Hammershøi – Nairadom

Publicado em cidades por sao em 13 mar 2008 | 9 comentários

 Cidades Conto Ensaio Ficcao Hammershoi Romance

É uma estátua com cerca de três metros de altura. Mostra uma mulher sentada a tricotar uma meia. A meia dá-lhe a volta à saia várias vezes, alargando-se primeiro e depois subindo, ameaçando envolvê-la. A meia é interminável e, se o não é na estátua, foi interminável na mulher. A mulher chama-se Cassandra. Cassandra é antiga e presente. Cassandra morreu mas é.

Cassandra de pedra branca fita-nos, curvada, eternamente a tricotar, nas ruínas da Catedral de Nairadom, e é a primeira e principal figura da exposição permanente do Museu de Nairadom, a mais significativa, embora os responsáveis tenham tido a sensibilidade de omitir placas, de não a tratar como peça - a informação é-nos facultada em desdobrável, na recepção do museu propriamente dito, quando de livre vontade aceitámos sair do sonho.

Conta-se que num longínquo Inverno que durou três anos, três anos de chuva, neve, vento cortante, três anos sem sol, quando a cidade foi assolada por uma série de doenças relacionadas com o frio e a má nutrição, Cassandra, então com treze anos, começou a tricotar meias e camisolas para todas as crianças da sua rua. A notícia terá alastrado e depressa Cassandra tricotava para toda a cidade. De graça. Por generosidade, dizem uns, por loucura ou por soberba, dizem outros, polémica de café que não é mais que a procura de uma auto-justificação por parte daqueles que se enredam nela, consoante ainda se esperam, ou já não, capazes de dar.

O tricot de Cassandra salvou vidas e, acarinhada, a sua lenda é, a par da aquática tragédia que marca a origem da cidade, uma das mais férteis fontes de inspiração da população. E é ela que se senta, generosa obsessão de pedra, em Nairadom, e a meia que a circunda, enorme, tem tanto de metáfora como de exacta ironia: com oitenta e um anos, quando fazia um par de meias para um dos bisnetos, Cassandra perdeu a noção do tempo e do mundo. Não que se tenha esquecido do tamanho correcto do canudo de uma meia, menos ainda da agitação ordenada das agulhas. Cassandra esqueceu como se fazia o calcanhar, essa curva engenhosa em que a linha se adensa e a meia vira a caminho do pé. Por não se lembrar, nunca mais parou. Quando morreu, meses depois, tinha feito um canudo de dez quilómetros.

Nairadom, que receberia a sua estátua, foi construída totalmente com tijolos de barro e abandonada trezentos anos depois, quando as paredes mostraram pertencer mais à fertilidade plana da terra do que ao aprumo circunspecto dos homens. Os eclesiásticos continuaram a guardar as chaves e a tratar a madeira das portas. Com zelo. Em vão. Anos volvidos, a vegetação tinha conquistado as paredes e, no interior da catedral, as árvores rasgaram os tectos, abrindo passagem em direcção às nuvens. Com a catedral quase completamente restituída ao sagrado, os eclesiásticos, pragmáticos, doaram ao município a ruína e os terrenos adjacentes.

O município assumiu a conquista do espaço pela natureza e quando foi necessário construir edifício que albergasse a colecção de arte antiga, projectou-o para o fundo da propriedade. Nairadom surgiu então como portal de acesso aos cuidados jardins do museu. Cassandra está sentada na área correspondente à nave central da antiga catedral, rodeada de vegetação espontânea, flores, arbustos, ninhos e pássaros, insectos e árvores. Com o tempo, parece-se cada vez mais com o que a rodeia, o musgo macio a nascer da humidade da pedra.

Não nos enganemos, porém: não há aqui negligência. Há vontade racionalmente dirigida a um fim, o de fundir Cassandra, que continuou Hammershøi, e a floresta, que gerou a cidade, num mesmo tempo e lugar. Como se a pedra, tornando-se verde entre os pássaros, se aproximasse mais do que é vulnerável e vivo e a história que representa fosse menos ausente da respiração presente do mundo. Por esta razão, a estátua é atentamente vigiada, amiúde limpos os detalhes mais frágeis da pedra e, de quatro em quatro anos, a sua alvura totalmente recuperada. Depois, lentamente, as estações levam Cassandra de regresso à floresta.

