Apreciando um doce e mil cheiros

Publicado em cidades por prill em 16 mar 2008 11:26 PM | 8 comentários

 Cidades Conto Ensaio Ficcao Romance Rio Janeiro

O primeiro cheiro que me chega perto do nariz é o de damascos. Às vezes acho que é porque nunca comi damascos, não assim, a fruta, já geléias. Deve ser por isso que eu entro e penso em como o cheiro, de tão coral, se espalha entre os outros e sobrevem.

As ruas estreitas nunca mais me lembraram maquetes depois que cresci; quando os pés vão gastando as pedras do chão, quando o corpo já entrou em contato direto com a parede e quando os olhos mediram como devia ser a queda do telhado, as noções fantasiosas param de ser inexistentes e é possível, finalmente, ficar fascinado com a realidade vinda pros sentidos. São sobrados ou quantos andares? Por que não nos lembramos bem do que acontece sempre? E é um de frente para o outro à pouca distância porque assim o sol vai bater e, fora o meio dia, podemos contar com a sombra diagonal, contar com...

A casa que vende é grande, essa tem dois andares e é ampla, pouco arejada, o que favorece. Na porta ficam gordas sacas de temperos, no meio, colunas de aquário com uvas secas, tâmara-sem-caroço, mel com própolis, cravos-da-índia, nozes, pistache, desconhecidos e aqueles inacreditáveis paus de canela que têm o tamanho de um braço. A soma de uma prateleira com bacalhau, outra com chocolate, outra vinhos e mais então esfiha doce causa um caos olfativo e a minha sorte é que me prendo em ver, meu sentido é de ver mesmo sem óculos, mas as Casas Pedro são lugares da experiência do tato que causa um milhão de perfumes entre as comidas, os condimentos e os vendedores.

Saí com um clandestino doce folhado de maçã dentro dum saco pardo. Mordi ali mesmo, o rapaz mal tinha terminado de embrulhar com o chapéu branco, eu mal agradeci o troco de tão ansiosa e criminosa. Sinto muitas saudades do meu pâncreas, o único que eu amei. Não vou dizer que as descrições não são tentadoras, nem que não goste delas, admiro as descrições de Praga que faz Kundera porque me asseguram o equilíbrio entre a percepção individual e o organismo metropolitano coletivo que é parte externa do nosso próprio. Por que me apego então ao meu próprio organismo e ao meu próprio pâncreas? A mordida nessa receita tem uma textura, um cheiro, um risco que vão me formando lembranças do tempo paralisado, mas que vai refreando os segundos tão distraidamente que tudo ao redor se torna capturável, isso é um momento.

Desde o século XVIII, apesar das mudanças de nomes sofridas, a Rua Senhor dos Passos e a Rua Buenos Aires ficam ao lado da Rua da Alfândega. Na frente delas há um espaço aberto, quase um delírio verde, muito verde, cotias e com árvores e até um pavão, milhares de gatos fincados bem no meio do caos do Centro do Rio de Janeiro. Um pavão azul! As cotias cruzaram o portão principal do Campo de Santana [Praça da República], as cotias comem biscoito cream cracker segurando um pedaço (de broa de milho) entre as patinhas.

A Senhor dos Passos começa com uma banca de frutas especializada em frutas para sobremesa; são abacaxis cortados em fatias, mangas em cubos, caixas plásticas pro transporte até o escritório e junta gente ali pra pedir nem que seja uma prova, escolho melancia. Mastiguei com calma, com a língua fazendo o enquadramento, guardar o sabor de cravo, da massa. A Saara talvez seja um bazar, queria conhecer um bazar como os orientais conhecem e erguem, compram, vendem. Lembro que, antes de agora, aqui era um pedaço de Oriente Médio, de imigrantes sírios, libaneses, israelitas, turcos, que fugiram da Primeira Guerra. Sobrados: comerciavam no andar de baixo e se abrigavam nos de cima. Depois vieram os argentinos, mas os portugueses já estavam aqui antes dos índios; agora todos falamos chinês, coreano e japonês só pelo gosto de permanecer Oriente, extremo.

