
Talvez nem isso, apenas um fio, metálico e tenso, linha sobre o vazio, hipótese de equilíbrio improvável, vontade de cair.
- Deixe-me apresentar-lhe. Este é o meu amigo... desculpe, não me disse o seu nome.
- É seu amigo e nem sabe o nome dele?
- Pagou-me um pequeno-almoço de rei. Frango e cachupa.
- Aquiles.
- Como o herói?
- Aquiles Bernardo.
- Está tudo bem com o seu calcanhar?
- Caro Aquiles, deixe-me apresentar-lhe a menina Athayde.
- Com agá e i grego?
- Como adivinhou?
- O seu tom de voz pressupunha alguma arrogância no nome.
- Se preferir deixo cair o agá e o grego do i.
E estendeu-me a mão a cumprimentar-me. Uma mão pequena, pálida e fria, húmida da chuva que perdia força, mas talvez fosse só a madrugada na pele.
- A menina Athayde perdeu o seu transporte para deixar Lisboa.
- Não sabia que ainda atracavam barcos de passageiros neste cais.
Sorriu pela primeira vez e baixou os olhos, cerrados por pestanas tão pretas e molhadas como o cabelo.
- Era um avião. Só depois de o deixar ir decidi que devia contemplar uma última vez este rio.
- Uma última vez?
- Sim, tenho novo voo daqui a três horas.
- Posso perguntar para onde?
- Hammershoi.
E disse-o com um traço atravessando o O.
- Ou Fava. Ou Rio de Janeiro. Talvez Nova Iorque.
- Muito frio, não vai gostar. - Lamentou Corto.
A menina Athayde retorquiu com um arrepio.
- Indecisa, não?
- Não se quer aquecer? Encontrar um local mais aprazível?
Estendeu um pé como um primeiro passo, por baixo do vestido, e percebi que estava descalça. Não se virou como se fizesse uma pirueta. Deu alguns passos em semi-círculo e percebi que o chão debaixo do seu vestido estava seco. Seco e... areia, seriam grãos de areia? Sorri para mim, teria Corto encontrado a sua Tágide?
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