Considerações sobre o ponto de onde se observa: Empire State Building

Publicado em cidades por isabella em 27 mar 2008 11:27 PM | 7 comentários

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Aqui os estados têm apelidos. E a maioria mais de um, dois ou três. Os nomes geralmente derivam de riquezas naturais (Mother of Rivers, Colorado; Diamond State, Delaware), monumentos e momentos históricos importantes (Constitution State, Connecticut; Liberty Bell State, Pennsylvania), ou ainda uma característica da cultura e do povo daquela região em particular (Land of Infinite Variety, South Dakota; Land of the Red Man, Oklahoma). A Nova Iorque que conhecemos possui dois; um oficial (The Big Apple), e outro tradicional (The Empire State). E eu só fui descobrir o último depois de reparar nas placas dos automóveis, tão diversas e significativas. Para além de números e letras, um tributo aos lugares.

Demorei bastante tempo para visitar o Empire State Building em comparação com o restante das atrações e pontos de exclamação da cidade. Lembro-me da primeira vez em que passei em frente à lateral do prédio e todo aquele excesso cinza cortando o ar me roubou o fôlego e as imagens atraentes, quase inalcançáveis dos filmes que eu guardava com zelo. Um absurdo! Tomei por verdade que se tratava de uma ilusão, que o prédio não podia ser apenas mais um bloco de concreto, e fiquei calada para não desapontar quem quer que fosse - ou eu mesma. A verdade é que aquele não era um bom dia para tecer conclusões já que havíamos decidido descer a pé da rua 84th, na altura do Metropolitan Museum of Art, até o mercado financeiro - Wall Street. E portanto, quando cruzamos o arranha-céu ainda no meio da jornada, estávamos exaustos. Num desalento que só as cantigas de fim de tarde.

Um pouco mais de dois anos após a caminhada de desbravamento urbano, no inverno de 2007, tive a oportunidade de assistir a um trecho do filme "Empire" de Warhol no MOMA. Filmado em vinte e quatro quadros por segundo, mas projetado a uma velocidade de dezasseis quadros por segundo, o filme faz com que a passagem do tempo, a mudança do dia para a noite tão significante nas nossas vidas, se torne imperceptível. Quase descartável. E então, chego a pensar se não é desta maneira que o tempo e as vidas por vezes se desenrolam, sem que a gente perceba, num atropelamento sutil e constante. E a realidade do cinema de Warhol é tão insuportável que você se vê tentado a deixar a sala escura... que você se vê, de repente, saindo calado e respirando com cuidado para que ninguém veja que você foi surpreendido pelo tédio. Assim, eu me vi.

Maneira seja que todos nós precisamos de um certo distanciamento para enxergar clareiras de dentro e de fora, ainda que a gente só consiga ver melhor as dos outros, de um tu. Pensando para frente num seguir-seguindo, vejo que eu ainda acredito que, por mais magnífica que seja a vista de cima, a carência de detalhes chega a ser um roubo, uma falta contra o órgão da visão. Contradigo. Porque de cima só se vê mesmo lonjuras e fabulações, o pó do homem. E eis que ficamos mais perto do céu e as questões metafísicas tomam conta, assim como a insegurança e tudo aquilo que desconhecemos, e que é muito - é horizonte. Vida generalizada. Vai ver não gosto da vista panorâmica das coisas e apenas isto inclusive.

Fiz a minha primeira visita ao Empire State Building acompanhada da minha família. A segunda e a terceira também. Dizem que Nova Iorque mudou profundamente depois do atentado de 11 de Setembro, e as medidas de segurança tornaram-se amargas, como um imposto novo em véspera de feriado ou um golpe na confiança das pessoas. Vê-se. A fila para se chegar ao ponto de onde tudo se observa é longa, interminável. As etapas, inúmeras, tramam contra a paciência e criam uma expectativa pesada, sôfrega. A segurança de guardas pátrios em um procedimento que se tornou de praxe. Lembro-me com tristeza que ao alcançar o topo, um grande número de pessoas espremidas se esforçavam para encontrar o melhor lugar. E só mesmo rindo, pois depois de entregue e já maravilhado com a vista, você é obrigado a conter o queixo caído e a postura porque alguém lhe pede licença para olhar ou ainda para que tire uma fotografia. E todo aquele espanto, aquele primeiro momento mágico de re-conhecer, desvanece rarefeito.