E se eu saísse do lugar, se andasse? Vi tudo tão infinito agora, as pessoas, os rapazes puxando as carroças com mercadoria (anunciam: "olha o pesado!"), as moças na porta da joalheria segurando folders e as que estão na porta dos restaurantes segurando comandas. Outras - gosto de canela, torci para que fossem parentes das canelas gigantes que ficam no meio da loja - pousam ao lado daqueles manequins de mulher que só têm a cintura pra baixo, aqueles da calça jeans apertada, invejante; apoiam o cotovelo e comentam algo que nunca consigo ouvir por serem mistérios que elas nunca me deixam fazer parte. As lojas com roupas da indianas, os indianos, aquela casa que tem elefantes de bronze e estátuas tribais à porta, imensas, e aqueles abanadores de plumas! Chinelos, tecido, chapéu, sacola, lenço, fralda, flor. Tem de plástico, bem baratinho.

 Cidades Conto Ensaio Ficcao Romance Rio Janeiro

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Igreja Nossa Senhora da Lampadosa e um pedinte sem as pernas caminha com as mãos [Rua dos Inválidos], as bocas da bermuda feitos nós, mostra a mão preta com poucas moedas dentro e talvez alguém ponha mais, mais até que as velas da igreja fachada azul. Tantas velas... como eu tinha medo da Nossa Senhora da Lampadosa! Nunca entendi porque minha mãe me arrastava ali porque eu queria correr, queria entrar na parafina e depois entrar na parede por não poder concorrer com os objetos, me esconderia neles. Na esquina a casa de fantasias de carnaval (começo agora a pensar que imagino elefantes de bronze à porta de muitas lojas ali pelas ruas da Saara). Suspiro porque não sou passista. O pedinte saiu ou entrou onde não vi e os auto-falantes da Rádio Saara gritaram um jingle bizarro-em-cômico sobre um lugar que só vende meias.

Passei a mão na boca por conta dos farelos, baixei os olhos pro saco pardo malhado de gordura. Delicioso folhado de maçã... peguei o embrulho de plástico e amassei com o papel, os guardanapos, fundo da lixeira preta. Senti tudo colorido com pesar pecaminoso dos que não se desfazem na saliva.

as cidades Cinco pessoas escrevem sobre cidades, reais ou imaginárias, mas vivas dentro de si. Porque uma cidade tem vida e é esta que a define. Nova Iorque, Hammershoi, Lisboa, Fava ou Rio de Janeiro são cidades vividas dia a dia, passo a passo, cada qual à sua maneira. Diariamente as suas histórias, aqui no obvious. Todas as histórias na página das cidades
 
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8 comentários

Este post me leva ao passado quando minha mãe trabalhava no Itamaraty, minha turma da FAU-UFRJ tomava aulas de desenho artístico no Campo de Santana mas nunca soube o nome da igreja.
Levei meu filho pra ver as cutias em 1997. Ah! O RIo de Janeiro pode ser recente; sua história arquitetônica significa muito pra mim. Seu conto e fotos -- o máximo. Parabéns.

tina oiticica em 17 de março de 2008 às 09h21

Prill, adoro seu jeito de escrever. Caminho com você por estas ruas que não conheço. Entro e aprecio o que tem na venda. Venda ou loja? Uma descrição perfeita... Muito bom. Bom mesmo o seu texto.

Anna em 18 de março de 2008 às 18h23

tina, vou ser obrigada a roubar esse trecho em algum momento da minha vida escrevedoresca: "levei meu filho pra ver as cutias em 1997". lindo!! cacete!

acredita que meu apelido é cutia? tudo porque uma vez contei pruns amigos do estágio (o estágio era no Arquivo Nacional, na Central, não sei se você chegou a pegá-lo depois de reformado...) que, quando eu era pequena, gostava tanto das bichinhas que começava a chorar de emoção quando via elas comendo, gritando "olha a cutia, mãe!". eu lembro que queria jogar toda minha comida pra elas, biscoito, sonho de padaria, enfim..
também tem uma história que a minha mãe conta sobre as cutias, que certa vez elas fugiram do Campo de Santana e as pessoas saiam correndo pra matá-las, pra comer. sei lá se é verdade, tenho de buscar confirmar.
sei que hoje o campo é cercado por uma tela de arame.