De Cassandra e Nairadom eu já conhecia a existência antes de Hammershøi. E aqui entra a minha natural distracção: tendo visto a estátua e lido a respeito na Internet, a última coisa a que prestei atenção foi ao nome da cidade. É andar à toa, é, não é algo de que me orgulhe tanto assim. Por outro lado, a impossibilidade de antecipação amplifica a possibilidade da maravilha, que também se faz do inesperado.

Cassandra nas ruínas verdes de Nairadom parece um fantasma. Logo logo não se percebe por que é que para aceder a um edifício sólido e luxuoso, como o do museu, se tem de transpor uma ruína. É enquanto caminhamos sobre o chão irregular e desnivelado de Nairadom, que sentimos, subitamente, que não estamos sós. Um arrepio à altura dos ombros basta, um instante, para seguir ao encontro de Cassandra. É uma estátua absolutamente bela, mais ainda na vulnerabilidade humana da ruína que a envolve. Que somos feito disso, diz. De teimosia e de fragilidade. De pedra e de pássaros. Do que fica, do que nasce, do que regressa.

as cidades Cinco pessoas escrevem sobre cidades, reais ou imaginárias, mas vivas dentro de si. Porque uma cidade tem vida e é esta que a define. Nova Iorque, Hammershoi, Lisboa, Fava ou Rio de Janeiro são cidades vividas dia a dia, passo a passo, cada qual à sua maneira. Diariamente as suas histórias, aqui no obvious. Todas as histórias na página das cidades
 
Sao Reino São Reino é uma colaboradora multifcetada do obvious, verdadeira malabarista que tanto escreve sobre arte como aparos de canetas. Conheça mais sobre esta autora na sua página de perfil.Saiba como publicar um artigo no obvious.
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9 comentários

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Muito bom, D. São. E eu por sinal sempre tive um fraquinho pela Cassandra - mas a outra.

Chloe em 14 de março de 2008

Lindo lindo, São! E esse final, hein? Uma maravilha...

"É uma estátua absolutamente bela, mais ainda na vulnerabilidade humana da ruína que a envolve. Que somos feito disso, diz. De teimosia e de fragilidade. De pedra e de pássaros. Do que fica, do que nasce, do que regressa."

(pois que eu também pensei numa Cassandra, uma mais arcaica talvez?)
=)

isabella em 14 de março de 2008

A outra Cassandra também predizia ruínas, e ninguém acreditava nela.
Não me lembro de como morreu. Assassinada por Agamémnon?

chloe em 15 de março de 2008

Segundo reza a mitologia, parece que foi a mulher de Agamémnon e seu amante que assassinaram Cassandra e o herói aqueu, que estavam amancebados. Uma história sórdida. Dava um belo fado...

Author Profile Page seven em 15 de março de 2008

Diz que sim, Seven. Se bem me lembro, o Agamémnon trouxe a Cassandra, uma das filhas do rei de Tróia, como troféu depois da vitória dos gregos. Ela passou a viagem a avisá-lo, "Olha que isto ainda vai dar asneira, olha que a tua mulher vai matar-me a mim, e depois a ti, e depois o teu filho vai matar a tua mulher e o amante dela para te vingar, etc..", mas ele não lhe ligou. Salvo erro, a história é contada na Oresteia, do Ésquilo. Bons tempos.

Chloe em 15 de março de 2008

Falava da própria, cujo dom se transformou em sina, maldição. A fala de Cassandra na peça é de uma unidade impressionante, principalmente as linhas em que ela antecipa a própria morte. Foi a esposa de Agamemnon quem a assassinou - primeiro mata o marido e depois a amante. Quanto ao seu amante, este aparece somente no final.

isabella em 15 de março de 2008

Qualquer dia o Filipe La Féria aparece aí com uma adaptação disso ;)

Author Profile Page seven em 16 de março de 2008

não compreendo como só agora vi estes comentários!
peço desculpas.
obrigada chloe, isabella e sete :)
Já não vou responder em pormenor, só a essa coisa do La Féria: vá de retro, porra pah.

sao em 14 de janeiro de 2009

Já tinha assistido um vídeo no YouTube, criado em algum lugar do leste europeu. Apesar de meio longo( ou não, talvez fosse apenas a ação contínua sem fim) assisti 3 vezes. Incrível como me hipnotizou aquela Sra. e sua persistência patológica.

F em 20 de setembro de 2009

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