As bonecas de papel

Publicado em outros por prill em 17 mar 2008 06:24 PM | 14 comentários

 Bonecas Brinquedos Coleccoes Papel Paperdolls Roupas

As bonecas de papel com suas roupinhas recortáveis e montáveis, como hoje as conhecemos, começaram a ser difundidas na América do Norte e Europa a partir dos anos de 1910, em suplementos de propaganda e revistas. Dirigiam-se tanto às crianças quanto às mulheres, com temas talvez mais específicos para cada idade: para as meninas, réplicas infantis e, para as últimas, as tendências da moda. Fala-se até de uma "época de ouro" das bonecas de papel. Teria começado a partir dos anos 30 e se estenderia até os anos do pós-Segunda Guerra; eram muitíssimo populares porque o papel tornara-se um produto acessível, bem mais barato que nos anos anteriores e o estrondoso sucesso em todas as casas eram as bonecas de celebridades, principalmente das estrelas do cinema.

Podia-se construir todo um Olimpo só com as divas de Hollywood em kraftpaper. De um lado, as modelos; uma Marilyn Monroe de roupas íntimas à moda da época (aqueles sutiãs torcidos no meio eram bárbaros), pinta junto da boca e, na página ao lado, seus figurinos com pequenas abas para dobrar e prender. Numa época onde as Barbies eram um luxo ao alcance de quase ninguém, poucas coisas deviam ser mais divertidas para as meninas, moças ou donas de casa quanto vestirem suas bonecas da Rita Hayworth como Gilda ou enfileirarem suas coleções da Dior em miniatura.

O ilustrador americano Donald Hendricks, especializado em desenhos de moda, é o responsável por uma série de paperdools que vão direto à inspiração dos 50's para compor essas belas peças vintage que apresentamos logo aqui abaixo: Christian Dior, Grace Kelly, Rita Hayworth, uma adorável Frida Kahlo e mesmo a presidenciável Hillary Clinton.

E como nada nos impede de começarmos nossa própria coleção, estão na Amazon.com vários catálogos com dúzias de temas, esses aqui encontrei na Livraria Travessa por preços não-assustadores. Para imprimir, cortar e montar sua própria boneca de papel, há no site paperdoll.com a galeria com os desenhos de Donald Hendricks com os mais diversos personagens da realidade e da ficção. Cai perfeito para os dias em que as mãos e as tesouras estão criativas.

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14 comentários

Não adianta, os moldes da Frida são os meus favoritos!
Ainda vou te mandar a foto daquele vestido da barbie que te falei.
Ótimo artigo, Prill.

isabella em 17 de março de 2008 às 22h39

Até onde eu sei, a Frida desprezava os padrões de beleza americanos, e orgulhava-se de ter uma única sobrancelha, que ia de um lado ao outro do rosto. Sem falar no buço, apenas sugerido na boneca de papel acima. Bom, na verdade estou exagerando um pouco, mas que ela tinha mais pêlos na cara do que sugere a boneca, isto tinha...

Não quero com isto dizer que não a aprecio, pelo contrário, admiro-a pelo seu estilo colorido mexicano, e pela sensibilidade e paixão com que pintava seus retratos.

Cesar em 18 de março de 2008 às 14h35

Oh, eu queria uma da Tippi Hedren com vestidinhos verdes e pássaros!
Adoro essas bonecas :)

saõ em 18 de março de 2008 às 18h08

isabella, esses moldes da Frida foram o grande achado do útero íntimo no ano passado. fico feliz de ter podido colocá-lo aqui, ficou muito bem aqui nessa imensidão do Obvious. vou comprar o livro com as bonecas pra nós, querida. e estou esperando a tal caixa, e estou esperando o vestido da Barbie.

