Esta rapariga precisa de se alimentar

Publicado em cidades por chloe em 14 mar 2008 11:29 PM | 11 comentários

 Cidades Conto Ensaio Ficcao Fava Romance

Demorei alguns minutos a perceber que eram limões o que tinha no parapeito da janela. É difícil explicar a quem não sofre de miopia como é o mundo visto através de cinco dioptrias. Uma avenida movimentada numa cidade, por exemplo - à noite é um borrão escuro cheio de grandes balões coloridos e translúcidos meio sobrepostos - semáforos, candeeiros, luzes dos carros. Tiro os óculos de vez em quando para ver o mundo assim, ver efeitos especiais que só aos da minha espécie são concedidos. E isso começa logo ao acordar, todos os dias, num mundo pouco nítido.

Tinha, portanto, três objectos não identificados em cima do parapeito da janela, e só franzindo os olhos numa linha muito fina percebi que eram limões. Pus os óculos e deixei-me ficar deitada a vê-los, agora com a nitidez realista comum ao género humano. O sol batia-lhes do lado esquerdo, abrindo o amarelo em luz viva, irradiante, silenciosa, no rectângulo justo da janela. Quem teria deixado ali aqueles limões? Tinha a certeza de que no dia anterior, quando chegara ao quarto, não estavam lá. Ou os tinham posto durante o meu passeio, ou - hipótese suspeita em outro lugar que não Fava - enquanto eu dormia. Tudo o mais no quarto me parecia normal, inclusivamente os tigres, que dormiam ao meu colo.

A explicação veio mais tarde, quando eu tomava o pequeno-almoço e via a mãe do Nurettin esquartejar uma abóbora enorme na cozinha. Tinha sido ela a deixá-los lá, à falta de flores. Os três limões estavam agora nas mãos rosa-pálido de uma rapariga de uns dezassete anos - Fadik, a irmã do Nurettin - e iam acabar na panela do almoço, fim de uma carreira efémera de naturezas-mortas. Entretanto, a rapariga, que me via comer com um toque de orgulho maternal, explicava-me que me esperavam para o almoço, para provar os bolos de abóbora. Protestei contra o trabalho que estava a dar, mas quando a Fadik transmitiu à mãe o meu protesto, ela arrancou a faca da carne laranja-fogo da abóbora, virou-se e olhou-me indignada, com a mão cheia de cordões de pevides húmidas. Gesticulou qualquer coisa em turco, que a filha se limitou a traduzir com uma vigorosa negativa. Elas queriam alimentar-me, e eu não podia recusar. Fava era uma dessas cidades cuja hospitalidade assume o seu máximo esplendor no estômago.

A Fadik ia-me traduzindo as perguntas da mãe. Fava era magnífica? Hesitei, e por cortesia disse que sim. Pausa. O rio era magnífico? Pois - sim. O fogo de artifício tinha sido magnífico? Sem dúvida. O quarto era magnífico? Foi neste momento que percebi que se tratava de um problema linguístico, e que algum dia, nas aulas de inglês, a Fadik tinha aprendido aquela palavra, e só aquela. Provavelmente gostava do som - magniiiiific, dizia ela, e quem era eu para desmenti-la.

Mostrou-me a estante dos livros, na sala escura e forrada de tapetes. Entre eles, Nazim Hikmet, que parecia fugir de todas as livrarias turcas antes de eu lá chegar, exilado mesmo depois de morto. Comunista, disse ela com ar reprovador. Tirei o livro da prateleira e pedi-lhe que me lesse um dos poemas. Os sons do turco e a entoação dela chegavam-me sem arrepios, como uma degustação tranquila. Mais tarde procurei o poema nos meus livros:

A Viagem

A viagem fazêmo-la num qualquer modesto cargueiro
Existe ainda um porto onde não tivéssemos tocado?
Existe alguma espécie de tristeza que ainda não tivéssemos cantado?
O horizonte que a cada manhã tínhamos pela frente
Não era igual ao que à noite deixávamos para trás?
Quantas estrelas desfilaram à nossa frente
Roçando as águas.
Não era cada aurora o reflexo
Da nossa grande nostalgia?
Mas é em frente que vamos, não é verdade?, é em frente que vamos.

Eu estava sonolenta e sentia-me, naquela cozinha velha, como num ninho, vendo mãe e filha nas suas conversas mornas de mulheres em casa, sem entender uma palavra. A Fadik ajeitava o lenço em frente ao espelho, prendendo-o por cima da orelha com um alfinete de pedras brilhantes cor-de-rosa. Por momentos pude escapar aos juízos políticos do meu mundo e apreciar o lenço azul turquesa, que lhe cobria o cabelo e o pescoço, como um simples adereço de beleza, um sinal de pudor e vaidade. Pela janela junto ao tecto entrava uma coluna de luz que batia no chão do outro lado, e o ar ganhava manchas e meios tons que me lembravam a igreja abandonada de Kayakoy, onde tinha estado dias antes.

