Manuel ceguinho em cima dum burrinho

Publicado em cidades por chloe em 25 mar 2008 11:24 PM | 11 comentários

 Cidades Conto Ensaio Ficcao Fava Romance

Também o dia parecia novo. O Verão queria começar, e o calor era uma agitação involuntária no ar, nas pessoas, no movimento dos carros e no verde novo das árvores. Pedi um chá numa esplanada em frente ao rio, a tentar acomodar-me à minha nova pele, a cheirar-me discretamente para ter a certeza de que era mesmo eu. Não tinha nada melhor para fazer, e é assim mesmo que gosto de estar nas cidades - estando apenas, tentando adivinhar a vida das pessoas que passam, contando quantas atravessam a ponte para o outro lado, quantas param à espera, a tomar uma decisão sobre o melhor caminho, a meter a mão ao bolso para terem a certeza de que não se esqueceram da chave.

Alguém me chamou, e demorei até perceber que era o meu nome. O Kamil sentou-se ao meu lado com um grande sorriso. Enquanto esperava o chá, olhou em volta e comentou que eu era a única mulher na esplanada. Eu ri-me; de facto, vinha habituada a cidades maiores e mais indiferentes à questão do género, como Istambul e Edirne. Não era mal-vinda, mas reparavam.

E que fazia ele? Endireitou-se, meio atrapalhado. Ia falar com umas pessoas, que circunscreveu num gesto de prestidigitador tímido. Percebi que o mundo conhecido acabava ali, e não insisti. Mas, como toda a gente, ele tinha vontade de fazer confidências a alguém de fora da sua cidade, e avançou. Ia ter com uma cigana que lia a sina. Eu não me ri, o Kamil continuou. Tinha pensado sair do país, procurar trabalho na Europa, mas queria saber. Por isso ia falar com a cigana. Ali, trabalhava no café durante o dia, e ajudava um primo que tinha uma oficina, aos Sábados e Domingos, mas isso não lhe dava para, um dia, sustentar uma família. Como eu continuava sem me rir, convidou-me a ir também.

A cigana vivia num rés-do-chão à sombra da torre bizantina, que se erguia uns bons doze metros até terminar numa plataforma meio arruinada. O bairro começava nas traseiras da torre, e dava para perceber que ali se marcava uma das fronteiras invisíveis da cidade - pela poeira, pelas caras, pela maneira como as crianças jogavam à bola no meio de nada. A cigana tinha cinquenta e muitos anos, era gorda, com enormes olhos escuros que brilhavam e se agitavam como peixes na pele cor de canela. A saia rodada, cheia de esconderijos, terminava numa barra de flores. O Kamil sentou-se com ela a uma mesa pequena, e eu fiquei ao lado, num canapé, à espera.

A mulher pegou-lhe na mão - e pela primeira vez, à luz forte do candeeiro de mesa, reparei como era uma mão extraordinária, com uns dedos de pianista, compridos e muito direitos. Conversaram durante uns quinze minutos. O Kamil estava nervoso, e eu começava a imaginar que histórias lhe contaria a mulher sobre o futuro. Finalmente, ela fez um longo 'Aaaaahhhh!' seguido de uma palavra que repetiu umas cinco vezes, ele respondeu com um 'Ah-haaa!' satisfeito e terminaram a sessão. O Kamil levantou-se e apontou-me a cadeira. E eu, que nunca tinha sabido nada do meu futuro, muito menos que um dia viria a Fava, aceitei.

Em vez de me ler a palma, a mulher apertou-me as mãos nas suas; depois, pousou sobre a mesa um punhado de botões de papoila. O Kamil, que servia de intérprete, explicou-me que tinha de escolher. Olhei para os botões ovais, acabados de colher, cobertos de penugem. Peguei num. A mulher fez-me sinal para que o abrisse, e eu hesitei - não por medo das suas profecias, mas porque, desde pequena, nas minhas brincadeiras, sentia a angústia do gesto irreversível de abrir um botão de papoila. Eu sabia tudo - ia pressionar a cápsula mole, medir-lhe a resistência, e com um toque da unha ia rasgar a fina bainha que a dividia em metades. E a esse primeiro golpe veria, lá dentro, a confusão íntima das pétalas, o vermelho profundo, embrulhado sobre si mesmo, e depois, ao puxar, devagar, as pétalas iam sair, amarrotadas, finas e suaves como a seda e com o mesmo brilho mate e escamoso que parecia feito de milhões de grãos minúsculos tocados pela luz da manhã.

Era de toda esta beleza que eu podia desfrutar ao abrir a cápsula - mas não conseguia deixar de pensar sempre, sempre, nos instantes antes de fazê-lo, que nunca mais seria capaz de arrumar as pétalas de novo dentro do botão, que o meu gesto e aquele prazer eram o princípio e o fim. Valia a pena explicar isto a uma mulher que vivia de revelar o futuro? Achei que não, e abri o botão, derramando sobre a mesa uma mancha vermelho vivo que a mulher olhou fixamente durante uns segundos. E suspirou.

(O Kamil ia traduzindo.)