cesar, o que vejo aqui é uma visão do artista, do Hendriks, sobre as paperdolls. os moldes dele também não correspondem ao modelo das bonecas dos anos 50, sabe... ele criou algo original. acho que arte é isso, visão dele, sua, nova. não deve satisfações aos conceitos de beleza que o en-moldado gosta, o que importa é o olhar conceitual, a trasformação da coisa. e me arrisco até a dizer que acho que a Frida gostaria do seu molde, ia só sugerir cores mais vibrantes, tudo mais vivo.

obrigada pelos comentários...

priscilla em 18 de março de 2008 às 19h05

Por falar nas cores da Kahlo: quando esteve uma exposição de pinturas dela aqui em Lisboa fiquei surpreendida, não só com o tamanho pequeno das telas, mas sobretudo com as cores - que eu achava, pelas reproduções que conhecia, que eram vivíssimas, mas, na verdade, eram relativamente escurecidas. Fiquei na dúvida sobre se será um efeito do tempo e da luz nas tintas, ou se elas eram mesmo assim. Alguém sabe dizer-me?

tajana em 19 de março de 2008 às 12h26

Bem lembrado, Tajana. Eu também tive a mesma impressão com as obras dela que estão expostas no MOMA - quadros pequenos, cores escuras, molduras pesadas. Se alguém souber, por favor.

isabella em 19 de março de 2008 às 20h30

Por vezes esse obscurecimento acontece com obras muito antigas. Era e é hábito cobrir as pinturas a óleo com uma camada de verniz que realça o brilho e a saturação das cores ao mesmo tempo que as preserva. Nas obras centenárias o verniz torna-se opaco e amarelo pela acção da luz, empobrecendo as cores. Não me parece que os quadros de Frida Kahlo sejam suficientemente antigos para sofrerem desse efeito mas nunca se sabe...

seven em 19 de março de 2008 às 21h57

Aqui há tempos li um livro sobre a história das cores em que se falava dessas cenas, e também do facto de que algumas tintas de composição mais moderna (para aí a partir de fins do séc. XIX) às vezes não estavam suficientemente testadas pelo tempo, e portanto aconteciam alterações imprevistas (como certos amarelos do Van Gogh, que pelos vistos era afoito a testar novos materiais em directo). É lixado - se usas uma tinta recente, podes nunca vir a saber que cores terá a tua obra daqui a uns tempos...

tajana em 19 de março de 2008 às 23h04

A história das cores é muito engraçada. Até ao século XIX pensavam-se os maiores disparates sobre elas. Isso que falas é curioso. Sei que Georges Seurat (contemporâneo de van Gogh), por exemplo, teve imensos problemas com a estabilidade de alguns tons de amarelo que descaiam para o verde azeitona em vez do alaranjado vibrante. Deviam ser problemas de juventude da química (as tintas sintéticas começaram a ser comercializadas em meados desse século; até lá cada artista fazia as suas mezinhas).

seven em 19 de março de 2008 às 23h24

Andei a ver se descobria algum comentário a isto online; encontrei esta nota no New Yorker: "The meaning of Kahlo’s art comes across in reproductions, but not its full dynamic, which involves brooding subtleties of surface and color. The reproduced images are shiny and bright. The paintings are matte and grayish, drinking and withholding light. (Their display calls for intense illumination—that of the Mexican sun, say. They should not be hung on white walls, as they are at the Walker, where the contrast makes them look like holes in a snowbank.) The lovely, highly varied, blushing colors (even Kahlo’s browns and greens blush) don’t radiate. "(http://www.newyorker.com/arts/critics/artworld/2007/11/05/071105craw_artworld_schjeldahl?currentPage=all)

Não deixa de ser curiosa esta persistência das reproduções em serem mais vivas que o original. Porque será? Alguma ideia feita de que tudo o que vem do México tem de ser em cores vivas para corresponder ao exotismo que temos na nossa cabeça? Será que vende melhor assim?

