Hammershøi – As pêras

Publicado em cidades por sao em 23 mar 2008 11:23 PM | 19 comentários

 Cidades Conto Ensaio Ficcao Hammershoi Romance
Hanneke van Oosterhout - Natureza morta

Em Hammershøi come-se mal. Mesmo as pessoas que comem peixe e legumes cobrem-nos com molhos em cuja preparação frequentemente entram a maionese ou o ketchup. É como se reconhecessem a importância desses alimentos, mas não consentissem nudez aos sabores.

O melhor a que se pode aspirar é a um prato de salmão com – apenas – molho de manteiga e subtis notas de mostarda. Quase quase só peixe. Gordo. O azeite não existe.

No supermercado, paradoxalmente, grandes ilhas de bancadas dão destaque a frutas e legumes. Sobre uma bancada com salsa, coentros, manjericão, morangos, figos, tâmaras, pêras, uvas e laranjas, uma grande placa indica “PRODUTOS EXÓTICOS”.

Fixo-me nas pêras. São grandes e de forma invariável, todas uniformemente douradas. Levanto uma, curvo-me: cheiro nenhum. Quase lisa, ao fim de alguns dias com a cidade por minha conta, tenta-me plano tolo, que ponho em prática: compro cinco pêras e vou comer um hambúrguer ao bar perto do hotel (tinha visto o Super Size Me na semana anterior e fui levada por um misto de curiosidade e atracção pelo abismo). Sinto fome uma hora depois, claro.

Não percebo porque enfio eu estes barretes. Ou melhor, percebo, embora não saiba exactamente o que é que está na origem: por alguma razão, à medida que nos afastamos do Sul e a pólis prospera em urbanismo, ambiente, educação, saúde, garantias sociais, protecção no trabalho – que, sim, há um crescendo disto para Norte, embora nós, provincianos e orgulhosos de sermos servis, estejamos a copiar o pior que nos chega de outros lados –, os restaurantes normais vão desaparecendo. Tascas, então, nem pensar.

Com restaurantes normais quero dizer aqueles estabelecimentos em que nos podemos sentar e pedir que nos tragam uma sopa, um prato de carne ou de peixe, uma salada, uma peça de fruta ou um doce, café, sem que tal corresponda à prestação de um extraordinário serviço de luxo.

Por um lado, é o Mediterrâneo que fica para trás. Por outro lado ainda, é também e essencialmente o tempo, esse tempo dos calendários e das eras, o tempo que muda o som das vozes nas ruas para outra música, que muda os penteados, que periodicamente põe sapatos de verniz nos pés das meninas, para mais tarde as expor ao ridículo das fotografias, o mesmo tempo que nos faz avançar, sem possibilidade de paragem ou de recuo, em direcção à segurança branca do asséptico absoluto onde, estou certa, um dia seremos saudáveis e bonitos do princípio ao fim da vida, só posta em causa num único e derradeiro confronto. Lembro-me sempre do nojo que os contemporâneos do Selvagem, no "Admirável Mundo Novo" do Huxley, sentiam por ter aquele nascido das entranhas da mãe.

Fome uma hora depois, dizia eu. Era previsível, por isso comprara pêras. Pêras de Hammershøi, fruto, esse sim, de rigoroso exotismo.

Estou habituada a comer pêras sobre um prato, assistida por guardanapos absorventes, com as mangas arregaçadas e de, apesar de todos estes cuidados, acabar sempre com os pulsos pegajosos do sumo que sempre jorra a cada dentada, como se o fruto se esvaísse num sangue invisível que a custo contém, de tal forma abundante que nunca me parece possível que antes estivesse todo lá.

No que respeita à aspereza, as pêras de Hammershøi cumprem o que se espera delas e até vão mais longe: sem serem duras, oferecem agradável resistência. Mas e o doce? Não têm. E o sumo? Não têm. São só ligeiramente húmidas. Temi ter tido azar na compra ou na época, mas a pequena averiguação que levei a cabo a seguir demonstrou-me serem aquelas as características das pêras de Hammershøi.

Até hoje me pergunto como seriam os figos. Um dia descubro.

as cidades Cinco pessoas escrevem sobre cidades, reais ou imaginárias, mas vivas dentro de si. Porque uma cidade tem vida e é esta que a define. Nova Iorque, Hammershoi, Lisboa, Fava ou Rio de Janeiro são cidades vividas dia a dia, passo a passo, cada qual à sua maneira. Diariamente as suas histórias, aqui no obvious. Todas as histórias na página das cidades
 
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19 comentários

Pêra é a minha fruta predileta por causa do sumo e da leveza. =)
Que belo texto, São! Gostei demais do parágrafo sobre o tempo e a relação de fragilidade entre homem/físico. Boa lembrança do Huxley.

isabella em 24 de março de 2008 às 00h24

Está visto que aqui no Obvious tudo acaba sempre na comida...

seven em 24 de março de 2008 às 00h43

Já tinha pensado nisso, Seven, mas deixei pra você dizer. ;)

isabella em 24 de março de 2008 às 01h23

Gostei da descrição das frutas e da ausência de restaurantes de verdade:que droga, não?
Não gosto de me lembrar do Selvagem. Talvez fosse jovem demais quando li "Admirável Mundo Novo". Tenho calafrios de me lembrar do final.

tina oiticica em 24 de março de 2008 às 12h11

Fizeste-me lembrar um episódio da minha passagem por Marrocos. Tinha ido numa excursão de um dia por um oásis, e umas montanhas (o dia em que conheci o senhor das tâmaras, sobre quem escrevi aqui), com um casal de holandeses e um outro de franceses. Durante o almoço senti-me um bocado selvagem, porque alguns dos cuidados da higiene individual na hora de servir a comida - não usar o meu garfo, não tocar com as mãos - já eram coisas que me tinham abandonado.