Vais fazer uma longa viagem.
Nessa viagem vais encontrar um homem num burro
.
Reparei que o Kamil assumia uma pose muito garbosa para um futuro daqueles; seria de facto um burro? Não seria um cavalo?, sugeri.
Sim!, assentiu ele, um cavalo, um homem a cavalo!
Esse homem anda à tua procura há muitos anos; atravessou o mar à tua procura, vem duma cidade do outro lado do mundo.

E como tinha ele atravessado o mar?, perguntei.
A cigana ouviu o Kamil repetir-lhe a pergunta e calou-se; os dois peixes pararam a olhar-me, avaliadores.
Este homem pode atravessar por dentro do mar, explicou, com um gesto ondulante e subaquático.
O homem traz-te um prazer muito valioso.
Um prazer? Era esta a tradução do Kamil; o que quer que o homem me trouxesse, era difícil saber, mas começava a gostar daquela versão do meu futuro governada por equívocos de linguagem.
Mas vejo um perigo, disse ela, puxando devagar uma das pétalas, Tens de ter cuidado com frigoríficos.
Entendido.
Posso fazer perguntas?
Podia.
Consegue ver tigres no meu futuro?
O Kamil pediu-me que repetisse e confirmou, com uma mímica eficaz de quem dormira anos naqueles cobertores, que eu queria mesmo dizer tigres. Consegui perceber, por entre o mar confuso que o turco era para mim, uma única palavra, kaplan, dita devagar como para evitar dúvidas na cigana.
A mulher olhou-me de novo, depois olhou a papoila, que já murchava.
Não. Não tigres.
Como se quisesse mudar o campo de jogo, fez-me abrir mais um botão de papoila. Em vez de vermelhas, as pétalas desta eram de um rosa pálido, incompleto.
O Kamil traduziu-me, com a satisfação de um portador de boas novas: vais ter cinco filhos.
E como se de comum acordo, como se o mundo terminasse ali, os dois levantaram-se ao mesmo tempo, a mulher recolheu os botões para uma taça de plástico, o Kamil pagou ambas as consultas, apesar do meu protesto, e saímos.

E o teu futuro, perguntei eu?
Ele encolheu os ombros.
Vem aí uma coisa boa, e é aqui em Fava, disse, como se fosse um segredo. Não sei a que se referia; quanto a mim, pensei logo no almoço.

as cidades Cinco pessoas escrevem sobre cidades, reais ou imaginárias, mas vivas dentro de si. Porque uma cidade tem vida e é esta que a define. Nova Iorque, Hammershoi, Lisboa, Fava ou Rio de Janeiro são cidades vividas dia a dia, passo a passo, cada qual à sua maneira. Diariamente as suas histórias, aqui no obvious. Todas as histórias na página das cidades
 
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11 comentários

Delicioso o texto. Principalmente o detalhe da leitura da sorte pela cigana. Já tinha lido ou experimentado a leitura da sorte por borra de café, por vísceras de animais, por pedras, búzios, pelos vôos das aves, enfim; ler pelas pétalas contidas num botão de papoila é extravagante, e curioso. Principalmente levando-se em conta que é a minha flor predileta. Parabéns.

Djabal em 26 de março de 2008 às 11h27

Em Lisboa a dona de um restaurante marroquino leu-me uma vez a sorte na boora do café - sem eu pedir. Quando dei por mim, já estava.
Chloe, que lindo :)
E nem falta o fim, que vai fazer as delícias do Sete >:>

sao em 26 de março de 2008 às 22h41

Recomendo a (re)leitura d' "O Adivinho", a última das grandes histórias de Astérix. Está lá tudo...

seven em 26 de março de 2008 às 22h45

Obrigada. O futuro é mesmo assim: quando dás por ti, já está:)
O final foi o Seven que me obrigou a acrescentar, para poder depois fazer o comentário do costume.

Chloe em 26 de março de 2008 às 22h51

E o título é genial. Tenho a sensação de me lembrar de títulos assim nas antigas histórias infantis (da família e do tempo do Tourinho Azul e assim) :)

sao em 26 de março de 2008 às 22h51

Não me lembro disso do Tourinho Azul - só da colecção Formiguinha. Este título é daquela ladainha:
Manuel Ceguinho em cima dum burrinho
O burrinho bate sola em cima duma bola
A bola é redonda em cima duma pomba
A pomba é branca em cima duma tranca
A tranca é de pau em cima dum bacalhau

(e não sei mais...)

Chloe em 26 de março de 2008 às 23h01

O seven tem as costas largas...

seven em 26 de março de 2008 às 23h23

"seven ceguinho todos lhe batem, coitadinho..." :(

seven em 26 de março de 2008 às 23h24

"Ela colocou sob minhas mãos uma gamela de vinho, e como purificasse meus dedos, todos igualmente estendidos, com alho-poró e aipo, megulhou avelãs no vinho rezando uma prece. Se as avelãs boiassem, se afundassem, disso tirava suas previsão." Petrônio in Satíricon

Djabal em 27 de março de 2008 às 10h16

Avelãs - grande ideia! É curioso que não me lembro disso, no Satyricon.

Chloe em 27 de março de 2008 às 11h45

Meias casquinhas de noz também era bonito. Se afundassem ou chegassem à outra margem de um alguidar, assim alguma coisa se saberia.

sao em 27 de março de 2008 às 14h05

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