E assim me preparei ainda mais para as seguintes. Verificava o clima antes de sair de casa e avisava a todos com a esperança de que teríamos um bom dia, e de que ele não seria tão controverso quanto o filme do artista. Em uma das últimas vezes, lembro de ter visto no fim da página do weather.com, após o link com o horário em que o sol nasce e se põe, um destaque para a quantidade de horas restantes para o fim daquele dia. E de acordo com o website ainda tínhamos 5 horas e 15 minutos. Queríamos ver a passagem do tempo. Queria, eu, experimentar e revisitar esta minha relação ambígua, quase uma cisma, com a paisagem vista de longe. Porque no fundo eu adiava estas visitas por medo de gostar demais.

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as cidades Cinco pessoas escrevem sobre cidades, reais ou imaginárias, mas vivas dentro de si. Porque uma cidade tem vida e é esta que a define. Nova Iorque, Hammershoi, Lisboa, Fava ou Rio de Janeiro são cidades vividas dia a dia, passo a passo, cada qual à sua maneira. Diariamente as suas histórias, aqui no obvious. Todas as histórias na página das cidades
 
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7 comentários

Impressionante essa altura. Eu fico com as mãos suadas quando estou nessas alturas. Rsss...

Parabéns pelo blog, de ótima qualidade.

Olio em 28 de março de 2008 às 00h41

Nasci em NYC. Não me lembro de visitas ao Empire State Building mas sim de um livro da séria Golden Books sobre o maior prédio do mundo. Visitei o prédio sem problemas em 1981. De noite a vista é muito atraente. Jamais voltaria nessas circunstâncias. Tenho horror de multidões ou de multidinhas.

tina oiticica em 28 de março de 2008 às 10h28

Eu o que gosto de ver dessas alturas é o cimo dos prédios. Os terraços, os montes de coisas velhas a meio caminho do céu.

Chloe em 28 de março de 2008 às 14h30

O Empire State Building tem uma história engraçada. Foi construído contra tudo e contra todos precisamente no período da Grande Depressão e, na altura, revelou-se um flop económico: ficou vazio durante alguns anos. Chamavam-lhe então o "Empty State Building". É uma imagem sinistra, convenhamos.
Havemos de falar nisso um dia aqui no obvious...

seven em 28 de março de 2008 às 22h21

Olio, é realmente de tirar o fôlego... Muito obrigada! =)

Tina, devia ser uma maravilha visitar o prédio nos anos 80, não? Mais tranquilo imagino...
"Tenho horror de multidões ou de multidinhas." Nem fale, nem fale.
Obrigada obrigada sempre pelos comentários.

Chloe, eu também. As particularidades, as coisas vulgares que não vemos e que ficam escondidas nas alturas. Gostei muito do que você disse "coisas velhas a meio caminho do céu".

Seven, que interessante e sinistro mesmo. Eu desconhecia este fato.


isabella em 29 de março de 2008 às 13h58

tempo do passeio, tempo da família, do canal de meteorologia ou do filme de warhol. ouço mesmo o do firmamento no seu texto. este que divisa o perto e o distante, às vezes vazado de metafísica noutras mudo.
eisner numa novela gráfica fez de um edifício o personagem: camadas de gerações....

jad em 31 de março de 2008 às 13h17

Dentre vários livros que ficaram pra trás na mudança, "Quadrinhos e Arte Sequencial" é um dos que eu mais sinto falta (bons tempos aqueles)... Obrigada pela lembrança, Jad, e também pelo comentário.

isabella em 31 de março de 2008 às 23h28

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