Mas o melhor foi no final, quando trouxeram umas romãs partidas em quartos. As romãs marroquinas são maravilhosas - nunca pensei que pudesse haver romãs com um sabor assim (o mesmo para as melancias e as cenouras, aliás). E eu peguei num quarto e comecei a tirar os grãos com os dedos, já sabendo, claro, que ia sujar-me mas sem me importar com isso. De repente apercebo-me dos holandeses a olharem-me fixamente. Parei e perguntei-lhes o que se passava, ao mesmo tempo que pensava se estaria a espirrar sumo para cima de alguém, ou alguma coisa desagradável. Eles disseram: "Nada, é só que nunca comemos isto e estávamos a ver como se comia...". Bom, foi a minha primeira experiência como raça exótica - e gostei.

Quanto aos franceses, conheciam as romãs - embora na terra deles, lá para o norte, se usassem apenas como decoração (imagino que tenham pouco doce). E o francês usava uma colherzinha de chá para arrancar os grãos, que, claro, quase todos caíam em cima da mesa.

Mas falando de pêras: são um fruto tão bonito. O Vinicius tem um poema sobre peras ("Como de cera, a pêra" - acho que começa assim).

Gostei muito disto: "o tempo que muda o som das vozes nas ruas para outra música, que muda os penteados, que periodicamente põe sapatos de verniz nos pés das meninas, para mais tarde as expor ao ridículo das fotografias,"

tajana em 24 de março de 2008 às 15h04

Pois é, Isabella - o Seven é no fundo uma daquelas personagens que teimam em aparecer em todas as histórias sempre com a mesma deixa :)

Chloe em 25 de março de 2008 às 01h18

Hmmm... e que aconteceu à cor rosada que as pêras têm na imagem da página inicial do Obvious? Desamadureceram!

Chloe em 25 de março de 2008 às 01h20

Fico imaginando as pessoas comendo manga. Esta delicia tropical. Tem que se sujar mesmo. Quando vi comer com garfo e faça fiquei imaginando... Como pode ser isto? Mas costumes são costumes e cada um com o seu. Viva a diferença. Agora as peras são mesmo lindas e saborosas dependendo do lugar onde se come. Não é mesmo?

Anny em 25 de março de 2008 às 17h18

A São é que disse que era assim. Será que em Hammershoi o tempo anda pra trás?

seven em 25 de março de 2008 às 22h27

Oops! Fui descoberto... :(

seven em 25 de março de 2008 às 22h28

(estou rindo aqui, muito bem observado Chloe)

Anny, hoje enquanto chupava uma deliciosa manga, lembrei-me do texto e dos comentários...pensei exatamente no que você pensou.

isabella em 25 de março de 2008 às 23h25

Obrigada, Isabella :)

Hás-de notar que mesmo a meio do último ainda fui almoçar, Sete >:>

Tina, acreditas que não me lembro do fim-fim do "Admirável Mundo Novo"? Devo ter bloqueado a memória... a última coisa de que me lembro bem é de ele ter aprendido tudo num livro do Shakespeare; impõe-se releitura, pelo menos diagonal (para "aaaah, pois era").
É uma seca só restaurantes de luxo ou comida de plástico, é. Daquela vez lembro-me que fiquei especialmente lixada a pensar que devia ter ido antes ao japonês, sempre era luxo verdadeiro e não teria fome depois.

sao em 26 de março de 2008 às 22h09


Tajana e Anny, romãs e mangas com talheres é cousa douda. Como comer carapaus fritos com talheres.
Acho que conheço o poema do Vinicius, mas não leio há muito.

sao em 26 de março de 2008 às 22h13

Ah, Chloe, são dois quadros diferentes :D
Manga outra vez (agora apareceu o último comentário da Isabella) - como conseguem dar a volta ao caroço com o faca e garfo? E o que fazem ao sumo?
Por cá há gente que insiste em comer certos pratos do Alentejo, que são sopas de pão (pratos líquidos, portanto...) com faca e garfo. Explica-se que não, que se comem com colher de sopa e garfo, que o que fica mal é não ser assim, e é toda uma luta.
(estes pratos do Sul são considerados exóticos à medida que se sobe para Norte >:> Uma vez fiz um no Porto, em casa de amigos, e foi um acontecimento! E qual é a sobremesa que o pessoal do Norte acha bizarra... batata doce, não é? Ou é o arroz doce?)

sao em 26 de março de 2008 às 22h20

Anny, pelo sim, pelo não: como peras (à mão) sobre um prato, não num (em um) prato :D

sao em 26 de março de 2008 às 22h25

Creio que há mesmo pessoas que não conhecem o prazer de apertar um dióspiro até o fazer explodir e desfazer-se nas mãos. É triste.

tajana em 26 de março de 2008 às 22h34

Manga só com a mão mesmo e sem frescura na hora de chupar o caroço...depois o fio dental cuida do resto. =)

isabella em 26 de março de 2008 às 22h36

E depois eu é que tenho a mania da comida... Vocês são piores que o Dali!

seven em 26 de março de 2008 às 22h41

ahahhaha, o fio dental, Isabella!
No Verão, às vezes, como manga antes de sair de casa de manhã, e é o meu pequeno-almoço. É um stress, depois, libertar-me de toda aquela fibra e não chegar atrasada hehe
Bem, eu agora já ia ao japonês (que fui na segunda, fui na segunda) e comia uma manga.
Mas a culpa é do Seven, claro, manipulador por telepatia.

sao em 26 de março de 2008 às 22h49

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