tajana em 19 de março de 2008 às 23h29

O mesmo livro falava de coisas tão corriqueiras como a influência que factores económicos podem ter na paleta de cores de um artista. E referia isso a propósito da obra de Rembrandt na altura em que ele vivia na miséria, e tem todos aqueles tons sombrios castanhos. A questão era se, mesmo que quisesse, Rembrandt na miséria teria podido comprar azuis, que custavam os olhos da cara, ou outras cores feitas com pigmentos caros. Não se diz que fosse isso, mas que é uma questão que poderia ter influído nele e em outros (e inclusivamente quando eram os mecenas que pagavam as obras, se não queriam abrir os cordões à bolsa...)

tajana em 19 de março de 2008 às 23h36

Sim, isso é bem verdade, não é só o lado pictoresco, chamemos-lhe assim. Van Gogh pintou muitos auto-retratos porque não tinha dinheiro para pagar as tintas (era o père Tanguy quem lhas fiava) quanto mais um modelo. E Degas, ao contrário dos restantes Impressionistas, pintava no seu atelier devido a problemas de saúde (visão).

Por isso essas histórias não me custam a acreditar. É preciso ter em atenção que as cores não são vistas da mesma maneira agora, com carradas de lúmens e graus Kelvin em cima, e quando foram aplicadas na tela, provavelmente à luz da vela, onde todos os tons parecem amarelados devido à baixa temperatura de cor.

Miguel Ângelo foi durante muito tempo visto como uma mau colorista. Feito o restauro da Capela Sisitina verificou-se que as suas pinturas estavam apenas sujas, muito sujas.

seven em 19 de março de 2008 às 23h49

[1.eu havia escrito um monte de coisas e apagou tudo aqui de repente...]
[2. começava dizendo que me sentia muito honrada de fazer parte de um grupo tão culto, e eu com esse chapéu de orelhas cumpridas rs]

no "el diario de frida kahlo" há várias anotações pessoais dela sobre as cores e nenhuma delas remete à uma visão das cores como explosões efusivas de alegria ou vibração. são passionais, mas muito diferentes das cores que estão nas reproduções das obras, e muito diferentes também das cores que a própria artista usava em si - nas roupas, nas flores, nos penduricalhos - que nunca pareciam exceder e, de fato, não excediam.

mas a temática dos quadros não é a mesma temática da Frida exterior, as telas são a intimidade e,.. eu vejo a dor, a sobrevida, a grandiosidade estranha de estar por aqui. as cores também não são as mesmas. já vi algumas fotografias dela enquanto trabalha, posando junto das telas em finalização, em andamento e isso fica bem marcado: as cores dela, as cores dos quadros. nessas fotografias acho que as telas são muito mais próximas do que são ao vivo (como queria ver um dia... de perto...). encontrei essa aqui, mas está pequenininha http://static.flickr.com/78/183413808_e9cd23441a_m.jpg

mas por que eles reproduzem como reproduzem também é mistério pra mim.. vou ficar aqui me recusando a acreditar que seja por uma caricatura.

ps: lista das cores e as observações de Frida sobre elas.
El verde: luz tibia y buena.
Café: color mole, de hoja que se va; tierra.
Amarillo: locura, enfermedad, miedo. Parte del sol y de la alegría.
Azul cobalto: electricidad y pureza. Amor.
Negro: nada es negro, realmente nada. Verde hoja: hojas, tristeza, ciencia. Alemania entera es de este color.
Amarillo verdoso: más locura y misterio. Todos los fantasmas usan trajes de este color... cuando menos, ropa interior.
Verde oscuro: color de malos anuncios y de buenos negocios.
Azul marino: distancia. La ternura también puede ser de este azul.
Magenta: ¿sangre? Pues, ¡quién sabe!"

priscilla em 20 de março de 2008 às 00h32

Adorei ver estas bonecas de papel. Há quase 50 e tal anos fartei-me de brincar com este tipo de bonecas, com montes de vestidos e muita imaginação.Só não eram de gente famosa, como Frida Khalo, mulher extraordinária, diferente, cheia de côr num mundo só dela e ainda desconhecida no meu mundo de então.

Margarida Pinheiro em 21 de março de 2008 às 02h13

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