a cabeça e perguntando, nas muitas línguas subentendidas que o mundo gerou, “Não tinhas um fatinho de saia e casaco? Uma gabardina creme ou cinzenta? Uma malinha igual à pasta, aos sapatos – de salto, claro –, ao cinto e à mala de viagem, com rodinhas a condizer? Não podias ter esticado o cabelo?”.

Foi pois com grande alívio que abri a porta do quarto, tirei os sapatos, vesti uma t-shirt e recolhi ao meu temporário refúgio. Este quarto de Hammershøi reservava-me, porém, inesperado e redentor prazer: a um canto da divisão, correspondente a uma área de estar, com sofás, televisão e mesa com as revistas da praxe, descobri não o Santo Livro mas, melhor, uma mini hi-fi e, ao lado, vários discos, um deles contendo a 5ª Sinfonia de Beethoven, que conheço desde criança, e que, posta a tocar, depressa fez o que sabia de mais poderoso: trazer ali, invisível, a casa da minha infância para eu habitar. Assim mergulhada na música, aproximei-me da janela. Uma janela cega de vidro duplo, perfeitamente calafetada, sem possibilidade de vento; lá fora o negro demasiado denso para ser vazio ou mera falha de luz eléctrica. Vi as horas, voltei a vestir-me, e quase voei até ao elevador, não tão depressa que não pudesse reparar que o homem de boina mel e bigodinho estava – ainda ou outra vez – a engraxar os sapatos. Na recepção, perguntei pelo restaurante mais próximo, “estamos no meio do nada, são três grandes quarteirões”, era mesmo isso, “está bem, é seguro, desenho-lhe orientações neste mapa”.

Lá fora, o vento trouxe da escuridão os sons de Hammershøi, a floresta que condescendia em ser cidade, e eu caminhei no nada até ao restaurante.

as cidades Cinco pessoas escrevem sobre cidades, reais ou imaginárias, mas vivas dentro de si. Porque uma cidade tem vida e é esta que a define. Nova Iorque, Hammershoi, Lisboa, Fava ou Rio de Janeiro são cidades vividas dia a dia, passo a passo, cada qual à sua maneira. Diariamente as suas histórias, aqui no obvious. Todas as histórias na página das cidades
 
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7 comentários

Gosto muito dessa ideia de coisas que nos trazem a casa da nossa infância para habitarmos. Dava um belo poema.
Há um livro do Ishiguro (o dos Despojos do Dia) chamado Os Inconsolados em que o protagonista vai dormir a um hotel numa cidade e quando acorda olha para o tapete do quarto e vê que era o tapete do quarto dele em pequeno. O livro é todo ele um sonho estranho no espaço e no tempo.

Todas as cidades deviam ter árvores porque sim.

Chloe em 18 de fevereiro de 2008 às 00h00

Este texto me transportou para Hammershoi de forma sutil e serena... Muito bom!
=)

isabella em 18 de fevereiro de 2008 às 04h38

Chloe: há coisas que o conseguem. Na casa dos meus avós há uma maçaneta desaparecida de uma porta que já não existe, e descobri que conseguia, sem grande esforço - é estranha essa facilidade -, senti-la na mão, forma, textura, temperatura, tamanho.
Isabella: obrigada :)

sao em 19 de fevereiro de 2008 às 13h38

É a persistência da memória. Houve até um gajo que pintou um quadro sobre isso mas a Chloe não gosta dele...

seven em 19 de fevereiro de 2008 às 13h57

Cheira-me a coisa do Dali.

sao em 19 de fevereiro de 2008 às 15h11

Deve ser aquele que tem relógios em modo ovo estrelado a escorrer do - em Português moderno directamente mal traduzido do Inglês - contador de cozinha.
Fui ver: é!
Também não curto. Mas admito que isso possa dever-se à falta de trabalho meu na descoberta do que a comunicação social não cristalizou como sendo Dali.
Lembro-me bem da agradável surpresa que foi para mim a descoberta de Picasso, quer no museu de Barcelona, quer em livros que com minúcia se libertam dos lugares-comuns e divulgam a sua obra... as variações sobre As Meninas do Velásquez, por exemplo, são geniais.

sao em 19 de fevereiro de 2008 às 15h17

Apesar de não ser propriamente um fã do Dali, reconheço que essa é uma das imagens fortes e originais de toda a pintura moderna, um autêntico ícone.

seven em 19 de fevereiro de 2008 às 15h25

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