Carnaval (só no ano que vem)

Publicado em cidades por prill em 1 mar 2008 11:24 PM | 10 comentários

 Cidades Conto Ensaio Ficcao Romance Rio Janeiro

Devo algum perdão por falar de ruas que não são minhas, embora por mim edificadas todas. Essas ruas, esses becos, travessas, travestis, avenidas com nome da guerra, da música, de ofícios artesanais, da quitanda, do ourives, um monte de chão por onde você talvez pense ter andado. E mais outros podem e pensam. Se bem que deviam ter andado, passado, visto... Porque esse Rio de Janeiro é um índio gordo, antropófago, índio gordo deglutindo todo o planeta entre os vãos. É o cerne de toda ficção e improbabilidade, como uma Nova Iorque jamais metálica.

Aqui é de asfalto, tem joalheria, areia de aterro, paralelepípedo, pedras dos Açores, grama, água, vala, manguetown. Pelas freguesias se desconhece a realidade porque eu vi, e só digo o que verdadeiramente pude ter visto, os alemães descendo a Rua do Riachuelo paramentados de filhos de Gandhi; um amigo ladeado pela namorada observou: tetranetos de Gandhi. Bahia frankfurtiana, Rua do Riachuelo - referência à uma batalha... Era Carnaval.

O elevador apontou o 16º andar do Piranhão, e fazia um frio absurdo, como sempre, de gelar. Adelaide segurou os botões, mexeu nos cabelos e se assenhorou do tempo dela. Ali no refeitório, o senhor prefeito César Maia lhe dizia e ela ouviu. Nossa Senhora da Penha, pendurada na parede, também ouviu e segurou o menino Jesus mais forte voltando depois aos seus afazeres. Adelaide, é que esse ano são outras coisas, vamos deixar quieto. Esse ano ia chover no carnaval. Ele ali, prefeito tão calvo e tão de jaquetas... Ela, Adelaide, então não ia incorporar, como nos últimos tão bons anos, o espírito do caboclo Cacique Cobra Coral. No fevereiro próximo, aquele cacique - que séculos atrás, atendera pelo nome de Galileu Galilei - não seria Adelaide e nem ela ele. Não haveria o providente e pago ritual para que as forças esotérico-indígenas mandassem para longe das rainhas de bateria as nuvens abarrotadas. Adelaide Scritori, essa médium, deu uma pequena colherada numa mousse de côco porque essa cidade estava à mercê.

 Cidades Conto Ensaio Ficcao Romance Rio Janeiro

O meu guarda-chuvas mal se agüentava, porque não era só água, aliás, mal tinha água; era vento, muito vento forte e a sombrinha começava a se dobrar pelo avesso, pelas pontas. Acabo de decidir que a cidade é cinza e que a minha sombrinha é rosa-metálico comprada nas ruelas da Saara. Toda cinza com nuanças de cor porque, ali em frente à Estação de trem da Leopoldina, era cinza na fachada amarela. Desci as escadas da passarela e em baixo de mim tinha o Canal do Mangue, chão sujo burcos com veículos à toda. Esse sim, esse ex-rio, tem o intenso marrom e o único ponto iluminado nessa minha existência besta que descia à pé pela Presidente Vargas. "A presidente Vargas tá fechada por causa dos carros alegóricos, Ronaldo...! Como vou andar da Leopoldina até aí?", isso era no celular. O motorista do ônibus tinha ficado lá rindo com as pernas das calças levantadas até o joelho; "Mas vai,... ´cês não querem desfilar? Só à pé".

Piranhão é o apelido oficial do edifício oficial. Desde quando a Avenida Presidente Vargas se chamava Avenida Central, havia uma decantada área de prostituição, a Zona do Mangue. Não tinha o edifício, nem aquele letreiro laranja no topo. As árvores. Todas as moças tiveram de se mudar pelas reorganizações urbanas, pelos prefeitos, mas já era tarde e ficou Piranhão.

Mas por que ali? O que há connosco para caminhar aqueles passos todos de mais de um quilômetro? Carnaval só no ano que vem e já não vejo mais porque ser linear em contar o que vi nos dias em que estive e fui o entrudo. Avessos às preocupações, subimos novamente Santa Tereza, à pé, justo pela ladeira.

Lá nesse dia (o anterior) fazia um sol e fazia vento devagar, tão gostoso. O bloco, esse bloco para onde subíamos, tem esse nome por conta de lenda da freira que fugia do Convento das Carmelitas tentada pelos diabos carnavais, fantasiada de religiosa mesmo. Por isso alguns usam tiaras que imitam o véu preto e branco. Chegando no Largo dos Guimarães, onde todos param, eu já não me lembrava mais do idioma nacional pela Babel, pela Babilônia. As meninas tinham asas de borboleta e os rapazes eram despossuídos de camisa, a bebida ordinária. Era tudo muito in, vísceras in, sempre é. Essa turma da nova batucada, a badulagem reunida em samba-flor com óculos de aros grossos, cabelos cacheados, barba largada, laço-fita e nariz de palhaço. No final da noite éramos 30 espremidos num corredor de motel fugindo da tempestade, trocamos MSN e o álcool era pra aquecer. Nunca mais foram encontrados.

Desistente de andar a avenida - purgando pecados futuros? - me meti correndo no metrô da Praça Onze e se tranquilizaram pela hora umas moças que saiam segurando as fantasias, as sapatilhas. Esperei o trem que veio.

