Hammershøi – É já ali

Publicado em cidades por sao em 3 mar 2008 | 3 comentários

 Cidades Conto Ensaio Ficcao Hammershoi Romance

De cidade indesejada e que me foi imposta, Hammershøi depressa se transformou numa das cidades da minha vida. Dei por quase todos os momentos em que se insinuou, tão inesperados e incríveis foram, e em muitos deles poderia ter suspeitado da minha sanidade mental – a cidade parecia, de forma consciente, interagir, mostrar-se – se não soubesse, mal ou bem, que é na ilusão da personificação que amamos, ou não, as cidades.

Comecei a regressar mesmo sem trabalho e da escadaria do terraço de Gemma tenho feito, se não chove, a esplanada preferida para a leitura do jornal do dia, que prendo ao chão com a ajuda de seis pedras pequenas e pesadas, levantando-as e redistribuindo-as à medida que avanço, sempre da última para a primeira página. Na sinfonia insana de verdes que é a floresta, Gemma é a minha pausa, o castanho e o cinzento preparando-me para a intensidade colorida de cada dia.

A floresta omnipresente seria, por si só, característica bastante para me ligar à cidade de forma insondável, mas em Hammershøi agrada-me também o facto de conseguir, sem nada ter feito para isso, ser invisível. Ninguém parece dar por mim. Melhor: ninguém me estranha a ler o jornal no terraço da Gemma. E se me apetecer sentar sob uma das árvores, não tenho de fingir ler ou fotografar. Outras pessoas fazem as mesmas coisas. E mais um pormenor simpático: quando me sento numa das esplanadas, se as árvores choveram flores para a toalha de mesa, quem vier atender-me deixa ficar as flores.

A somar à floresta, ao Carvalho de Lung, à Torre, à Praça de Gemma, Hammershøi tem, dignos de nota, bizarros tesouros e comuns relíquias citadinas - museu de arte antiga e museu de arte contemporânea; estação de correios nova e a velha; uma rua só com galerias de arte; inúmeras esplanadas sob as árvores e sob potenciais cagadelas de pássaro; a repetição de objectos comunitários e infra-estruturas revestidos com lápis-lazúli ou simplesmente pintados com tinta da mesma cor; um lago, de águas negras, que parece nascer nas fundações do edifício da câmara municipal e que completamente o circunda, transformando-o em ilha; o mar verde e cinzento, escuro e luminoso, opaco e transparente, tempestuoso, que se infiltra mesmo nas noites mais amenas.

Acordar em Hammershøi parece-se ao acordar em alto mar. A madrugada espalha intensa maresia, nem os edifícios que com maior rigor foram protegidos dos elementos escapam. Farto-me de sonhar com uma floresta inundada, em que a minha cama é um colchão insuflável.

Regresso muito pelo prazer de andar a pé. Lisboa, ao contrário do que dizem más-línguas mais ou menos inertes, faz-se muito bem a pé, não apesar das colinas, mas por causa das colinas, visto estas introduzirem variações na dificuldade dos passeios e, continuamente, nos submeterem a testes de resistência… calcula-se bem o estado das pernas. Em Hammershøi, pelo contrário, lida-se com um solo plano e sem surpresas, perigoso de tão aparentemente fácil, que só dá sinal quando as pernas perdem de repente a flexibilidade, começando a responder com dolorosa rigidez, como peças de madeira lançadas ao chão. Daí até ao colapso das forças para esse dia, é um ápice.

Em Hammershøi, os passeios fazem-se atrás das árvores. O município mantém uma lista, de actualização anual, com todas as árvores que vão sendo declaradas património cultural e, com a mesma periodicidade, é lançado um mapa que as assinala e que permite passear em busca dos milenares gigantes. São passeios de ir só ali, já que as árvores, isoladas, nunca distam muito umas das outras, embora juntas dêem diversas vezes a volta à cidade. Pode-se ir só ali e andar vinte quilómetros sem perceber.

as cidades Cinco pessoas escrevem sobre cidades, reais ou imaginárias, mas vivas dentro de si. Porque uma cidade tem vida e é esta que a define. Nova Iorque, Hammershoi, Lisboa, Fava ou Rio de Janeiro são cidades vividas dia a dia, passo a passo, cada qual à sua maneira. Diariamente as suas histórias, aqui no obvious. Todas as histórias na página das cidades
 
Sao Reino São Reino é uma colaboradora multifcetada do obvious, verdadeira malabarista que tanto escreve sobre arte como aparos de canetas. Conheça mais sobre esta autora na sua página de perfil.Saiba como publicar um artigo no obvious.
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3 comentários

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Atiçaste meu desenho em conheçer essa cidade...

"E mais um pormenor simpático: quando me sento numa das esplanadas, se as árvores choveram flores para a toalha de mesa, quem vier atender-me deixa ficar as flores."

Parece-me bom demais pra ser verdade... deve-se, a todo momento, ter a sensação de estar sonhando acordado.

Eduardo em 6 de março de 2008

eu precisava disso, dessas árvores para ler, para fazer desaparecer as necessidades de ar-condicionado. brisa natural

roubei uma frase tua, espero não ter de pagar royalties :)

priscilla em 7 de março de 2008

eu hoje tirei o dia para ver se tenho comentários não respondidos em textos antigos e aqui estão dois! mil perdões e obrigada, eduardo e prill :) não sei como então não dei por isto.

sao em 14 de janeiro de 2009

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