A Guerra do Fogo: a pré-história no cinema

Publicado em cinema por prill em 26 mar 2008 06:27 PM | 13 comentários

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Uma das maiores dificuldades no ensino da pré-história para crianças e adolescentes é estimular o recuo imaginário à um tempo absurdamente remoto e nisto demonstrar que, aparentemente, pequenos eventos naquele tempo e espaço representaram mudanças drásticas no relacionamento dos hominídeos com seus semelhantes e com a natureza ao redor. Como ilustrar a pedra lascada como um avanço tecnológico à pré-adolescentes donos de gadgets que fazem tremer aos mais inovadores canivetes suíços?

É possível que muitos de nós tenham feito visitas a museus de história natural ou que tenham passado horas observando reproduções de desenhos rupestres sem fazer muita idéia do que afinal havia ali para ser visto. Que diabos tinham aqueles rabiscos de mais?

Mas, graças a professores menos ortodoxos, é igualmente possível que alguns de nós tenham tido a sorte de esbarrar na escola com o filme A Guerra do Fogo; o maior e único clássico do cinema sobre o assunto, aquele em que passou na única aula sobre pré-história em que você (quase) não dormiu. Diante da superprodução 10 000 a.C., dos mesmos produtores de Independence Day e The day after tomorow, prometedor de uma nova visão sobre a era pré-histórica (se não uma visão correta, ao menos mais empolgante), a película francesa vale aqui uma revisita.

Parece que os milênios de anos não têm sido suficientes para trazer ao interesse da cinematografia os nossos ancestrais ocupantes de cavernas; salvo ligeiras aparições ou referências como em 2001, Uma Odisséia no Espaço ou Planeta dos Macacos, o assunto tem sido sistematicamente relegado àqueles filmes típicos de meio de tarde sob títulos como "Meu amigão das cavernas", ou seja, esboços nublados de pouca intenção didática. Há ainda A Era do Gelo e umas dúzias de documentários: o primeiro peca pela superficialidade teórica necessária num desenho animado e o outro pelo excesso de erudição e pelo ritmo pouco atraente para a maioria. Mas, ainda que 10.000 a.C. tenha um orçamento milionário e enredo blockbuster realmente capaz de atrair novos interessados para o assunto, sai em larga desvantagem quando comparado ao filme de Jean-Jacques Annaud.

Lançado em 1981, numa produção Franco-Canadense, La Guerre du feu é um longa que trata de levantar hipóteses sobre a origem da linguagem através da busca de três homo sapiens para conseguirem uma nova fonte de fogo perdida por sua tribo; este, o fogo, elemento divino e tenebroso para eles. O delírio sobre como esses três guerreiros se relacionariam/comunicariam, encontrariam, disputariam e fariam interações subjetivas é a base do roteiro assinado por Anthony Burguess, foneticista e consagrado autor do livro Laranja Mecânica. Burguess faz crível as adaptações e linguagens usadas por aqueles hominídeos além de fazer compreensível toda uma história recheada de grunhidos, mamutes mal-acabados e situações que, aos nossos olhos de hoje, não parecem mais que absurdas.

Fica-nos como destaques inesquecíveis o comportamento muito peculiar dos tais guerreiros incumbidos na recuperação do fogo: há a cena em que um deles taca uma pesada pedra no outro e todos - inclusive o apedrejado, com a cabeça sangrando - têm um ataque de riso. É clássica ainda a cena em que algumas fêmeas ancestrais vão refrescar a garganta num riacho e uma delas, ali acocorada, é surpreendida sexualmente por um macho das cavernas. Bem, digo surpreendida por falta de palavra melhor, já que a tal fêmea não parece muito surpresa: os alunos vibram.

A Guerra do Fogo prossegue surpreendendo a audiência pela sensibilidade com que trata um tema tão complicado, onde povoam ainda poucas certezas e muitas teorias. Como cinema, revela, dentro da simplicidade da produção, uma narrativa poderosa onde, sem dúvidas, nos identificamos como seres dotados de grande capacidade de adaptação e cujo tempo parece tornar sempre mais intrigantes.

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13 comentários

Adorei esse filme! Finalmente, surgia uma história (ou devo dizer pré-história?) que não se destinava a atrasados mentais.
Estou completamente de acordo consigo, Prill: O filme de Jean-Jacques Annaud é muito superior à superprodução 10 000 B.C.. Revejo, de vez em quando, "A Guerra Do Fogo", mas não sinto vontade para ver de novo "10 000 B.C." Para este último, uma vez é mais que suficiente.

