Lista de lugares esquecidos

Publicado em cidades por prill em 26 mar 2008 11:27 PM | 3 comentários

 Cidades Conto Ensaio Ficcao Romance Rio Janeiro

Quando já se está parado ou plantado em um lugar, afora a essência, é tudo indiferente: essa é a grande agonia de tentar recobrar com detalhes alienígenas o que se viu em todas as horas de todos os dias, de muitos. Vem daí o apego ao fora do lugar, à ruptura da repetição e às vezes imagino que fica aí a esperança de reter uma memória gravada sobre os sentidos viciados. É a falta de lembranças sobre os detalhes das pessoas, dos passos, dos móveis, dos modos que indicam a intimidade do sujeito, é como estar tão próximo até tornar o objeto uma completa desnecessidade de perguntas. Só a perda sistemática das mesmas memórias, ou a impossibilidade de retê-la por um tempo suficiente de fazer lembrança, é que deixam perceber o cotidiano como uma estrutura cheia de pequenas peças combinatórias irrepetível.

Imaginei que nevava e desembrulhei o que estava no guardanapo havia 5 dias; agora corria pela Avenida Rio Branco tentando fazer com que não fosse o fim do expediente. Pronto, portas fechadas. O dono da loja passava o cadeado com calma, um senhor muito branco e eu ali parada feito fim de meia-maratona. Algumas coisas acontecem estranho porque, por mais que eu tente discorrer sobre aquele fim de tarde, sobre como a avenida é espaçosa ou sóbria, como lá os ar-condicionados chuviscam, no final esqueço da minha invenção de metrópole e me apego ao interesse sobre o senhor muito branco que ia fechando a loja. Mais, me apego e quero contar que ele sorriu um sorriso desses que só se esperam no Natal. E lá em casa uma resma de papel esperava por impressora, com que tinta? O moço ouviu calmo minhas palavras entre os resfôlegos, mas já ia mesmo desfazendo o nó do cadeado. Não tem problema... às vezes fico aqui até as oito. Colorido ou preto&branco?

Havia 5 dias, bati na porta do prédio errado onde, ao invés de uma agência de empregos, funcionava uma agência de... agora corria pela avenida Rio Branco, agora atravessava a Presidente Vargas, agora o carro desviou, agora passava pela porta automática: o mármore amarelo cresceu em cima e vazou pelos lados das minhas pálpebras mesmo eu não tendo visto nada porque quase me joguei no colo do bilheteiro que destacou o papel e desejou bom filme d'uns minutos começados. Era “Viva Argélia” e não vou me esquecer, disso não, que cheguei a tempo do letreiro.

Pode-se traçar uma forma geométrica no mapa de lugares onde, você não sabe, nem como, mas se faz presente na suspensão de toda necessidade de ir: é chegada. Deve ser isso que gosto no Centro, deve ser isso que me impede de achar que um outro lugar seja o ponto morto pra onde os pensamentos calmos e esquecidos convergem. Para um italiano, o que isso tem de antigo? Pra nós não, que outra referência mais recuada no tempo ia procurar se na calçada fica uma marcação de até onde batia a água antes do aterro, uma água que ninguém nem viu? Do Rossio ao atual Terreiro do Paço [antiga Praça XV], o Império do Brasil nunca vai parecer ter terminado outro dia pela noção veneziana do tempo; é imemorial com todas as igrejas, todos os sobrados que agora funcionam até restaurantes vegetarianos. Faço um desenho de pontos que vão dar nas bandeiras papel-seda da Saara / onde em baixo funciona um sebo / onde dentro há um banquinho / onde, se você não sentar, vai ter de ler o título dos livros em quatro patas / onde os paralelepípedos já soltaram. Tromba-se com a Praça Tiradentes cor de fuligem [Largo do Rossio]. Uma banca imensa vende frutas pras putas que passam sem interesse em não-passar, mas os teatros ficam alheios a igreja Presbiteriana, que canta umas músicas, e o Real Gabinete Português, que boceja.

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Não conheço outro lugar onde seja mais difícil recobrar como é, de onde ou como é feito. Não há. Por isso – penso – acontece de desenhar essa tal linha até o segundo ponto, a Praça XV, o Paço. Reformou-se a igreja e as pessoas e eu passamos-paramos com a cabeça virada pra cima como se os crucifixos e as torrezinhas tivessem brotado ali de ontem pra hoje, pesa como um detalhe, surpresa, mudança, mas estava tudo lá faz mais de duzentos anos – em Roma é mesmo pouco.

O mármore tem esse tom claro de amarelo, essa intenção toda. A Rua Primeiro de Março desemboca em certo ponto na Presidente Vargas e quase me vejo correndo no sentido oposto (por distensões temporais) atropelando os carros, os pivetes, passando pela porta automática e caindo novamente no mármore, no colo do bilheteiro - mas agora sem pressa já que não pude apreciar bem na primeira vez. Desembrulhei a maçã do guardanapo e sentei nas escadas em baixo da cúpula do Centro Cultural, é isso impressionar-se? É esquecer e depois lembrar? É ver sem ver e de repente ver? Posso salpicar os tempos que passo lar e me ver em diferentes dias, beber diferentes cafés com biscoito, desejar comprar o mesmo catálogo do Kovalik [atrás da vitrine], encontrar sentado sem esperar o mesmo homem, jogar futebol com outras bolas de feltro, perder a sessão da peça do Melamed, ver uma gravura do Picasso, perceber que esqueceram de legendar Donnie Darko, cheirar os cabelos da minha amante enquanto ouvimos pelo alto-falante instalado: queijo, piece, chien, caña, gajo...

Virei a câmera fotográfica para o teto e prendi a perda pra sempre, perda da minha Argel, do meu Rio, do meu samba, meu funk, praia, urina, Debret, tiros, erudição...

A pausa que refresca:
Dali pra Rua do Rosário passando por aquelas esculturas de ferro. Uma delas juro que é uma mulher corpulenta com as pernas abertas em esparguete, a outra não sei. Todo mundo manda vir o chopp: são visões de uma irrazão que corrompe as pessoas desse lugar como se o resultado da dor fosse o riso.

as cidades Cinco pessoas escrevem sobre cidades, reais ou imaginárias, mas vivas dentro de si. Porque uma cidade tem vida e é esta que a define. Nova Iorque, Hammershoi, Lisboa, Fava ou Rio de Janeiro são cidades vividas dia a dia, passo a passo, cada qual à sua maneira. Diariamente as suas histórias, aqui no obvious. Todas as histórias na página das cidades
 
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3 comentários

Peguei o primeiro parágrafo e tatuei Com tinta a óleo no teto das minhas gavetas, lá onde não posso ver, a cabeça não cabe e só o tato percebe.
A cidade tirou fotos e ativou fonemas e honomatopéias na superfície dos objetos tocados pela visão do que há transcrito aqui. Não existiu gosto naquele topo, era só o cheiro do café e dos sotaques nas palavras subindo lá do fundo, sabendo que um dia alguém as transformaria em fotografia escrita no que há de tênue entre a lembrança e o esquecimento.

Juliana Stanzani em 31 de março de 2008 às 01h29

*Onomatopeias
=/

Juliana Stanzani em 31 de março de 2008 às 01h42

um comentário e um asterisco. ganhei.

obrigada, minha querida. só vai ter moldura mesmo na nossa lembrança de palitinho de picolé (acabei de lembrar so esqeucimento do troco nas barcas! ai!).
fotografia escrita, e sei lá fazer outra coisa...? beijos rodoviários.

prill em 1 de abril de 2008 às 06h35

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