você é gentilíssima, obrigada mais uma vez por deixar suas palavras por aqui.

ah, e a igreja que contei fica na Av. Passos. é uma pequena, muito parecendo ter parado no tempo, lembra qual é? vou ver se acho foto e te mando.

priscilla em 18 de março de 2008 às 19h18

Muito bom. Gostei especialmente do 'Por que não nos lembramos bem do que acontece sempre?' Apanhas muito bem (neste e noutros textos) pequenas sensações que são muito comuns mas de que ninguém fala.

A cutia é um pássaro ou um roedor? Em Portugal não existe, e pesquisei no Google mas dá-me ambas as coisas.

Chloe em 18 de março de 2008 às 21h38

Obrigada, Priscilla:

Não tínhamos dinheiro nos anos 50-60; meu pai era da marinha mercante. Minha mãe tomava conta de nós duas e nos levava para passeios quase grátis. Foi assim que conheci a Casa do Ruy Barbosa, que tinha moitas de carambolas no fundo, Paquetá, no tempo da Cantareira, e tantos outros passeios, a Quinta da Boa Vista...

Estou vivendo fora do Rio desde 1985. Perdi a restauração do A.N. e muitas reformas feitas pelo Luiz Conde. Meu professor de desenho artístico nos levou a vários lugares urbano-desconhecidos, então.

No Image Google há uma foto excelente de uma cotia/cutia com pássaros a cercando. Tem direitos, mas a busca é cutia cotia. É herbívaro. É um bicho fascinante. Este blog é fascinante. Priscilla tem olhos que valha-me Deus tudo captam..

tina oiticica em 18 de março de 2008 às 22h57

chloe, aqui; encontrei no flickr essa imagens das cutias no Campo de Santana. são esses roedores fofos, fofos. pena que não tem vídeo porque elas correm tão bonito!

http://www.flickr.com/search/?w=all&q=cutia+%22rio+de+janeiro%22&m=text

e tina, o seu Rio de Janeiro parece ainda mais fascinante visto daqui, dessa vista das suas memórias, nossa! Paquetá nos 50-60! olha, tenho fotos do AN no meu flickr, aqui http://www.flickr.com/photos/prill/page2/

e não, meus olhos não vêem tanto não, mas me esforço muito pra reter tudo nos outros sentidos, o sentido do esôfago, de dentro das unhas, da nuca. quando você volta aqui?

priscilla em 18 de março de 2008 às 23h23

Meio destrambelhado é como eu fico . Vc me invade com teus cheiros .Não sei pra onde olhar tantas cores e muito eroticamente essa excitação de ir atras de vc e olhar e sentir e ao mesmo tempo querer olhar pras tuas pernas ......Como resistir ao damasco das tuas palavras,Alperce da tua pele.Faz tempo ia no meu onibus e em frente do Panteão de Caxias ficava feliz e orgulhoso.Também temos nosso Buckingham.Nossa guarda pra lá e pra cá, garbosos e meios preguiça, mas lindos. Se mudava de lado no onibus via as minhas Cutias lindas , sempre nervosas, curiosas e destemidas comendo folhados de maçã e eu já ali sabia que aquele papel pardo malhado trazia diluída todas as gorduras e fluidos da cidade . Quem te disse que vc não é passista ???? É e da melhor qualidade. Cumprimentos. Luiz

Luiz em 20 de março de 2008 às 11h22

(cinco anos de sem saber o que dizer)

obrigada, Luiz. não sei se ainda vai ler, mas obrigada pelas palavras.

ps: e olha que achei que fosse a única a ter alucinações com os guardas do Panteão. são a guarda londrina! são! juro! (rsss)

priscilla em 1 de abril de 2008 às 06h39

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