Mateus em 26 de março de 2008 às 19h34

He he! Quando vi o tema do post pensei logo na cena da fêmea apanhada à má fila à beira-rio. Todas as pessoas que eu conheço que viram o filme lembram-se dessa cena em primeiro lugar. Somos mesmo básicos...

tajana em 26 de março de 2008 às 21h09

Mateus, pra mim esse filme é emblemático. sabe aquelas lembranças que juntam toda a turma da faculdade? então...queria faz tempo partilhar um pouquinho do quanto gosto o "A Guerra do Fogo". 10.000ac é o típico filme em que eu sento e não consigo relaxar; muitos absurdos, muita falta de sensibilidade e desejo arrasta-quarteirões. fora os absurdos cronológicos, bem...queria muito sentar aproveitar a pipoca, no final das contas. ossos do ofício. por mi, assistiria ainda incontáveis vezes.

taj-ana, a cena do rio está na minha top-five cenas inesquecíveis do cinema: não sei se começo a rir pelo absurdo ou pelo contrário, pela veracidade puríssima, a realidade que tem aquele "ataque" à beira-rio.

obrigada pelo comentário, muito obrigada.

prill em 27 de março de 2008 às 03h23

Este filme é também um tratado sobre comunicação.

Maria em 27 de março de 2008 às 14h33

Quando assisti o filme, o VCR estava com defeito, e só tinha semblante, nada de sotaque (traduzindo, só tinha imagem, nada de som). Mesmo assim o filme foi bastante interessante. Nunca mais tropecei com este filme, gostaria de assistí-lo com meus filhos, eles vivem à roda da TV e computador, seria uma experiência interessante...

Cesar em 27 de março de 2008 às 18h37

Assisti esse quando estava cursando o curso de história, e foi uma obra que me impressionou, tanto pela realidade transmitida e também pelo contexto histórico.

jorge kitchell pinheiro em 31 de março de 2008 às 00h41

Achei que o filme tem uma riqueza muito grande de conteúdo,o autor foi muito inteligente nas suas colocações, sobre o nivel de evolução de cada tribo ,e mostra como o homem não consegue viver sozinho,isolado.

Cacilda Sueli A.Mori em 4 de abril de 2008 às 18h13

eu vi esse filme quando estava na quinta série,estavamos trabalhando sobre a idade da pedra lascada e veio na cabeça do professor esse filme.
Gostamos muito e achamos interesante.O diretor desse filme foi mito inteligente.

Rafaela Batista em 18 de abril de 2008 às 01h03

Maravilhoso filme, pena não não encontra-lo nas locadoras ou cinemas... como posso compra~lo? Nota 1.000

Maria Helena em 26 de abril de 2008 às 13h43

Encontrei no Submarino.com.br:

http://www.submarino.com.br/dvds_productdetails.asp?Query=ProductPage&ProdTypeId=6&ProdId=1052454&ST=SE#content

Quer dizer, acho que é este mesmo...

Tem legendas (????) em francês e espanhol.

Diretor: JEAN-JACQUES ANNAUD
Informações Especiais: Audio commentaries by Jean-Jacques Annaud, Michael Gruskoff, Ron Perlman and Rae Dawn Chong - 15 video galleries with director´s commentary - Theatrical trailer - Featurette

Importado
Título Original: Quest for Fire: A Guerra do Fogo
Tempo: 115 minutos
Cor: Colorido
Ano de Lançamento: 2003
Recomendação: 16 anos
Região do DVD: Região 1
Legenda: Francês, Espanhol
Idiomas / Sistema de Som:
Inglês - Dolby Digital 5.1
Formatos de Tela: Widescreen

César em 26 de abril de 2008 às 19h59
César em 26 de abril de 2008 às 20h03

Esqueci... Para encontrar no ML, usei a seguinte consulta:

http://lista.mercadolivre.com.br/a-guerra-do-fogo

Cesar em 26 de abril de 2008 às 20h04

Recordo-me de um desenho animado que passava na Rede Record cuja história se passava na Pré-História. O personagem principal era chamado Cabelos de Fogo e o nome do desenho acho que era Harram, ou Haram (não me lembro bem). Alguém sabe onde posso encontrar informações sobre esse desenho? Pelo que sei, trata-se de uma animação francesa.

Wagner Luiz em 29 de abril de 2008 às 16h00

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