A lavanderia Automat

Publicado em cidades por isabella em 2 mar 2008 11:26 PM | 9 comentários

 Cidades Conto Ensaio Ficcao Iorque Nova Romance

A máquina parou de girar no meio do ciclo com as roupas cheias de sabão e amaciante. Era tarde e Joana fazia lavanderia na Continental Laundromat. A atendente do local deu mais sabão e moedas, mas não amaciante. A vida tinha sido dura com ela. As duas discutiram entre dois programas de auditório e não se entenderam. Era o sotaque. Inflexão peculiar.

Um livro, um pedaço de papel e lápis, às vezes uma caderneta. Música sempre. O dia da lavanderia e do desassossego. Já fui e usei três diferentes, todas aqui mesmo no bairro, mas não tem jeito, acabo voltando para a mesma onde houve o desenlaço. Pois que no início, a novidade - a máquina de troco, os carrinhos, o o-quê-vai-aonde-e-em-que-ordem, as pessoas, sempre elas. As duas máquinas, de lavar e secar. Verdadeiros trambolhos. Também já mudei a minha rotina inúmeras vezes. Troquei os dias e os horários, fui sozinha e acompanhada, entretanto e geralmente, o eu sozinha basta. E apenas uma vez, uma única vez, usei o serviço de drop off. Estava doente de inverno.

As televisões, duas, são panos de fundo e estão sempre ligadas nos canais para ninguém ver com o volume exaltado. O controle remoto no lugar ausente. Então é assim?, perguntaram-me uma vez. Todo mundo usa a mesma máquina? Tem sapato naquela você viu? Todo mundo que você conhece e não conhece, e se pensar é muita gente. Muita história e hábitos diferentes em termos de vida. Nessas horas, o de menos. E quando sozinha, no minuto em silêncio, gosto de pensar se não ocorre o mesmo com os outros. Digo, a mente desenhando. E imagino se eles deixam se embalar pelas idéias e pensamentos que deslizam no ato de dobrar, abrir e fechar a secadora. Tão repetitivos. Porque para mim a vida aparece mais límpida, quase branca, num compreensível psicológico. No não-automático.

O momento casual em que vejo famílias inteiras, um ou outro casal. A mãe e a criança arrastando o cobertor. Jovens. Todos no lugar para não estar. O lugar que é passageiro e emburra, mas que compõe a cidade. Fico com vontade de chamar de evento, o evento cotidiano. E cogito se as lavanderias, que estão por toda parte, com o tempo não se transformaram em instituições. Parece-me que Hopper não as pintou. Como? Deve haver um ou outro blues. Só pode. Washing Machine. E simples assim, tenho uma amiga que carrega as roupas no bagageiro do carro e aproveita para lavá-las em qualquer canto da cidade. A laundromat itinerante. E eu. Eu continuo onde estou porque há mudanças e mudanças.

As atendentes, rostos novos e abatidos, trabalham no esquema de turnos. E se não fosse a rotatividade constante seria fácil reconhecê-las como parte do lugar. Lembro-me do dia em que uma delas chorava em abundância por causa da imigração. Quis ter feito algo para ajudá-la. Quis ser menos covarde. Além do dono, um senhor grego que nunca está lá, há um homem de meia idade que nunca deixou o local. Ali assiste TV e de vez em quando ajuda nas tarefas do estabelecimento. Usa o banheiro como se estivesse na sua própria casa. E talvez esta seja a sua casa durante o dia. Já o peguei dormindo despreocupado, assim como já o vi lavando a própria roupa. Anda pelo estabelecimento como se fosse senhor absoluto e me cumprimenta na rua como um vizinho o faria, e não é?

Ontem nevou e eu saí para lavar a roupa com a neve caindo, rarefeita. As sacolas de roupa, o casaco e tudo que servia de superfície ficou entre-branco, naquele instante que antecede a neve desaparecer. E ventava muito levando o tempo para o mais alto. Um esquilo coçava o nariz e olhava para a rua como se soubesse que era domingo. Eu precisei desviar da irregularidade no chão e quando olhei, ele já não se encontrava ao lado dos cogumelos e esculturas de sapo no jardim. Atravessei a rua e notei o carro da funerária com o farol aceso. Há uma funerária ao lado da lavanderia, bem, quase ao lado. Até. Há uma funerária, pensei. E sempre, ninguém nunca chora o choro ideal. Exceto nos dias de chuva - em dias assim, em que o céu permite, a gente aproveita e lava a alma que veste o corpo.

as cidades Cinco pessoas escrevem sobre cidades, reais ou imaginárias, mas vivas dentro de si. Porque uma cidade tem vida e é esta que a define. Nova Iorque, Hammershoi, Lisboa, Fava ou Rio de Janeiro são cidades vividas dia a dia, passo a passo, cada qual à sua maneira. Diariamente as suas histórias, aqui no obvious. Todas as histórias na página das cidades
 
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9 comentários

absolutamente divino, bella isabella... amei também a imagem escolhida para ilustrar o artigo. Fantástico.

bjr em 3 de março de 2008 às 00h12

A imagem me lembrou o filme maravilhoso "My Beautiful Laundaurette", que vi em Manchester, England, England, across the Atlantic sea.

Tenho uma parecida. Finalmente chegaram estes modelos aqui nos EUA.

tina oiticica em 3 de março de 2008 às 06h37

Muito obrigada, BJr!! =)


Tina, que bom que você mencionou o filme porque eu não me lembro de ter assistido. Acabei de colocá-lo na minha "queue" do netflix, então depois te conto o que achei...

Obrigada pelo comentário. =)

isabella em 3 de março de 2008 às 13h07

Gosto imensamente deste texto, Isabella :)

sao em 3 de março de 2008 às 19h26

Agradeço imensamente, São. =)

isabella em 4 de março de 2008 às 05h05

Isa,
esse artigo chegou bem no fundo do meu cerebro, ate parece que eu ja passei um monte de vezes por uma situacao semelhante alias eu ja vivi isto, so que as vezes parece um sonho que vai e volta. Parabens muito bom mesmo!!!!!!

Zulma em 6 de março de 2008 às 20h29

Zulma, querida, muito obrigada! =)

isabella em 6 de março de 2008 às 22h05

aqui no meu pueblo achamos extremamente fascinante essa coisa de lavanderias. lembro dum filme que uma loira fica mascando um bastonete vermelho enquanto espera a roupa lavar, que filme é esse?

é um dos textos mais lindos que você já escreveu, minha querida... já disse isso? queria dizer mais, mas não sei que me acontece.

"Todos no lugar para não estar. O lugar que é passageiro e emburra, mas que compõe a cidade. Fico com vontade de chamar de evento, o evento cotidiano. E cogito se as lavanderias, que estão por toda parte, com o tempo não se transformaram em instituições."

por motivos a,b e c, minha parte favorita em acontecimento é o esquilo. vou agora ao tanque.

priscilla em 7 de março de 2008 às 12h05

Que filme é esse? Agora preciso saber...
Sabe, a minha parte favorita também é a do esquilo. E geralmente de tudo o que acontece nas preliminares do lavar. Observações pequenas do de sempre.
Obrigada pela mensagem, Prill querida.

isabella em 7 de março de 2008 às 14h37

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