Digo o que aconteceu então: esse lugar tem seus prédios centenários, tem o concreto contemporâneo, mas nada do que vejo à esquerda pode contar que aqui as pessoas fazem sombras sobre as construções, inclusive as mais altas. São esses seres que, no meu sétimo dia, enquanto descansava, passaram em mim, por todo através, só de ouvir no vagão a voz feminina e loura-metálica do "Próxima estação, Central. Saída somente pela esquerda. Next stop, Central Station". Foi um mundo saindo desabalado, com a mão já na porta, o pé voando, e as plumas todas, um mar delas, todas. As plumas subindo a escada rolante do metrô. Braços pra cima, mais sapatilhas, armações de alumínio, conversa, dívidas, rompante. Era Carnaval. As plumas brancas imaculadas nas escadas rolantes do metrô. Marquês de Sapuchay.

Ronaldo me esperava com aquela camisa de Che Guevara em frente à lanchonete dos salgadinhos sem recheio. Dizia sobre quem tinha visto parado ali, as pessoas absurdas, as bizarras, todas reais. E eu? Sem óculos, que perdi no Bloco das Carmelitas. Me perderia também depois feito samba na lama, Lapa, Copacabana, Ipanema, mais tempestade e vodka...

as cidades Cinco pessoas escrevem sobre cidades, reais ou imaginárias, mas vivas dentro de si. Porque uma cidade tem vida e é esta que a define. Nova Iorque, Hammershoi, Lisboa, Fava ou Rio de Janeiro são cidades vividas dia a dia, passo a passo, cada qual à sua maneira. Diariamente as suas histórias, aqui no obvious. Todas as histórias na página das cidades
 
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10 comentários

Tenho a impressão de que havia um prédio ali no "Mangue" apelidado de "Balança mas não cai." dentro os apartamentos eram do tipo J.K. -- Janela e kitchinete. Se entrasse rápido saía pela janela. Era infestado de ratos e baratas "prancha de surf."

Não sei se foi demolido para dar espaço ao Piranhão. Muito mudou no meu Rio de Janeiro.

tina oiticica em 2 de março de 2008 às 06h52

o edificio sede da prefeitura não tem o 16 andares, fica no 13. a av presidente vargas nunca foi avenida central. avenida central foi a rio branco. o canal do mangue nunca foi rio, foi um canal para drenagem de um trecho da baia da guanabara um extenso manguesal, que depois de drenado se chamou cidade nova etc etc

affonso em 2 de março de 2008 às 13h44

em tempo
o balança mais não cai existe ainda e no mesmo lugar na rua de santana
quasi esquina de pres. vargas

affonso em 2 de março de 2008 às 13h48

(hahahahaha baratas "prancha de surf",... genial!)

Tina, e ele continua lá, exatamente como você pode se lembrar (!). volta e meia aindo voam coisas pelas janelas. os botecos ali em baixo fazem parte do roteiro turístico hype da cidade. aliás, tudo aqui anda meio hype.
o Piranhão fica bem no final da Pres. Vargas. Não tem botecos em baixo, mas um restaurante mezzo-italiano que, trabalhando, se pode pagar.

prill em 2 de março de 2008 às 16h05

olá affonso

sim, impossível um canal ser um rio (imagina um rio coincidentemente correr tão certo e reto?).

a verdade é que é tudo mentira. bem, a proposta é essa: a cidade não existe (como eu já disse num texto passado). existe uma imaginação sobre algo totalmente mudado, perversa-irresponsável-e-bobamente por mim transcrito. esses não são textos jornalísticos e tampouco têm comprometimento com a realidade, se flerta com ela é porque não sabemos mesmo como a fantasia surgiria do nada.

bom, é isso. sinto se te incomodou. mas, olha ainda posso dar um outro nome a rua, isso não importa. eu criei, eu nomeei, eu fiz e vi que era bom.

obrigada e sinto pelo incômodo.

ps: o prédio da prefeitura não tem 16 andares, mas quem disse que Adelaide foi para o último andar?

prill em 2 de março de 2008 às 16h32

Bons comentários. O Rio da minha imaginação é o Rio da minha infância e mocidade; de quando se podia ficar na praia para ver o sol nascer sem medo de ladrão, só de polícia. De quando ia a pé da zona norte às Laranjeiras via Santa Teresa por ter gasto meu dinheiro de ônibus em barras de chocolate.

Meu Rio de Janeiro ainda tem o Lamas no Largo do Machado com os jornais chegados na madrugada, frutas e comidas 24 horas do dia.

tina oiticica em 2 de março de 2008 às 20h37

"eu criei, eu nomeei, eu fiz e vi que era bom." - assim é que é!

chloe em 2 de março de 2008 às 22h28

Nem o próprio Deus diria tão bem... ;)

seven em 2 de março de 2008 às 23h10

Vou acabar por ir ao Rio convencida pela Prill (a minha família não tem conseguido).

sao em 3 de março de 2008 às 19h09

Sem querer cheguei aqui, estava atrás de fotos da tal Avenida Central e dei de cara com uma foto minha.
Beijos menina e com sempre lindo texto.
Não vou falar linda foto porque ai fico me querendo por demais.

Priscilla Grasso em 12 de março de 2008 às 06h40

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