Hammershøi – Cidade irreversível

Publicado em cidades por sao em 28 mar 2008 11:24 PM | 7 comentários

 Cidades Conto Ensaio Ficcao Hammershoi Romance

O mundo é grande, demasiado grande, mesmo no planeta que contém a minha vida. Não consigo evitar a sensação, à partida, de que aquela pode ter sido a última vez. Não é uma sensação má ou angustiante, é uma constatação que se impõe como uma vertigem e que a seguir me acompanha – quase nada – com persistência.

Penso que pode ter sido, embora seja de manhã e tenha avião de regresso a Lisboa às 19:30. Não gosto muito dos dias em que não acordo e adormeço na mesma cidade: como num jardim de laranjeiras em que, de um momento para o outro, alguém mandou abaixo os muros que retêm o perfume, neles não há intimidade. Nem a madrugada a estender-se, com a insolência de um gato que se espreguiça, para todos os lados do mundo, elástica e depois quieta, a impor demora e introspecção aos relógios.

Devia saber partir mas, dúctil e curiosa, só sei alongar-me e, com o hábito, é a retracção, na volta à normalidade, que me custa. Onde me deixei ficar? Onde é que ainda não fui? O mapa que trago, anos de uso e vários rasgões depois, continua a marcar lugares por conhecer. Vivo quinze minutos de pânico enquanto tento, em vão, encontrar forma de encaixar o tempo de vários dias no pouco que me resta. Caio em mim. Decido sair para rever Cassandra, almoçar e passar o resto da tarde na esplanada de uma praça que existe perto de Nairadom, que tem o céu coberto de tílias e que confina com uma rua comercial, estreita e muito movimentada.

As toalhas estão vazias porque as tílias ainda não estão em flor. Vão passar-se pelo menos mais dois meses até que tal aconteça. Agora estão só a rebentar e fazem-me pensar numa musa adormecida de Brancusi que eu pudesse continuar: tudo nelas sereno e perfeitamente ordenado e tão bonito que a seguir, imediatamente a seguir, devem abrir os olhos, encher-se de pássaros e de transparências, de sombras, silêncios e música, de sol, de verde pleno e exuberante, existir no mundo, fora do sono, existir para tudo, para a vida, para a largueza luminosa do Verão, para mim.

E é assim que, debaixo delas, com o jornal para esmiuçar, espero a vinda dos meus anfitriões para uma última parceria na indolência da tarde. Às cinco, quando a esplanada estiver cheia com as pessoas entretanto saídas do trabalho, caminharemos até Gemma e de lá seguirei sozinha até à estação, onde iniciarei viagem inversa àquela que, anos antes, me levou ali contrariada. Hammershøi continuará à beira do rio, em cada árvore, cada vez mais longe e ainda mais minha. Com sorte, quando o avião levantar voo, poderei ainda reconhecê-la na teia de água que, no litoral, reflecte os restos do sol. Daí a umas horas serei outra vez da cidade de Ulisses, que surgirá etérea, impossível, jangada radiosa sobre a noite negra das águas do Tejo, e desejarei chegar.

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as cidades Cinco pessoas escrevem sobre cidades, reais ou imaginárias, mas vivas dentro de si. Porque uma cidade tem vida e é esta que a define. Nova Iorque, Hammershoi, Lisboa, Fava ou Rio de Janeiro são cidades vividas dia a dia, passo a passo, cada qual à sua maneira. Diariamente as suas histórias, aqui no obvious. Todas as histórias na página das cidades
 
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7 comentários

São, que coisa mais bonita... Há uma certa melancolia embalada nessa despedida. Ah, um dos meus favoritos.
Gostei muito deste trecho:

"devem abrir os olhos, encher-se de pássaros e de transparências, de sombras, silêncios e música, de sol, de verde pleno e exuberante, existir no mundo, fora do sono, existir para tudo, para a vida, para a largueza luminosa do Verão, para mim."

isabella em 29 de março de 2008 às 14h06

Tu de facto dás-lhe muito bem nas árvores...

Chloe em 29 de março de 2008 às 15h09

Essa musa do Brancusi dá a sensação de que, se a beijarmos, vai acontecer alguma coisa.

tajana em 29 de março de 2008 às 23h09

Sim: transformas-te numa estátua de sal...

seven em 29 de março de 2008 às 23h32

Sal => comida! E depois nós é que estamos sempre a falar do mesmo...

tajana em 29 de março de 2008 às 23h48

Nem me passou pela cabeça :(
Isso é mania da perseguição, pá!

seven em 30 de março de 2008 às 00h12

Obrigada :) Foi uma estranheza boa: de repente ver surgir uma musa de Brancusi quando estava a escrever sobre/pensar nas tílias. Não ocorreria se não estivesse embalada e antes nunca tinha pensado nas musas adormecidas de Brancusi desta maneira. Aceitava-as, só, com os olhos fechados e a paz. Agora acho que a urgência também faz sentido quando se olha para elas, que alguma coisa vai ter de acontecer a seguir aos olhos fechados.

sao em 31 de março de 2008 às 13h55

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