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Mas era a hora a que tudo acontece na rua - a começar pela luz, a mesma da cozinha, que crescia e se prendia a todas as coisas, e a cada minuto mudava todas as coisas. Fui ter ao bazar, por onde eu passara com medo do escuro, e de que me aproximava agora sem perceber como podia ser tão perto do hotel quando, na noite anterior, tínhamos demorado tanto tempo. Eu podia imaginar que ao nascer do sol, depois das primeiras orações, os vendedores entrassem ainda quase em silêncio, passassem entre os caixotes fechados, em direcção a balcões de madeira silenciosa e opaca sobre os quais pousavam a carteira, as chaves, deslizavam a palma da mão húmida no tampo liso, abriam a caixa, e ficavam a olhar o vapor tranquilo do chá, ainda demasiado quente, antes de se abrirem as portas ao público e de tudo na cidade se transformar em vozes e dinheiro, pão e circo.

Atravessei o bazar de uma ponta a outra, e dei várias voltas às bancas dos legumes, do pão, do queijo, como um girassol ainda preso aos limões daquela manhã, desviando-me de grandes sacos de plástico entrançado e mulheres de rabos enormes, que tomavam posse de quilos de maçãs e batatas, estrangulavam alcachofras e melões amarelos. Saí do outro lado incólume, sem ter aberto a carteira, sem ter discutido sequer um preço. Os gatos saltavam para dentro dos caixotes do lixo; havia tripas de peixe e restos de vísceras, flores velhas e sacos vazios. Decidi ir procurar os banhos.

as cidades Cinco pessoas escrevem sobre cidades, reais ou imaginárias, mas vivas dentro de si. Porque uma cidade tem vida e é esta que a define. Nova Iorque, Hammershoi, Lisboa, Fava ou Rio de Janeiro são cidades vividas dia a dia, passo a passo, cada qual à sua maneira. Diariamente as suas histórias, aqui no obvious. Todas as histórias na página das cidades
 
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11 comentários

Que texto belo, Chloe. A imagem da igreja é impressionante, os pormenores são por si só uma travessia...
Gostei muito do diálogo com a Fadik e do poema, tanta sutileza.
Parabéns.

isabella em 15 de março de 2008 às 00h21

"cinco dioptrias"! E c' um catano!
és pouco cegueta, és!
:P

Dina em 15 de março de 2008 às 03h36

As imagens iniciais dos limões me remeteram a um filme do Louis Malle, Atlantic City, em que o Burt Lancaster, velhinho, fica espiando a Susan Sarandon, ainda moça, a lavar-se os seios depois de trabalhar com peixes no mercado.

É lindo este conto, a repetição da palavra em inglês é muito engraçada.

Hoje em dia espero o post do Obvious. É um blog bem feito que me dá prazer em ler. Quisera ter sabido o quê era o "olho" antes, quando tinha janelinha do MBLog nos meus blogs.

tina oiticica em 15 de março de 2008 às 05h51


Que lindo :) Comove-me sobretudo a parte em que a mãe da Fadik se vira indignada "com a mão cheia de cordões de pevides húmidas" e gesticula. E faz-me rir. Do melhorio, portanto.

(O D. vai ficar muito contente com esse começo cheio de dioptrias >:>)

sao em 15 de março de 2008 às 20h23

Tenho de ver esse filme, essa ideia é linda. Lembrei-me agora da cena do África Minha em que o Robert Redford lava o cabelo da Meryl Streep. Acho que é das coisas mais maravilhosamente eróticas que já vi.

Obrigada, Isa. O Nazim Hikmet é de uma suavidade extrema. Infelizmente há pouca coisa dele em português (pelo menos em Portugal).

Dina, era giro no liceu, quando jogávamos basquete em equipas de raparigas contra rapazes e eu, que tirava sempre os óculos para não os partir, várias vezes passei a bola aos metálicos, porque tinham cabelo comprido :)

Chloe em 15 de março de 2008 às 21h33

Está aqui o da Susan Sarandon: http://www.youtube.com/watch?v=uqHezF79Zc0

E o excerto do out of Africa está neste resumo, ao minuto 6: http://www.youtube.com/watch?v=eh3Mpp1xJOs&feature=related

Chloe em 15 de março de 2008 às 21h48

Só tenho uma palavra: magnific! :)

seven em 15 de março de 2008 às 22h20

"magnific"?!, é um termo completamente abichanado, credo!

O texto está interessante, sim sr. A prova é que o li até ao fim. ;]

Porém, um pequeno reparo, minhas amigas: ponham erotismo nestas estórias qb, mas, não lhe façam referência, ainda nesta caixinha. É que, na minha opinião, o erotismo deve constar apenas nas entrelinhas - é o surreal da escrita. Falar nele explicitamente põe tudo a perder, deixa de ser erótico.

Venha o próximo, venha o próximo...

;]

Dina em 16 de março de 2008 às 19h02

Cara leitora Dina!
Obrigada. Quanto a erotismo, é como a presunção e a água benta: cada um toma o que quer...

Chloe em 16 de março de 2008 às 23h16

Para que não haja equívocos: quero com isto dizer que o erotismo está muito na cabeça e nas fantasias de cada um, de modo que cada um encontra-o em sítios e de formas que são só suas.

Chloe em 17 de março de 2008 às 21h49

Ah, tenho uma nova cena fruto-erótica a acrescentar. No filme "A banda visita-nos", que vi há dias (a história da banda egípcia que fica perdida uma noite em Israel) há um momento em que uma mulher ataca uma melancia, abre-a, corta-a, de uma forma deslumbrante. E a cara dos dois homens a vê-la...

Chloe em 18 de abril de 2008 às 23h25

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